Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

As contradições da globalização se chovaram novamente nas urnas da Europa. Como na França, a “nova política” da tecnologia e empreendedores derrotou partidos tradicionais[ii]. Como na Alemanha, nenhum partido conquistou a confiança da maioria dos eleitores[iii]. Como no Reino Unido, a União Europeia saiu das urnas com um expressivo revés[iv]. Como na Áustria, a extrema-direita e partidos de orientação fascista têm chances reais de ocupar postos no futuro governo de coalizão[v].

A Itália se mostrou a soma desigual de tendências de um mundo parcialmente globalizado em crise[vi].

O Movimento 5 Estrelas – crítico tanto da “corrupção sistêmica” da democracia implantada em 1945 quanto da unificação europeia consagrada no Tratado de Roma (1957) – obteve um terço dos votos. O partido mais votado da Bota debutará nos cargos diretivos. Numa performance que pôs um fim a seu mandato, o Primeiro-Ministro Matteo Renzi obteve menos de 1/5 dos votos, empatado com os separatistas da Lega Nord. Precursor do populismo milionário televisivo, o ex-Primeiro Ministro Silvio Berlusconi se contentou com modestos 14%. A esquerda italiana obteve uma de suas menores votações. Será praticamente invisível no novo Parlamento, o 66º que a Itália conhecerá em 73 anos[vii].

Em 2017, o país acolheu 30% menos refugiados, oriundos principalmente da Líbia e da Síria. A Itália participou do esforço militar europeu que levou à deposição e execução de Muammar Kadafi (2011) e, como os parceiros da integração europeia, sofre efeitos da guerra civil internacionalizada na Síria.

Ao contrário da Alemanha de Angela Merkel, que abriu portas e instaurou políticas de acolhimento a mais de 1 milhão de refugiados sírios como uma possibilidade de realento econômico na Europa pós-2008[viii], a Itália de Renzi manteve em curso as linhas da austeridade. Apesar do país manter taxas de crescimento acima de 1% ao longo do ano de 2017, os refugiados apareceram na campanha eleitoral como obstáculo à retomada do crescimento econômico. A escala dos que chegaram à Itália por terra e mar caiu de 180 mil pessoas para 119 mil pessoas, enquanto França, Suíça e Áustria dificultavam a chegava de novos solicitantes de refúgio em seus territórios[ix]. O Produto Interno Bruto permanece inferior ao de 2014 e a taxa de desemprego aumentou 60% após a crise de 2008[x].

Entre os extremos dos movimentos “não-políticos” e “anti-sistêmicos”, um dos berços da Europa se debruça sobre problemas comuns às democracias liberais, cuja crise é parte integrante do processo de reconstrução da ordem internacional após as duas guerras mundiais (1914-1945). Por um lado, relações de interdependência, normas multilaterais e as instituições internacionais criadas para assegurar relações e normas se acumularam[xi], num processo de aprendizado através das fronteiras. A União Europeia é um dos resultado ambiciosos desse processo de transformação na “organização internacional” (termo utilizado por David Mitrany[xii] durante a Segunda Guerra Mundial).

O sucesso dessas construções, porém, ocultou algumas consequências não-esperadas do processo de globalização que se aprofundou ao longo da Guerra Fria (1945-1989) – tais como o aumento da complexidade, a dificuldade para tomar decisões, a contestação crescente das instituições e normas em sua representatividade e eficiência. O término pacífico da Guerra Fria[xiii] e o fim prematuro da União Soviética motivaram previsões otimistas sobre o futuro, três décadas atrás[xiv]. Entretanto, a essas dificuldades veio se somar uma desilusão eleitoral amplamente compartilhada, marcada por acusações de corrupção e distanciamento progressivo entre sistemas políticos e sociedades civis. Paradoxalmente, esse quadro se estabeleceu após o aumento consistente da participação política na segunda metade do século 20. A persistência desses problemas de ação coletiva num mundo no qual somos levados a pensar globalmente e agir localmente foi agudizada pela crise econômica de 2008, a mais drástica desde o “crash” de 1929 que prenunciou uma nova guerra mundial.

