No dia 23 de junho de 2016, os britânicos optaram por deixar a União Europeia (UE) após o plebiscito. Em um discurso logo após uma semana do resultado do referendum, o governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, explanou sobre a “mudança de regime” do Reino Unido e a conflagração de uma “incerteza geopolítica” (CARNEY, 2016). Para Bachmann; Sidaway (2016), na onda de incertezas de como ou quando o Brexit vai acontecer, a emersão do despertar dos votos do Brexit remontam a cinco conceito-chaves: populismo, nacionalismo, imperialismo, fragmentação e desigualdades econômicas.

Há várias teorias sobre o porquê os britânicos resolveram sair da UE. De acordo com Clark, Goodwin e Whiteley (2017), essas incluem hostilidade contra imigrantes, desprezo pelos burocratas de Bruxelas, preocupações com a soberania, um sentimento anti-elite, insatisfação daqueles que foram deixados para atrás pela globalização, a longa história de euroceticismo, e a imprensa anti- europeia.

A campanha pela saída da UE, fundada por membros do UK Independence Party (UKIP), se destacou pelo bordão let`s take back control” (retomar o controle). No que se percebe uma sensação de perda de controle atingiu o país. Do ponto de vista de Tomlinson e Dorling (2016), Brexit está ligado ao saudosismo Império Britânico por dois motivos principais: as migrações de trabalhadores pós- Segunda Guerra Mundial de antigas colônias para o Reino Unido, o qual criou termos xenófobos subsequente de discursos sobre “imigração”, e declínio geopolítico da era uma vez um país hegemônico:

As classes mais baixas foram encorajadas a acreditar em sua superioridade econômica, política, social e racial do resto dos sujeitos do império. A subclasse doméstica poderia se tornar imperial sobre a classe e todas as classes britânicas poderiam se unir em uma superioridade patriótica nacional. A força desta solidária ainda está presente no século 21 e vai de algum modo para explicar a xenofobia, racismo e hostilidade que ainda é uma parte tão óbvia da herança britânica [ tradução feita pelo autor] (TOMLINSON & DORLING, 2016).

No que se refere à geografia eleitoral de 51,1% a 48,1%, a vitória do Brexit é pouco elástica, conforme Harry e Charlton (2016), mas os britânicos decidiram se afastar da UE se deve ao fato de que as pessoas simples não sentem as vantagens de estarem em um bloco econômico supranacional. A europeização e Bruxelas passaram  a ser  associadas com  a perda de autonomia-  incitação  de discursos de políticos e tabloides de direita (Mail, Express, e Sun). Essas versões se atribuem a perda de controle pelo poderio americano (as bases navais dos EUA nas ilhas britânicas e a membresia da OTAN- Organização do Tratado do Atlântico Norte, como uma limitação à soberania do país) e a americanização, o qual, supostamente, aumentou a quantidade de imigrantes (BACHMANN & SIDAWAY, 2016, p. 48).

Em contrapartida, segundo Littway (2016), o Brexit surgiu em razão de um apelo populista as mais baixas camadas que se sentem marginalizadas economicamente, socialmente e culturamente pela globalização, iludidos pela desinformação e um descarte aos efeitos potencialmente cataclísmicas dessa decisão.

Nesse sentido, refere-se que a fragmentação não representa algo exclusivo do Reino Unido. A Europa exibe vários exemplos disso, sobretudo os Programas Regionais e de travessias de fronteiras da UE em busca da integração. Como atesta Petrakos et al (2016, p. 699): “EU experience has shown that deeper integration may concise with increasing imbalances in competiveness, trade relations, and development level”. Além disso, a zona do euro não funcionou como esperado e resultou em discrepâncias nos caminhos de desenvolvimentos de vários países (POLLAND & SIDAWAYT, 2002).

Contudo, ainda há o medo existente que o Brexit possa levar a fragmentação do Reino Unido, dada a possibilidade de um novo referendo da Escócia para a independência e um potencial referendum da Irlanda do Norte para a unificação da Irlanda . Notadamente, a Inglaterra votou no Brexit, por 53,4% a 46,6%. País de Gales também votou no exit, com 52,5% a 47,5%. Por outro lado, tanto a Escócia quanto a Irlanda do Norte, juntamente com Londres, votaram para permanecer (BBC, 2017).

Ressalta-se ainda, as “fronteiras fantasmas”, ou seja a separação das fronteiras do Leste e Oeste europeu (Kraft, 2015) na fragmentação da sociedade contemporânea britânica não somente se assentam na divisão de territórios mas também na divisão de classes sociais e legados imperiais que por muito tempo existiu no Reino Unido (NAIRN, 1977).

Com efeito, a União falhou em não criar uma identidade europeia, fato é que o Brexit é um sintoma disso. A visão integracionista da UE não alcançou, ao total, os cidadãos europeus. Protestos depois do referendum mostraram que um número significante de pessoas entendem a Europa como igualmente importante quanto à identidade deles britânica.

41484448_235765263783488_6820077748703199232_nLucas Ribeiro, é Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UNB). Atua como coordenador do International Students for Liberty e como assistente de pesquisa para o Centro de Direito Internacional.

 

REFERÊNCIAS

Bachmann, Veit e Sidaway, James D. (2016). Brexit geopolitics. geoforum, 47-50.

BBC. (2017, April 25). Brexit: All you need to know about the UK leaving the EU. Retrieved from BBC News: http://www.bbc.com/news/uk-politics-32810887. Acesso dia 28/04/2017

Carney, Mark. (2016, June 30). Uncertainly, the economy and Policy. Retrieved from Bank of England: http://www.bankofengland.co.uk/publications/Documents/speeches/2016/speech915.pdf( Acesso dia 26/03/2017)

Clark, Harold; Goodwin, Matthew, e Whiteley, Paul. (2017). Brexit: Why Britain voted to leave the European Union. Cambridge: Cambridge University Press.

Harris, Richard, e CHARLTON, Martin. (2016). Voting out of the European Union: Exploring the geography of Leave. A environment and Planning, pp. 2116-2128.

 

Kraft, Claudia. (2015). Phantomgrenzen und Zeitschichten im Postsozialismus. Ist der Postsozialismus postkolonial. Gottingen: Wallstein.

LITTVAY, Levente. (2016). Compare populist movements. Comment, 487-89.

Nairn, Tom. (1977). The break-up of Britain: crisis and neo nationalism . Edinburgh: Common Ground. PETRAKOS, George ; TSIAPA, Maria e KALLIORAS, Dimitris. (2016). Regional inequalities in the

European Neighborhood Policy countries: The effects of growth and integratio. Environment and Planning C: Government and Policy, 698-716.

POLLAND, Jane. S e SIDAWAYT, James D. (2002). Nostalgia for the Future: The Geoeconomics and Geopolitics of the Euro. Royal Geographical Society (with the Institute of British Geographers, pp. 518–521.

TOMINSON, Sally e DORLING, Danny (2016, May 9). Brexit has its roots in the British Empire – so how do we explain it to the young? Retrieved from NewsStatesman: httpne://www.newstatesman.com/politics/staggers/2016/05/brexit-has-its-roots-british- empire-so-how-do-we-explain-it-young. Acesso em: 28/03/2017

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