Eurico de Lima Figueiredo (PPGEST/INEST-UFF/CEDEPEM)

Etiene Villela Marroni (PPGCPol/UFPel/CEDEPEM)

Alexandre Rocha Violante (PPGEST/INESTUFF/CEDEPEM)

Em 2020 um microscópico ser biológico, um vírus, impactou o mundo com força meteórica. Classificado como um novo coranavírus, ganhou a designação de COVID 19, mas não se tem ainda uma avaliação, nem se terá, pelo menos durante algum tempo, da extensão de suas consequências econômicas, sociais, políticas e ideológicas. Comparar o COVID 19 e o crack da bolsa de Nova Iorque em 1929 não nos explica muito, pela singularidade própria de cada evento, embora chame a atenção para a interconectividade da economia global.

O PIB mundial deverá sofrer uma retração de 4,4%, mas nem todas as regiões e países sentirão a contração da mesma maneira. A economia da zona do euro recuará 8,3%, com destaque negativo para a Itália (10,6%), França de 8,3%, Alemanha (6%), nenhum retrocesso podendo ser comparado ao do Reino (11,3%), a maior em mais de 300 anos. O PIB dos Estados Unidos, maior economia mundial, cairá 4,3%. Os mercados emergentes terão uma subtração de 5,7%. Entre os componentes dos BRICS a queda maior será o da Índia (10, 3%), África do Sul (5,8%), Brasil (5,8%), Rússia (4,1%) e China 1,9 %. Em 2021, China e Índia deverão mostrar a maior recuperação, em forte V, a primeira com crescimento de 8,2, a segunda com 8,8%. A expansão chinesa será, entretanto, mais significativa do que a indiana, já que sua economia se retraiu muito menos em 2020. Na próxima, estes dados apressarão a mudança do eixo da economia mundial do ocidente para o oriente, com resultados ainda imprevisíveis na dinâmica da política internacional.

            Um retrocesso econômico de tal porte impôs severos danos sociais. Eles não foram distribuídos igualmente distribuídos ao longo da população mundial: regiões e países mais avançados e ricos tiveram mecanismos de defesa mais eficientes, não obstante terem sido, nesses âmbitos, os mais pobres os mais atingidos pela retração econômica. O papel da ciência e da tecnologia, minorando substancialmente os efeitos sociais da crise socioeconômica, foi igualmente diferenciado, quando se compara com o que aconteceu, um século atrás, com a chamada “gripe espanhola”, que causou uma mortandade de 50 milhões de óbitos (algumas estimativas se referem a 60 milhões). Em 2020, mais de 30 milhões de indivíduos foram infectados, causando a morte de mais de 1 milhão de pessoas, – e cada vida não é um simples número, mas um ser humano que sofreu e fez sofrer seu circulo afetivo próximo. O modo de viver e se relacionar nas sociedades impactadas pelo COVID 19 teve que se reinventar, mormente no setor de serviços. Milhares de empresas, públicas e privadas, nacionais e internacionais ao redor do mundo implantaram o trabalho e o ensino a distância, gerando novas formas de atitudes e comportamentos. Terão efeitos duradouros, pois o modo de se trabalhar e se relacionar não mais voltarão a ser ao que eram antes da crise. Os aspectos positivos e negativos, do ponto de vista social, não puderam ser ainda estimados, mas eles terão efeitos sociais marcantes, entre eles os relativos à sociabilidade das pessoas que, em trabalho doméstico, terão que lidar com novas formas de conceber o que é publico (seu trabalho) e o que é privado (sua vida própria, sua vida familiar). Em plano mais geral, o balanço, ao final, penalizará mais os de sempre, os mais pobres e necessitados, entre eles os mais velhos. No caso da América Latina, serão intensificadas as desigualdades, contrastes e confrontos, pelo menos em médio prazo.

No plano político, a crise decorrente da pandemia afetará o rumo do mundo no próximo decênio devido ao impacto que a COVID 19 causou nos EUA e na Europa. Os conflitos no sistema político internacional ganharão em intensidade. Terá força o multipolarismo. Na Ásia, a ascensão Chinesa não se dará sem disputas com a Índia e, mormente, com os EUA e seus principais aliados na região, o Japão, a Austrália, a Coréia do Sul e a Nova-Zelândia. A Rússia – ainda a maior potência nuclear mundial com uma superfície terrestre que vai da Europa às fronteiras com a China – será um ator decisivo, são se podendo prever seu maior ou menor protagonismo devido a sua economia que, não só cresce aos solavancos, mas em ritmo muito menor do que as contrapartes chinesa e indiana. Os EUA continuarão a ser uma potência global, mas o seu sistema econômico – organizado em termos de capitalismo de mercado – cada vez perde mais momento em relação ao capitalismo de estado praticado pela China e pela Índia, esta última em menor grau, já que lá é menor o poder de intervenção estatal, convivendo com uma democracia política que é de igual idade do autoritarismo que prevalece na China (o Estado chinês comemorou 70 anos em 2019, enquanto a Independência indiana do Reino Unido ocorreu em 1947 e a fundação da República em 1950). São dois países com história milenar, mas de modernização recente que combina com o poder de desenvolvimento que arrosta estrutura arcaicas com velocidade medida por marcantes índices de crescimento de suas economias. Nesse contexto, os países da União Europeia – que hoje correspondem à segunda maior economia do mundo, medida em dólares nominais – oscilarão em contexto complexo, marcado, por um lado, pela crescente dependência da energia russa e do mercado chinês e, por outro, e pelos seus compromissos de longa data com os EUA. Será na complexidade desta dinâmica que potências médias como o Brasil assentarão os cálculos da calibragem de suas políticas externas.

A globalização – ao contrário do que advogam as teses neoliberais, principalmente quando se tem em vista as análises que não são influenciadas pela tradição marxista – não caracteriza processo terminal onde os jogos estão feitos, favorecendo, inexoravelmente, a uns, e desfavorecendo a outros. É um processo que contém dentro de si múltiplos e matizados aspectos e que, assim como tudo que é real, é também profundamente contraditório. Logo, é mutável e nele se pode intervir quando se tem a capacidade de apreender sua “lógica” interna profunda, “estrutural”. Na história os jogos nunca estão feitos.[1]

CEDEPEM – Centro de Estudos Estratégicos e Planejamento Espacial Marinho. O Centro de Estudos Estratégicos e Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM) é um Centro de Estudos diversificado, sem fins lucrativos e com o compromisso de conscientizar sobre a importância dos estudos para o mar em suas variadas vertentes


[1] FIGUEIREDO, Eurico de Lima “Globalização, Neoliberalismo e a Estratégia do Poder: os Jogos não Estão Feitos” in Santos, Theotônio dos (org) Os Impasses da Globalização: Hegemonia e Contra-Hegemonia, Rio de Janeiro, Editora Loyola, 2004. Vol. 2, pp 243/261.

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