Há quase 10 anos atrás a CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) anunciava o crescimento da região em meio a um mundo conturbado devido aos efeitos da Crise Financeira Internacional e da redução dos preços das commodities.

As maiores taxas de crescimento em 2010 se concentravam na América do Sul, encabeçadas pela economia de maior tamanho, Brasil, que cresceu  7,6%, seguido pelo Uruguai (7,0%), Paraguai (7,0%), Argentina (6,8%) e o Peru (6,7%).

Outros países apresentaram taxas medianas de crescimento, tais como a República Dominicana (6,0%), Panamá (5,0%), Bolívia (4,5%), Chile (4,3%) e México (4,1%). E outras menores, como no caso da Colômbia que cresceu 3,7%, o Equador e Honduras 2,5%, Nicarágua e Guatemala 2,0%, sendo a Venezuela o único país que apresentou forte retrocesso de -3,0% sem considerar a recessão de -8% do PIB do Haiti após o impacto do terremoto que abalou o país.

A região parecia haver encontrado o caminho para o desenvolvimento e crescimento econômico, sendo crescentes os projetos de integração e cooperação regional, motivados por uma visão desenvolvimentista e fortalecimento das relações sul-sul.

A China estava desembarcando na região gerando fontes alternativas de recursos internacionais, além dos tradicionais canais com os Estados Unidos e a Europa.

A mobilização económica aos poucos se transformava em uma realidade nas economias latinas, o consumo interno aumentava em praticamente todos os países, assim como os investimentos em infraestrutura, paralisados durante décadas, retomavam obras necessárias para a consolidação das economias locais. Havia um consenso de que era necessário gastar para promover o desenvolvimento, sendo os Estados os responsáveis por gerenciar as estratégias de desenvolvimento mediante o aumento de projetos e parcerias com o setor privado.

Os gastos públicos foram elevados, não sendo este um histórico muito distinto dos processos de desenvolvimento das nações ricas, porém criticado por setores mais conservadores gerando um crescente desgaste político.

A geração de emprego era elevada, afetando os fluxos migratórios que por primeira vez em décadas foram revertidos e muitos países passaram a ser receptores de migrantes de países desenvolvidos submergidos em crises tais como a Espanha e a Itália.

Porém, esse ciclo de crescimento não durou muito, aos poucos as tensões foram em aumento e os escândalos de corrupção minaram a imagem dos governos das grandes potências latinas. O gasto público afetou o equilíbrio fiscal de países como o Brasil e a redução prolongada dos preços das commodities em meio a economias com moedas locais valorizadas, tiveram um grande impacto no mercado de consumo, que atuava como amortecedor econômico. Assim mesmo a crise em países desenvolvidos reduziu a demanda de produtos e promoveu um aumento da repatriação de capitais produzindo uma menor oferta de capital nos fluxos de investimento estrangeiros tão importantes para a região.

A esses fatores econômicos devemos somar ingredientes sociais, políticos e ideológicos. Um efeito dominó que foi derrubando aos poucos, todas as lideranças da região.

Sem embargo, não todo o processo parece haver sido uma consequência da evolução econômica e política dos paises latinos, interesses geopolíticos das grandes nações entraram em jogo.

O crescimento da América Latina representava um novo fator na balança de poder mundial, disputada desde o começo da movimentação do eixo do Atlântico para o Pacífico, pelas principais economias do globo.

Novos países se somavam as cadeias de produção internacional, minando a competitividade de diversas nações desenvolvidas, provocando o deslocamento de setores vitais para suas economias e aumentando os índices de desemprego. A indústria saía dos países mais industrializados em busca de mão de obra barata e novos mercados de consumo.  Muitos países ricos solicitavam a mudança no regime de tributação de países emergentes que começavam a competir com eles no cenário internacional. O Brasil foi um dos países onde a pressão foi maior, sendo retirado do grupo de preferências da União Europeia.

