O Camboja de hoje é uma confusa convergência entre sua história interna, a política externa das potências mundiais e a história de vida do líder Hun Sem, que está no poder há 35 anos. Nascido na zona rural de Kampong Cham, em agosto de 1952, Hun Sen atingiu a maioridade em tempos de intenso conflito com o Vietnã, ele se juntou ao Khmer Vermelho em 1975 após o bombardeio estadunidense no leste do país e desertou para o Vietnã em meados de 1977 por discordar de Pol Pot.

Com a derrubada do Khmer em 1979, Hun Sen se tornou ministro das Relações Exteriores do novo governo instalado em Hanói pelo Partido Popular do Camboja (PPC) quando surge a primeira incompreensão entre ele e a comunidade internacional. O ocidente embargou o novo governo, enquanto Hun Sem imaginava que teria créditos por colocar fim ao governo assassino e genocida do Khmer, ao mesmo tempo em que China, Estados Unidos e os países da Asean deram apoio diplomático e militar aos sobreviventes do Khmer Vermelho e duas facções locais não comunistas.

Esse embargo foi fruto da lógica da Guerra Fria: o desejo de Pequim e Washington de isolar o Vietnã por ser apoiado pelos soviéticos, alimentando outro período de conflitos no Camboja, o que dificultou e retardou a reconstrução do país, intensificando em Hun Sen e seu partido um ressentimento para com o exterior e o modo ocidental/liberal como as relações internacionais funcionavam.

Como explica Henry Kissinger em seu livro “Sobre a China”, o Império do Meio invadiu o Vietnã para “ensinar uma lição” ao povo vietnamita por estar com seu nacionalismo aflorado em demasia após sair vencedor de guerras intermináveis contra duas potências mundiais (França e EUA) e invadir o Camboja.

Com esse gesto, a China demonstrou que não permitiria que fosse criada uma Federação Indochina sob o comando vietnamita, que representava no final das contas, domínio soviético sob todas as fronteiras chinesas, evitar esse cerco acabou se transformando no norte da política externa de Mao Zedong, essa Federação representava mais risco para os próprios chineses do que para os Estados ocidentais que ali estiveram ao longo de décadas.

Segundo Kissinger, Vietnã e China estão em constante atrito ao longo da história. Até o século X, o Vietnã ficou sob domínio chinês e só obteve autonomia com o colapso da dinastia Tang em 907. O autor afirma que, em uma reunião em 1971 com Zhou Enlai, então primeiro-ministro da China e número dois do partido comunista, atrás somente de Mao, foi dito que o interesse chinês no Vietnã não era ideológico, mas puramente estratégico, afinal, um Vietnã dividido em dois faria do Norte uma nação extremamente dependente da China assim como era a Coreia do Norte.

Em outubro de 1991, quatro facções cambojanas se uniram para assinar os Acordos de Paz de Paris, que foram projetados para encerrar a guerra civil, enviar refugiados para casa e introduzir um sistema democrático multipartidário. Para as democracias ocidentais, era um divisor de águas, pois o acordo desenhou uma linha sob um período em que o Camboja era vítima de conflito de superpotências e iniciou uma nova era na qual o mundo traria paz e democracia a um povo sofredor.

O PPC teve outra visão do acordo, no controle efetivo do país desde 1979, ele tinha mais a perder do que a ganhar com eleições livres, além de se sentir ameaçado ao lidar politicamente com os antigos inimigos de guerra. Para o partido, era questão de tempo para que tudo retornasse ao caos novamente caso seus inimigos voltassem a ter poder político.

Com a eleição de 1993 organizada pela ONU, o PPC perdeu para a Funcinpec, um partido monarquista, mas Hun Sen se negou a entregar o poder e os partidos entraram em negociações conflituosas, o Khmer Vermelho ainda existia e controlava cerca de 10% do país, o que correspondia a 6% da população total, que foi proibida de votar. Em 1997 estourou um confronto generalizado no país, Hun Sem contra os monarquistas e o Khmer Vermelho com brigas internas entre suas lideranças.

No fim a ONU classificou o evento como um Golpe de Estado de Hun Sem, e após mortes e exílios, o líder finalmente ganhou uma eleição em 1998, cargo que ocupa até hoje. Durante esse período de lutas internas e com o apoio do ex-ministro da Funcinpec, Sam Rainsy, que pintava o país como uma simples luta remanescente da Guerra Fria, os governos ocidentais viram um campo fértil para semear suas práticas sem considerar as dinâmicas internas do país fragilizado.

A desconfiança mútua seguiu em alta quando o Congresso dos EUA apelidou Hun Sem de “novo Pol Pot” e tentaram condicionar a ajuda ao país com sua saída do poder, essa pressão e o claro apoio ao Sam Rainsy, que foi até homenageado por think tanks conservadores de Washington, destruiu qualquer canal de negociação entre a Casa Branca e o PPC.

