Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

 

Após duas décadas de governos que viveram os êxitos da globalização pós-Guerra Fria, o Brasil amanheceu em 2019 sob nova direção, saturado de outros slogans. O retorno a concepções nacionalistas de décadas (senão séculos) atrás, à primeira vista, configura um retrocesso brutal.

Não obstante, o Brasil soberanista não retorna à revelia de dinâmicas – ironicamente – globais.

A busca pela nacionalidade como refundação da comunidade política indica os limites da forma de globalização que predominou após a queda do Muro de Berlim. Mais precisamente, o retorno do nacionalismo em escala global uma década após a crise de 2008 se tornou possível após a frustração com diferentes transformações buscadas nos primeiros anos da crise[ii] – as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, a “Primavera Árabe”, os “Indignados” na Espanha, o movimento “Occupy Wall Street” nos Estados Unidos, etc.

Nesse caso, as mudanças consolidadas pelo novo governo de Jair Bolsonaro vão além da impressão de um revival de períodos anteriores da história brasileira, misturados sem cerimônia.

Por um lado, o novo governo brasileiro não esconde suas fontes de inspiração no plano externo. Analogias com Donald Trump são abundantes e se banalizaram, à exaustão, ao mesmo tempo que ocultaram algumas diferenças importantes. A ascensão do milionário midiático veio pelas mãos de um dos dois grandes partidos da República dos federalistas e seu governo conta com relevante número de ocupantes de postos de destaque herdados de administrações anteriores. A novidade de Trump é menos estrutural que contextual: um presidente em desacordo com os códigos que regeram relações entre a Casa Branca e o “pântano” de Washington desde 1865[iii].

A tentativa de associação com líderes ultranacionalistas na Europa (como Viktor Órban na Hungria) oculta uma diferença substancial no espaço de atuação da política externa. Em tempos de Brexit, a Hungria negocia suas capacidades soberanas no seio de uma União de estados em escala continental. Na América Latina, porém, não dispomos de alternativas comparáveis. As esperanças de integração mercosulina se esvaíram ao longo de três décadas de alternância de perfil. A ênfase mercantil que derivou do Tratado de Assunção e foi propalada pela criação da OMC sobreviveu até a quebra da economia argentina. Em seguida, o bloco passou a atuar como órgão de gestão política no nível dos estados, mais próximo do Conselho Europeu do que da Comunidade Europeia. O MERCOSUL não logrou consolidar uma identidade corporativa[iv] e se tornou opção de menor impacto no seio da política externa brasileira no século em curso[v].

Ao passo que a integração regional se tornava mais modesta, o Brasil se apresentava como um país emergente diante do qual todas as opções estavam postas à mesa. O pragmatismo brasileiro jamais abriu mão em definitivo de importantes parcerias, mercados para seus produtos e elos culturais. A participação no grupo BRICS não foi impeditivo para uma candidatura à OCDE. A recusa de Dilma Rousseff em visitar os Estados Unidos após o escândalo de espionagem revelado por Edward Snowden se mostrou efêmera, diante dos interesses que conectam os dois países. A priorização da América Latina durante os governos Lula não impediu um vigoroso aumento das relações econômicas com países desenvolvidos. Fernando Henrique Cardoso agiu como estadista ao condenar o golpe de estado contra Hugo Chávez na Venezuela – sem simpatia pelo regime bolivariano, então propagado como o “socialismo do novo século”.

Mesmo em meio a polêmicas intermitentes no plano externo o Brasil soube agir cautelosamente.   Parte da surpresa (em escala mundial) suscitada pela eleição de Bolsonaro se deve a esse perfil. Não obstante, as transformações vividas no Brasil contemporâneo não são inéditas e são comparáveis àquelas experimentadas por outros países diante dos efeitos da crise de 2008 após um expressivo crescimento econômico nos 20 anos subsequentes à queda do Muro. A França de François Hollande foi sucedida pelos guilets jaunes a contestar Emanuelle Macron. Rupturas da era Barack Obama foram inestimáveis para a vitória de Trump sobre Hillary Clinton. A “nova política” pós-crise trouxe o Movimento 5 Estrelas e a Lega Nord ao poder na Itália[vi]. O crescimento da extrema-direita nos parlamentos da Alemanha e da Áustria[vii] foi proporcional à estagnação econômica combinada com o aumento da intensidade da crise de refugiados sírios.

O fim da Guerra Fria trouxe uma combinação inquietante: euforia democrática mais expectativas de crescimento global calcadas na expansão dos valores liberais. Trinta anos após o Muro, os valores liberais parecem estar em retração. Distantes dos sonhos de Francis Fukuyama[viii], os primeiros anos do século 21 foram envoltos em terrorismo, disputas religiosas, crise econômica. O crescimento global aparece dissociado de dinâmicas democratizantes. A China de Xi Jinping é o exemplo vivo de uma trilha alternativa para a superação (ou mitigação) das contradições de uma economia no capitalismo tardio parcialmente globalizado[ix]. Por outro lado, a economia que mais rapidamente cresce no planeta – a Índia – é uma jovem democracia, assim como o Brasil.

