Introdução

 Ainda antes da prisão de Nelson Mandela, ele já tinha um relacionamento com os revolucionários moçambicanos, pois, comungavam das mesmas ideias, porque a África do Sul apesar de ter conquistado a sua independência territorial em 1910, ainda prevalecia um sistema de apartheid, que de acordo com a sua política a África do Sul era um país exclusivamente dos brancos. Todas as pessoas de raça negra eram agrupadas, segundo a sua etnia, em territórios sem as mínimas condições de vida, conhecidos por bantustões ou bantustans. Moçambique e África do Sul tem relações históricas e étnicas, devido ao apoio que os Moçambicanos concederam aos Sul africanos durante a vigência do apartheid na africa do Sul. Importa referir que o braço armado do ANC Umkonto We Sizwe, teve moçambique como apoiante de libertação.

Cooperação bilateral entre Moçambique e Africa do Sul.

As relações de cooperação entre os dois Estados são sinuosas, dependendo da vontade do líder, pois indicam um conjunto de metas que o estado procura realizar num determinado período com Moçambique. Vale dizer que, a sinuosidade das relações entre os dois estados, é devido aos problemas da génese do ANC, porque dentro deste partido político, existe uma aliança tripartida, Umkonto We Sizwe, COSATU-Confederação dos Sindicados Sul-Africanos e o Partido comunista sul-africano. Portanto o ANC, mais do que um partido é um movimento abrangente (broad church) que procura capturar e enquadrar, dentro da sua estrutura organizacional e de actuação, grande parte das forças vivas da sociedade, o que transporta contradições ideológicas que de certa forma afectam o processo de formulação de decisões e de políticas públicas. A maior contradição ideológica que ocorre dentro do ANC é aquela que opõe os Socialistas moderados aos Neoliberais. Por isso, a linhagem do pensamento do Presidente determina muito a simpatia com Moçambique, ademais, importa salientar que a questão histórica do apoio que Moçambique deu ao Umkonto We Sizwe, também tem falado alto dependendo da vontade das lideranças. As diferenças ideológicas dentro do ANC tem ditado muito sobre a sinuosidade de cooperação entre Africa do Sul e Moçambique. Por um lado a esquerda tem a tendência de uma cooperação solidária com Moçambique, e, por outro a direita, apenas mantém as relações de vizinhança.

Caracter da liderança sul africana com Moçambique

É importante salientar que durante o governo de Nelson Mandela que tinha uma vertente mais humanista e progressista, as relações de cooperação entre Moçambique e Africa do Sul, assumiram uma certa roupagem de solidariedade entre os dois povos, pois tinha-se uma percepção de que Moçambique havia hipotecado parte dos seus interesses a favor da  libertação Sul-Africana, esperando, uma cooperação saudável tanto sob o ponto de vista de investimento produtivo como comercial. A acção de Mandela de priorizar as relações históricas com Moçambique está ligada ao sofrimento  a que Moçambique foi vitima durante a vigência do apartheid. Neste âmbito Mandela reconhece a desestabilização política e económica e as oportunidades de desenvolvimento perdidas pelo Moçambique em virtude de se ter posicionado contra o regime de apartheid e ter dado apoio ao braço armado do ANC Umkonto We Sizwe.

Com a ascensão de Thabo Mbeki ao poder em 1999 que tinha uma visão neoliberal e pragmática, África do Sul para com Moçambique revela-se egoísta na sua interacção , devido à linha de orientação do presidente Mbeki, pois, Moçambique apesar de ter mudado da roupagem política em termos de orientação socialista, continua com ideias socialistas moderadas, porque na essência na sua orientação socialista o paradigma ainda existe. Enquanto que Thabo Mbeki neoliberal prioriza a retirada do Estado na Economia como agente produtivo e em determinadas situações saindo da economia através de uma politica de desestabilização.

A queda de Thabo Mbeki na África do Sul, trouxe um novo cenário nas relações entre Moçambique e África do Sul, devido às questões históricas. Portanto, vale dizer que Jacob Zuma enquanto membro do braço armado do ANC, esteve em Moçambique, não como refugiado político, mas teve Moçambique como apoiante de libertação, portanto a actuação de Jacob Zuma na relação de cooperação entre os dois Estados foi de solidariedade entre os dois povos, embora que a questão da xenofobia veio macular a governação de Jacob Zuma, mas o que vale é que as relações diplomáticas, não foram afectadas, embora que em Moçambique houve um grupo de activistas dos direitos humanos que marcharam para a embaixada sul-africana, pedindo a comunidade internacional, veementemente, para que o governo de Jacob Zuma e o então rei tradicional Zulu GoodWill Zwelithine, fossem responsabilizados, por onda xenófoba, porque na percepção dos activistas nada se fez para evitar e o governo da África do Sul deve honrar com os compromissos internacionais no concernente à protecção dos cidadãos, independentemente da sua natureza. Deve garantir o reforço da lei e ordem.

A actual governação sul-africana de Cyril Ramaphosa, olha mantém apenas a relação de vizinhança, porque apesar de o actual líder da Nação sul-africana, não ter uma relação histórica com Moçambique, porque é proveniente da COSATO- Confederação dos Sindicados Sul-Africanos, é inegável que Moçambique foi sempre um Estado importante a nível da região da SADC, devido a sua localização junto ao mar, portanto sempre foi um objecto de cobiça por parte dos Estados do hinterland . A África do Sul em particular, não obstante possuir acesso aos oceanos Índico e Atlântico, tem a saída pela baía de Maputo como a mais favorável para as suas exportações e importações  a partir ou com destino à região mineira de Transvaal. Portanto, a pesar de algumas lideranças sul-africanas olharem Moçambique como um simples vizinho, Moçambique significa muito para africa do sul, porque no passado serviu como base de apoio político e ideológico.

Considerações finais

Em jeito de conclusão, importa referir que Moçambique e a África do sul, na verdadeira acepção da palavra não apresentam boas relações dignas desse nome, porquanto, os problemas acima apontados constituem um grande empecilho, para o desenvolvimento salutar entre os dois Estados. Isto vem avolumar a política difusa de ANC como consequência das disparidades dos princípios políticos dos três movimentos que compõem este congresso.

Importa, também referir que no seio do ANC, existem narrativas de que a África do Sul não pode ter o desenvolvimento almejado, porque está circulado de Estados pobres, que mandam os seus cidadãos em busca da sobrevivência naquele Estado vizinho, e acabam abocanhando o emprego às camadas mais desfavorecidas da África do Sul.

Dai que de amiúde tem se registado pequenas manifestações de xenofobia contra os estrangeiros.

Jaime António Saia, formado em Relações internacionais e Diplomacia, com o potencial teórico nas áreas de negociação, estudos de conflitos e paz, tenho experiência na área de gestão de escritório, e no controlo bancário da empresa, faço pesquisas independentes na área da política internacional. Sou analista da política internacional na soico TV ( STV), na Televisão de Moçambique ( TVM).

Referencias bibliográficas

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Publicado por:jaimesaia