Com o passar do tempo e das constantes ameaças de sanções americanas, Hun Sem acabou vinculando promoção de democracia e direitos humanos a sua sobrevivência e a do seu partido. E mais uma vez eleições e denúncias de fraude foram o estopim para protestos e tensões sociais no pequeno asiático contra Hun Sem em 2013, após conseguir acalmar as ruas, o PPC prometeu reformas para as eleições seguintes e enviou Sam Rainsy para o exílio em 2015.

Nos dias atuais, o que atrai os holofotes mundiais para o Camboja é a guerra comercial China x EUA, paranoico sobre seu poder e questionando os motivos que levam seu país a ser tão questionado enquanto seus vizinhos caem nas graças do ocidente, Hun Sen fechou partidos e alegou ausências para pegar para si todos os 125 assentos da Assembleia Nacional.

Embora suas ações sejam indefensáveis, suas críticas tocam na fraqueza do ocidente desde os tempos de Guerra Fria: a hipocrisia. Nos últimos anos, outros líderes de governos da região que possuem históricos questionáveis foram para reuniões na Casa Branca, como o chefe do Partido Comunista Vietnamita Nguyen Phu Trong, o Presidente Rodrigo Duterte das Filipinas e o líder da junta militar tailandesa Prayut Chan-o-cha.

E quando a União Europeia ameaçou suspender o acesso preferencial do Camboja ao seu mercado, a reação de Hun Sen foi previsível: reclamar de violação de soberania. O curioso é que simultaneamente às sanções, o bloco do velho continente ratificou um acordo de livre comércio com o Vietnã, uma ditadura de partido único que proíbe imprensa e tantas outras liberdades individuais. O governo cambojano alega que o ocidente quer derrubá-lo através das incitações populares que o impacto da economia sancionada deve causar.

Suspeita impulsionada por Sam Rainsly que pediu abertamente para que o povo saísse às ruas, expulsasse Hun Sem do poder e que a comunidade internacional apoiaria a causa. A grande falha do ocidente é ter olhado para o Camboja somente sob a luz de lutas bipolares rasas entre democracia e ditadura e nunca como um ator independente com vontades próprias. O que é fato é que a União Europeia datou para 12 de agosto o inicio das sanções ao Camboja com os EUA pensando em seguir pelo mesmo caminho.

Os chineses, que apoiaram fortemente o Khmer Vermelho contra o governo do Hun Sem mais do que o ocidente, não expressaram opinião sobre como ele deveria ou não governar o país assim que ele se consolidou no poder. Em 1997, quando os países ocidentais retiveram ajuda em meio ao caos interno do Camboja, a China entrou na brecha e estreitou laços políticos, diplomáticos e econômicos com o país, mesmo com tantas discordâncias entre Pequim e Phnom Penh.

No início desse ano, com uma postura mais assertiva do ocidente pela remoção de Hun Sem, naturalmente a China surge como opção, oferecendo ao Camboja proteção contra os perigos de uma “revolução das cores”. Ainda que possa parecer exagero ou mentira, é a retórica perfeita para atraí-lo definitivamente para seu campo de influência.

Se os formuladores de política do ocidente tivessem a sensibilidade de tentar ver os acontecimentos pelos olhos de Phnom Penh um mínimo possível para permitir um diálogo básico, talvez hoje não houvesse esse clima de desconfiança total e absoluta entre as partes.

Ao proibir ou dificultar o comércio a ponto de torna-lo impraticável, a nação asiática é empurrada para a esfera da China pelo mesmo mecanismo que está unindo Rússia, Irã, China e até a Turquia em um pesadelo hegemônico chamado aliança Eurasiática. Ainda que seja de suma importância punir excessos de alguns países, o ocidente precisa pensar em métodos mais eficazes e menos dúbios caso deseje manter a ordem mundial estabelecida por ele no mundo pós Segunda Guerra.

Valter Peixoto, Formado em Comércio Exterior pela UNIBR e Pós-Graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pela UNISINOS. Possuí especial interesse nas organizações internacionais e novas tendências da comunidade internacional. Seu foco é o sudeste asiático, acredita que pode contribuir, pois sentiu uma defasagem de material muito grande sobre essa região, principalmente em português. Sendo uma áreas que há muitos anos cresce mais do que a média mundial e tem se projetado como alternativa barata à China para diminuir a dependência de sua cadeia de suprimentos.

Referências KISSINGER. Henry. Sobre a China. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Publicado por:MenteMundo

Conteúdo de Relações Internacionais com ênfase no Sudeste Asiático! ASEAN