Rafaela Mello Rodrigues de Sá[1]

            A partir da leitura de “20 Anos de Crise” (1939) de Edward H. Carr, é possível traçar uma relação com alguns conceitos abordados por John Ikenberry, em seu livro “After Victory” (2001). Além de conceitos semelhantes que são tratados pelos autores, há também uma conexão temporal, já que eles abordam construções e crises do período Entre-Guerras, a partir da análise de uma Ordem Internacional; além disso, ambos utilizam a história como elemento crucial em suas teorias e análises.

            Carr traz uma abordagem que busca conciliar o pensamento utópico com o pensamento realista crítico, resultando em uma síntese dessas análises entre poder e moral, ao mesmo tempo que realiza uma leitura crítica e histórica do universalismo idealista da época, analisando seus interesses ocultos. Já Ikenberry tem o objetivo de analisar a construção de uma ordem internacional após guerras, investigando o papel dos Estados vencedores na criação e consolidação deste arcabouço institucional, além de buscar entender porque uma ordem é mais sucedida que outras.

            Um dos pontos de encontro entre os autores, é que eles possuem uma relação com a História, uma vez que seus livros buscam analisar certos períodos históricos para que seja possível aplicação de suas teorias. Além disso, é possível explicitar dois pontos principais de contato entre os autores: a perspectiva da criação da Liga das Nações pelo posicionamento de Woodrow Wilson e a análise da Ordem Internacional.

            Escrevendo logo após o colapso da Liga das Nações, Carr posiciona a construção da instituição idealizada por Woodrow Wilson no que ele chama de estágio utópico da ciência, período em que os objetivos predominam a teorização, e os pesquisadores se especializam em elaborar projetos visionários sem se ater aos fatos, sendo uma das prováveis razões pelo falha da instituição (CARR, 1939, p.12). É possível fundamentar esta ideia pela falta de detalhamento do plano da construção da Liga retratada por Carr e Ikenberry, pois os princípios eram amplos e simples, evitando o comprometimento com medidas especificas, não levando a realidade em consideração. Ikenberry também retrata esta questão como um dos motivos para a falha da Liga das Nações, mas também destaca a omissão de Wilson no âmbito interno, demonstrando que o Senado dos Estados Unidos recusou a participação do país devido a falta de um debate político amplo, não convencendo aqueles senadores que buscavam uma participação mais limitada do compromisso americano na Liga, indicando que o projeto estava desconectado da realidade do país (IKENBERRY, 2001, p.151). Além disso, ambos os autores concordam que a ausência de uma harmonia de interesses prejudicou o avanço de uma barganha institucional. Ikenberry percebe que a França buscava mais ação vinculativa dos Estados Unidos, do que o país estava disposto a fornecer (IKENBERRY, 2001, p.161). E Carr vai além, ele descreve que o interesse comum pela paz, disfarçava divergências de interesses entre os que desejavam manter o status quo e os que desejavam mudá-lo (CARR, 1939, p.72).

            A Ordem Internacional pode ser considerada um conceito central nas obras dos dois autores, as recomendações de Carr para uma nova ordem internacional, ao final de seu livro, encontra certas perspectivas de Ikenberry, quando ele constrói seu modelo constitucional de ordem internacional. O posicionamento histórico-temporal de Ikenberry permite a ele explorar fenômenos mais recentes, como a construção do arcabouço institucional pós-Segunda Guerra Mundial, que possibilita dar continuidade ao pensamento de Carr.

            Como abordado na última parte de seu livro, Carr busca trazer uma conceituação de Ordem Internacional a partir da síntese entre poder e moral, uma vez que:

qualquer ordem moral internacional deve repousar sobre alguma hegemonia de poder. Mas esta hegemonia, como a supremacia de uma classe dominante num estado, é por si própria um desafio aos que dela não compartilham e, para sobreviver, há de conter um elemento de reciprocidade, de auto-sacrifício da parte dos que possuem, o que a tomará tolerável aos outros membros da comunidade mundial. É através desse processo de dar e receber, da disposição de não insistir em todas as prerrogativas do poder, que a moral encontra seu mais seguro ponto de apoio na política internacional (CARR, 1939, p.216).

Para ele, esta Ordem Internacional repousaria na questão da Mudança Pacífica, que possibilitaria alterações políticas sem revolução ou guerra, estrutura que deve se basear no meio termo entre moral e poder, por meio da disposição de ambos fazerem sacrifícios no interesse da conciliação (CARR, 1939, p.218).

Com uma análise mais recente, Ikenberry dá continuidade ao pensamento de Carr, na apresentação do modelo de Ordem Internacional Constitucionalista, caracterizada por um acordo compartilhado de princípios, formalizados por instituições que estabelecem limites obrigatórios ao exercício do poder e estão enraizadas no sistema político dos países, dificultando mudanças institucionais, porém permitindo que disputas sejam solucionadas dentro deste âmbito (IKENBERRY, 2001, p.30). E para que isso seja possível, os poderes dominantes devem transformar sua posição preponderante em uma ordem, estabelecendo regras mutualmente aceitáveis entre os Estados Líderes e os outros Estados, deixando claro que não explorará sua posição favorável pela dominação ou abandono. Dessa forma, a construção de uma ordem internacional estável depende dos Estados Líderes demonstrarem confiabilidade aos outros, concordando em limitar suas próprias ações, permitindo a pressão por interesses dos outros (IKENBERRY, 2001, p.60).

Portanto, Carr e Ikenberry possuem visões similares em relação ao fracasso da Liga nas Nações, e a partir desta análise, ambos buscam trazer respostas sobre a construção da ordem internacional, dando respostas parecidas para um mesmo problema. Enquanto Carr trabalha o conceito de Mudança Pacífica composta por um poder hegemônico, tanto quanto por elementos morais de reciprocidade e auto-sacrifício, Ikenberry expõe a barganha institucional presente no modelo constitucionalista, em que Estados Líderes precisam conceder condições para que os outros Estados aceitem participar. Dessa forma, a teoria de Ikenberry poderia ser considerada uma resposta à crítica de Carr, teorizando sobre a “Nova Ordem Internacional” que o autor inglês propôs, mas com elementos da realidade, envolvendo o poder e a moral como pontos, podendo ser considerado a “próxima etapa” desta ciência tratada por Carr como iniciante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CARR, Edward H. 20 Anos de Crise (1919-1939): uma introdução aos estudos das relações internacionais. Editora Universidade de Brasília (1981), versão original lançada em 1939.

IKENBERRY, John. After Victory: Institutions, Strategic Restraint, and the Rebuilding of Order after major wars.


[1] Mestranda em Relações Internacionais pelo IRI – PUC Rio, Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Petrópolis. Atualmente é pesquisadora do Grupo de Pesquisa Estado, Instituições e Análise Econômica do Direito (GPEIA/UFF) e Editora Assistente da Revista Cadernos (PUC Rio)

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