É nessa época que o discurso isolacionista de Trump e de outras lideranças de extrema direita na Europa ganha forças, sendo uma de suas promessas de campanha recuperar as empresas que se haviam deslocado para outras nações e voltar a gerar empregos dentro de seus respectivos países.

Bastou forjar um pacto com setores mais conservadores e alinhados aos interesses da potência americana e do mercado para dar inicio a uma revolução no continente.

A conversão de setores econômicos inteiros em defesa de uma mudança política na região contradizia o fato de que o Estado representava em ditas nações um dos principais clientes e agentes econômicos.

A defesa de processos de privatização, que usava como pretexto a liberalização da economia, promoveu estragos no planejamento estratégicos das nações, gerando uma forte descapitalização dos Estados e levando o controle dos recursos para mãos de investidores estrangeiros e de seus interesses. Não demorou para que esse processo tivesse impacto no orçamento das grandes nações da região. Um exemplo deste efeito pode se apreciar no Brasil onde os royalties da exploração do pré-sal, que antes estavam destinados a setores tais como a educação e saúde, foram desviados para os interesses do mercado. Assim mesmo, o país continua sem legislação tributária capaz de reter os benefícios gerados pela repatriação de dividendos de investidores estrangeiros.

Uma evolução do próprio mercado dentro do mundo globalizado ou uma jogada de mestre de interesses globais?

Sem dúvidas uma questão cuja resposta não é simples, mas que a base de verificação é fácil de observar… A evolução da desigualdade na América Latina, a participação da população na economia e a mobilização de classes refletem bem o impacto dos acontecimentos na região, onde a polarização social se concentra de forma artificial mediante um constante bombardeio midiático e a adesão de estratégias como as fake News, mantendo a população presa em um mundo bipolar que de fato já não existe.

Porém ninguém parece perceber que países com matrizes de desenvolvimento tão diferentes entre eles, conforme apontou em seu dia o cientista político Manuel Antonio Garretón, refletem processos sociais, políticos e econômicos semelhantes, apontando que a situação da América Latina possui componentes em comum, sendo estes a evolução da desigualdade e a pressão dos interesses internacionais nos processos de desenvolvimento da região.

Não se trata de uma guerra entre direita e esquerda, mas sim, de uma guerra de classes que em cada país toma suas devidas proporções conforme sua própria evolução social… Uma tensão entre privilegiados e aqueles que sonham em obter parte desses privilégios e os esquecidos ou manipulados pelo processo… A primavera latina que em lugar de trazer estabilidade social busca recuperar a estabilidade econômica favorável para os interesses das grandes potências que dominam o mercado internacional e dos poucos afortunados que fazem parte dessa realidade…

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nWesley S.T Guerra, PHd Candidate em Relações Internacionais, mestre em Políticas Sociais e Intervenção Comunitária com especialização em Migrações pela Universidad de La Coruña, especialista em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, MBA em Marketing Internacional pelo Massachussets Institute of Business e  especialista em Desenvolvimento pelo BID E Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa.

Bibliografia:

América Latina e Caribe crescerão 5,2% em 2010 – disponível em:  https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/america-latina-caribe-crescerao-52-2010
Estudio económico de América Latina y el Caribe 2009-2010 – CEPAL, Santiago de Chile.
The Socio-Political Matrix and Economic Development in Chile (IPPG Programme Office, IDPM, School of Environment & Development,University of Manchester, Discussion Paper Series Number Fifteen A. October 2007) Actores sociales y procesos de democratización. América Latina en el contexto de la crisis económica internacional (PAPEP-PNUD 2009-2010).
El desafío democrático y la integración económica. Síntesis de exposición. (En Quebec 1997. Actas de la Conferencia Parlamentaria de las Américas versión en inglés, francés, castellano y portugués. Quebec 1998).
América Latina en el cambio de siglo (Garretón, 2000a)
Relaciones Internacionales: Una Teoría Crítica Desde La Periferia Sudamericana – Marcelo Gullo, Editoral Biblos, Buenos Aires.
Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.