Venho estrear minha participação no CERES com esse artigo que eu considero complexo, porém extremamente urgente. Meu receio era de “chover no molhado”, já que o mundo todo vem acompanhando o que tem acontecido nos últimos meses com a Amazônia batendo recorde de queimadas e tendo maior número de focos desde 2007; territórios indígenas sendo invadidos e indivíduos sendo mortos… Tudo isso é muito conhecido (ou deveria ser) por boa parte das pessoas no mundo, especialmente do Brasil.

Porém, pouco se fala sobre a razão do Brasil precisar melhorar a situação da Amazônia perante o cenário internacioal. Ouvimos falar em investidores estrangeiros assinando manifestos, ameaçando retirar investimentos milionários em programas do governo contra o desmatamento, etc. Mas qual o verdadeiro interesse nisso tudo?

Por que a Amazonia, e o que o governo do Brasil fazem em relação à ela e ao meio ambiente do próprio país interessam tanto a investidores, ainda mais à companhias internacionais?

Antes que digam que o interesse seria uma disputa geopolítica para “tomarem” a Amazônia do Brasil, devo lembrar de que se fosse esse o caso, estaríamos então entregando a Amazônia em uma bandeja de nióbio (ainda que a maior reserva de Nióbio do mundo não esteja na Amazônia mas sim em Araxá-MG), já que estamos demonstrando uma péssima administração dos nossos recursos naturais.

Isso ficou ainda mais evidente depois da divulgação do vídeo da reunião ministerial onde o próprio ministro do meio ambiente Ricardo Salles diz que “é preciso aproveitar que a mídia e os órgãos de comunicação estão todos voltados à divulgarem informações sobre a pandemia de Covid 19, e deixar a boiada passar”- se referindo aos projetos de lei que regularizam as ações sobre a Amazônia.

Seriam então os investidores estrangeiros e nacionais preocupados excusivamente com a sustentabilidade e a administração dos recursos naturais do Brasil? A resposta é lógicamente “não”.

Acontece que o modo como administramos a Amazonia e o ambiente aqui no Brasil afeta diretamente os negócios desses investidores. Principalmente em tempos de discussões sobre mudanças climáticas, preservação de biodiversidade, aquecimento global, etc. Chegamos ao ponto em que esses temas estão sendo profundamente debatidos e em enorme evidência. E terem suas marcas ligadas à devastação da maior floresta tropical úmida do mundo é coisa que não pega nada bem!

Os impactos da devastação da Amazônia são de vários tipos e todos eles gravíssimos. Vão desde a destruição de biomas (a Amazônia responde por cerca de 50% deles, vindo em seguida o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pampa e o Pantanal) através do desmatamento. Esse, por sua vez, ocorre por três motivos principais: abertura de áreas para a agropecuária, extração de madeira e garimpo igualmente ilegais.

Estima-se que cerca de 80% da madeira retirada da Amazônia seja de fontes ilegais, para serem comercializadas tanto no mercado interno quanto para o exterior.

Já a agropecuária, é uma das principais atividades econômicas do Brasil destinada tanto para o mercado interno quanto ao externo.

Tendo a maior parte voltada ao mercado externo, o Agronegócio no Brasil corresponde á cerca de 30% do PIB (Produto Interno Bruto). Ou seja, cerca de 30% da riqueza total produzida no país.

Sendo um dos maiores produtores agropecuários do mundo, o Brasil também possui problemas proporcionais ao modelo do agronegócio no país, e esses problemas vão desde o desmatamento já citado anteriormente, até problemas sociais na disputa de territórios.

A soja é o produto mais exportado para outros países, em seguida o petróleo, minério de ferro e a carne bovina. O Brasil é o terceiro maior produtor de carne bovina no mundo.

Exatamente por isso é que uso e desenvolvimento de técnicas e políticas de preservação são fundamentais, já que afetam o meio ambiente em escala proporcional.

Recentemente, um grupo de investidores (na maioria europeus) enviou uma carta conjunta aos embaixadores brasileiros em seus países para expressar preocupação com o aumento do desmatamento na Amazônia. A carta diz que o “desmantelamento das políticas ambientais e de direitos humanos está criando uma incerteza generalizada sobre as condições para investir ou fornecer serviços financeiros ao Brasil”, e foi enviada às embaixadas brasileiras na Noruega, Suécia, França, Dinamarca, Holanda, EUA e Reino Unido.

O governo atual sempre se posicionou contra o que eles mesmos chamam de “ambientalistas fanáticos contra o progresso”quando se referem às organizações de proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas. Já houveram inúmeras insinuações também depreciando o trabalho das ONGs que “estariando incendiando a Amazônia para obterem doações” e ambientalistas, alguns muito conhecidos como a ativista Greta Thunberg e o ator Leonardo Di Caprio já foram hostilizados.

Quando os incêndios na Amazônia se iniciaram em 2019, o presidente Jair Bolsonaro ignorou dados da agência espacial governamental INPE e inclusive exonerou o então presidente Ricardo Galvão após ter colocado em dúvida os dados sobre o desmatamento divulgados pelo instituto.

