Após a queda do antigo regime o poder, até então centralizado no monarca, passou a ser divido em três áreas: o poder executivo, o legislativo e o poder judicial. Se adaptando a diferentes composições e organismos conforme a estrutura de cada estado e as próprias condições decorrentes do pacto social e de outras dimensões tais como a esfera cultural, a religiosa, etc.

Apesar de não haver um modelo de Estado padrão dentro do panorama internacional, existe um amplo consenso sobre a necessidade de separação desses poderes, cujo objetivo básico é viabilizar a democracia, consolidar o governo e o estado de direto. Sem embargo, na prática essa separação pode ser questionada conforme a perspectiva do observador, não sendo a democracia do Reino de Marrocos, a mesma que a de um país latino como o México, o de uma nação tradicional como a Índia ou uma economia desenvolvida como o Canadá.

Ainda assim, apesar das características que cada país possa apresentar, existe uma certa harmonia e um fluxo que direciona e divide o poder, desde sua formulação dada pelos diferentes grupos de interesses à sua aplicação pelos órgãos executivos.

A mídia surgiu como uma ferramenta capaz de fomentar mudanças no ciclo do poder e até mesmo de alterar determinados movimentos dos grupos de interesse elevando novas figuras formuladoras de opinião.

Porém com a evolução da mídia, a mesma se transformou em um ente com suas próprias pretensões, deixando de ser uma ferramenta para se transformar em um novo poder não constituído de forma oficial, mas presente em todos os sistemas de governo, o 4º poder.

Nas últimas décadas vimos o surgimento de uma nova ferramenta.

As redes sociais foram criadas com o intuito de unir as pessoas, gerar redes de contato ao redor do mundo e ampliar a interação social. Parte dos vínculos afetivos passaram a integrar uma nova realidade virtual eliminando as distâncias, gerando novas pontes e uma nova consciência para a sociedade cada vez mais globalizada.

Mas assim como a mídia tradicional, as redes sociais foram evoluindo. As empresas passaram a integrar esse espaço virtual e a ofertar seus produtos, as organizações se fizeram presentes e com elas suas ideias, a privacidade se transformou em moeda de cambio havendo uma linha muito tênue entre exposição voluntária e exposição explícita.

Tecnologias como o Big Data e a Internet of things (Internet das coisas) ampliaram o mundo virtual a uma escala jamais vista, eliminado praticamente a barreira entre vida particular e a pública.

A rede sabe quem você é através das redes sociais, sabe seus padrões de compras, suas pesquisas para as próximas férias, suas fotos compartilhadas somente com amigos, sua conta bancária, seus status laboral, sua formação, sua religião, seus fetiches, sua forma de ver e pensar…  E da mesma forma que ela expõe isso ao mundo aos poucos começa a ser utilizada como a forma mais avançada de manipulação que jamais existiu… Uma sociedade tal qual mencionava Guy Debord com a ampliação do conceito de fetichismo de Marx.

A diferença da propaganda tão utilizada por nazistas, comunistas e capitalistas. As mídias sociais promovem a possibilidade de produzir material específico para cada público, faixa etária, renda e localização geográfica. O algoritmo usado pelas principais redes sociais, promove uma continua exposição de um conteúdo específico que pode ser facilmente manipulado.

Essa manipulação crescente nas redes sociais, são frutos não somente da exposição de informações, mas também da falta de uma legislação clara ou regras específicas. E a mesma rede social que permite que grupos extremistas façam a captação de jovens na Europa é aquela que censura a foto de uma estátua de uma vênus paleolítica ou de um pai dando banho em seu bebe.

O uso das redes sociais como ferramenta de manipulação, ganhou maior relevância com o escândalo envolvendo a maior empresa do setor, que forneceu mais de 80 milhões de dados dos seus usuários e que permitiu o uso da mesma para influenciar tanto as eleições americanas como o referendum britânico.  O incremento das notícias falsas também é uma crescente preocupação na Europa e na América Latina.

Mas as redes sociais, embora cada vez mais evoluídas, não apresentam o âmago de ser independente e representar seus próprios interesses como ocorreu com a mídia tradicional, mas bem tudo pelo contrário, o estado de anomia existente nas redes sociais é o que lhe fornece força e a constituí como um 5º poder.

A incapacidade de controlar a informação ou moldar o fluxo da mesma, além da sensação de liberdade que oferece as mídias sociais, possibilitou não somente seu uso para manipular, mas também a capacidade de gerar novos formuladores de opinião, alguns deles descartáveis outros simplesmente automatizados para ir guiando o povo conforme suas pretensões, sendo muito poucos aqueles capazes de perceber essa influência, já que a mesma se dá por aproximação, por aquilo que o usuário gosta, por sua forma de pensar e não por oposição, motivo que também explica a crescente polarização da sociedade em relação a todo tipo de temas, esquerda versus direita, ateus versus religiosos, veganos versus carnívoros, etc.

Filósofos como Umberto Eco e Noam Chomsky já haviam se posicionados contrários e cautelosos perante as mídias sociais, recentemente diretivos relacionados as principais redes também alertaram a população. Mas eis a evolução da mídia social… ela já não é um espaço de interação social usado para se conectar com um amigo…ela é um campo de guerra psicossocial digitalizado, um mundo virtual, capaz de ecoar nos demais poderes, ao tempo que estes, também a utilizam para se perpetuar em seus pedestais.

Talvez o maior paradoxo que envolve as redes sociais é que elas já não fomentam o diálogo, mas sim… o confronto.

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Wesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing pelo Massachussets Institute Of Business e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografia

ECO, Umberto. Pape Satàn Alepp, crônicas de uma sociedade líquida.

DEBORD, Guy. A sociedade do Espetáculo.

CHOMSKY, Noan. Contra o Império da vigilância.

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.