Abordada num contexto global e em chave comparativa, a volta de velhos scripts no Brasil de Jair Bolsonaro é menos motivada pela recuperação do passado que por ansiedades presentes. Palavras proferidas nas cerimônias do novo governo trouxeram à tona diferentes ambivalências desse redivivo nacionalismo.

O discurso de posse de Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores[x] trouxe um arsenal de referências empregadas com fartura eclética. De Renato Russo e Raul Seixas a integralistas, José de Anchieta e Dom Sebastião, o palimpsesto ministerial ignorou eras e espaços diferentes em busca de um foco para sua gestão. A ideia do Brasil como integrante do Ocidente não é inédita[xi], mas sintomática. O outrora país do futuro se coloca em busca da pretensa Alma Mater.

Ao entregar ao presidente eleito o livro de posse, o senador Eunício Oliveira salientou que esse livro era o mesmo utilizado desde os tempos de Deodoro da Fonseca. A noção de recuperação das origens retorna via referência ao papel dos militares na proclamação da República no Brasil. Nesse momento, Bolsonaro – apenas o 4º militar presidente do Brasil – metaforicamente reforça a legitimidade de seu mandato, questionada após a fricção das urnas. Sua legitimidade se funda como continuidade de uma tradição reinventada: o capitão seria herdeiro espiritual do marechal. Em busca do mesmo efeito, o “retorno” do Brasil ao Ocidente traria um verniz de autoridade à controversa gestão de Araújo, questionado por seus pares antes mesmo de se tornar ministro.

Em lutar para tornar a América “grande novamente”, Trump mobilizou como poucos os recursos da sociedade da informação. Seu mix é inquietantemente novo e velho. Uma ressaca de 1989.

Em 2019 o Brasil se postou num diapasão trumpista. Trouxe uma coletânea de velhos ditos encapsulada na era digital. Num mundo de incerteza, a sombra do passado superou a do futuro.

colaborador

[i] Professor Visitante – Al Akhawayn University in Ifrane (Marrocos). Professor de Relações Internacionais – Universidade Federal do Tocantins (Brasil)

[ii] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2018). Arrested Development: Brazil in a World in Crisis (2008-2018). E-IR. Disponível em: https://www.e-ir.info/2018/05/11/arrested-development-brazil-in-a-world-in-crisis-2008-2018/. Acesso em: 11 de Maio de 2018.

[iii] Michael Wolff (2017). Fire and Fury: Inside the Trump White House. Nova York: Henry Holt & Company.

[iv] Alexander Wendt (1994). Collective Identity Formation and the International State. The American Political Science Review Vol. 88, No. 2, pp. 384-396.

[v] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2017). Turbulências na Integração Regional: MERCOSUL à Deriva. NEMRI. Disponível em: https://ceresri.wordpress.com/2017/01/27/turbulencias-na-integracao-regional-mercosul-a-deriva/. Acesso em: 27 de Janeiro de 2017.

[vi] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2018). As Contradições da Democracia Liberal nas eleições da Itália. CERES/NEMRI. Disponível em: https://ceresri.wordpress.com/2018/03/16/as-contradicoes-da-democracia-liberal-nas-eleicoes-da-italia/. Acesso em: 16 de Março de 2018.

[vii] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2017). Desintegração de esperanças: a União Europeia em meio à crise das democracias liberais. SRZD. Disponível em: http://www.srzd.com/geral/uniao-europeia-crise-democracias-liberais/. Acesso em: 26 de Dezembro de 2017.

[viii] Francis Fukuyama (1992). The End of History and the Last Man. Los Angeles: Avon Books.

[ix] Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2018). As Reeleições de Vladimir Putin e Xi Jinping numa ordem internacional em transformação. SRZD. Disponível em: http://www.srzd.com/geral/reeleicoes-vladimir-putin-xi-jinping-ordem-internacional-transformacao/. Acesso em: 22 de Março de 2018.

[x] Ministério das Relações Exteriores (2019). Discurso do ministro Ernesto Araújo durante cerimônia de Posse no Ministério das Relações Exteriores – Brasília, 2 de janeiro de 2019. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos/19907-discurso-do-ministro-ernesto-araujo-durante-cerimonia-de-posse-no-ministerio-das-relacoes-exteriores-brasilia-2-de-janeiro-de-2019. Acesso em: 03 de Janeiro de 2019.

[xi] Alain Rouquié & Mary Amazonas Leite de Barros (1990). O extremo-ocidente: introdução à América Latina. São Paulo: Edusp.

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