Como resultado do histórico ambiental de Bolsonaro, alguns membros do parlamento europeu disseram que votariam contra a ratificação de um acordo de livre comércio entre a União Europeia e a união aduaneira do Mercosul que inclui o Brasil, assinado em junho passado após duas décadas de negociação.

Nesse ano de 2020, o desmatamento cresceu 22% entre janeiro e maio em comparação com o mesmo período do ano passado, informou o Inpe em 6 de junho.

Os investidores pararam de ameaçar explicitamente o desinvestimento, mas disseram que estão preocupados com o desmatamento e a violação dos direitos indígenas que podem representar riscos para os clientes e as empresas nas quais investem.

“Considerando o aumento das taxas de desmatamento no Brasil, estamos preocupados com o fato de as empresas expostas a desmatamento potencial em suas operações e cadeias de suprimentos no Brasil enfrentarem uma dificuldade crescente de acessar os mercados internacionais. Também é provável que os títulos soberanos brasileiros sejam considerados de alto risco se o desmatamento continuar ”, diz a carta.

Ou seja, em tempos de pandemia, onde a ciência vem discutindo a origem de categorias de vírus cada vez mais agressivos e resistentes provavelmente resultado da destruição do meio ambiente, pésimas condições de vida de grande parte da população que nem saneamento básico tem, e a Amazônia batendo recordes de queimadas ao ponto do mundo todo tomar conhecimento… Investidores que fizerem negócio com o Brasil estão correndo risco de grandes perdas econômicas e óbviamente – o que se explora sem limite – chega a um ponto em que se acaba.

Antes de encerrar meu artigo, acho importante ressaltar que nós como população e consumidores, temos condições de influenciar também o cenário para pressionar os governos a tomarem medidas através do voto consciente (e não fanático) elegendo pessoas com propostas efetivas sobre o meio ambiente. Além disso, a mudança de hábitos é fundamental.

É importante consumir mais de pequenos produtores, apoiar cooperativas agroecológicas, boicotar empresas que não assumem compromisso com a sustentabilidade e viver com mais consciência. A natureza é nossa fonte de recursos, nos quais precisam urgentemente serem utilizados de forma sustentável.

Carolina Bellodi Coimbra, natural de Campinas e formada em Comércio Exterior pela Universidade Uniter de Curitiba cursando atualmente MBA em Relações Internacionais pela ESPG. Tem uma ampla experência em outsourcing e tecnologia na área internacional e se interessa pela sustentabilidade e tecnologia conciliando suas atividades com o belo papel de mãe e defensora dos diretos animais.

Vegana ativista há vários anos e já participou de várias ações de divugação dos Direitos dos Animais com coletivos de sua minha cidade. Toda sua família (marido e filhos) é Vegetariana/Vegana há quase 10 anos e tem muitos animais resgatados em casa.
Atualmente são 7 gatos e 4 cachorros, todos vítimas de abandono e maus-tratos. Procuram divulgar os direitos dos animais de forma acessível e praticável.

Acompanha estudos sobre o clima, o aquecimento global e o impacto do ser humano no meio
ambiente, e acredita que esse tema especialmente seja um dos mais urgentes no momento.
Como hobby, tem um blog chamado Maternagem Nerd, onde compartilha experiências sobre maternidade. Possuí formação de Doula, Educadora Perinatal e Consultora em Amamentação. Atúa no auxílio às mães com dificuldades para amamentar e às novas famílias.

Novo membro do CERES, seja bem vinda!!

Referências:

O fogo já chegou: Amazônia bate recorde de 13 anos nos focos de calor em junho

Mesmo com o Exército na região, as queimadas na Amazônia têm maior número de focos de calor no mês desde 2007

https://www.greenpeace.org/…/o-fogo-ja-chegou-amazonia-bat…/

90% das queimadas em áreas de agronegócio na Amazônia são para criar gado

Veja mais em https://noticias.uol.com.br/…/queimadas-na-amazonia-sao-9-v…

Me vê 16 mil litros de água!

Esse parece um pedido estranho – mais estranho ainda se for feito em um açougue. Mas é mais ou menos isso o que você pede quando compra um quilo – só um quilinho!! – de carne de boi.

Leia mais em: https://super.abril.com.br/…/p…/me-ve-16-mil-litros-de-agua/

Aquecimento global: 7 gráficos que mostram em que ponto estamos

https://www.bbc.com/portuguese/geral-46424720

Mourão e ministros fazem videoconferência com investidores estrangeiros para falar de Amazônia

https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/07/09/mourao-e-ministros-fazem-videoconferencia-com-investidores-estrangeiros-para-falar-de-amazonia.ghtml

Presidente do Inpe é exonerado após embate sobre dados de desmatamento

https://exame.com/brasil/presidente-do-inpe-e-exonerado-apos-polemica-sobre-dados-de-desmatamento/

Investors warn Brazil ambassadors about Amazon deforestation

Publicado por:CarolBellodiCoimbra

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