Após se erguerem triunfantes sobre as dinâmicas da Guerra Fria, as democracias liberais se viram na situação desconfortável de reféns entre dois extremos. Por um lado, o desmantelamento dos mecanismos de ação estatal desenvolvidos no século XX foi feito em nome de um liberalismo radical, postulando a obsolescência do estado. O surpreendente cenário de estados dos bem-estar social em autodesconstrução foi complementado pelas crescentes tentações da autarquia, que impulsionaram populismos e autoritarismos, a prometer um mundo ceteris paribus[xv], onde variáveis globais podem ser convenientemente limadas dos sonhos de grandeza e prosperidade entre muros.

A análise dos resultados eleitorais na Itália chama atenção para a necessidade de fazer análises comparativas das democracias liberais – tanto na Europa quanto no outro lado do Oceano Atlântico. A contribuição de experiências compartilhadas pode ser decisiva para o futuro da democracia liberal num mundo que demanda sua reconfiguração, à luz dos desafios que dificultam a ação coletiva.

colaboradorCarlos Frederico Pereira da Silva Gama
Diretor de Assuntos Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (2016-)
Doutor em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio (2011).
Mestre em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio (2005).
Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-Minas (2002).
Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (2015-)
Professor de Relações Internacionais no IRI/PUC-Rio (2008-2015)
 Vice Coordenador de Graduação (2012-2014)
 Vice Coordenador do BRICS Policy Center (2010-2011)
 Consultor Especial do BRICS Policy Center (2011-2012)
 Coordenador do núcleo de pesquisa Country Desks no BRICS Policy Center
(2014-2015)
 Editor da revista Cadernos de Relações Internacionais (2014-2015)
 Pesquisador associado do BRICS Policy Center (2015-)

[i] Diretor de Assuntos Internacionais e Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins (UFT)

[ii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “A Eleição Presidencial na França e a União Europeia em crise”. NEMRI. Disponível em: https://ceresri.wordpress.com/2017/04/27/a-eleicao-presidencial-na-franca-e-a-uniao-europeia-em-crise/ . Acesso em: 27 de Abril de 2017.

[iii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Unificação entre Contradições: Alemanha, Europa e as crises da globalização”. MUNDORAMA. Disponível em: https://www.mundorama.net/?p=24088 . Acesso em: 11 de Outubro de 2017.

[iv] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2015). “As eleições no Reino Unido e seus impactos nas relações econômicas internacionais”. Conjuntura Internacional, v.12, n.1, pp.7-10.

[v] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Desintegração de esperanças: a União Europeia em meio à crise das democracias liberais”. SRZD. Disponível em: http://www.srzd.com/geral/uniao-europeia-crise-democracias-liberais/ . Acesso em: 26 de Dezembro de 2017.

[vi] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Vitórias Inconclusivas: O Desgaste da Democracia Liberal”. NEMRI. Disponível em: https://ceresri.wordpress.com/2017/07/25/vitorias-inconclusivas-o-desgaste-da-democracia-liberal/. Acesso em: 25 de Julho de 2017.

[vii] Mackay, Jamie (2018). “The Italian Elections Were a Victory for Trumpism”. Dissent Magazine. Disponível em: https://www.dissentmagazine.org/blog/italy-elections-victory-trumpism-league-five-star-movement-bannon . Acesso em: 05 de Março de 2018.

[viii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “Desintegração de esperanças: a União Europeia em meio à crise das democracias liberais”

[ix] Agence France-Presse (2017). “Italy’s migrant crisis saw a huge turning point in 2017”. PRI. Disponível em: https://www.pri.org/stories/2017-12-30/italys-migrant-crisis-saw-huge-turning-point-2017. Acesso em: 30 de Dezembro de 2017.

[x] Trading Economics. “Italy”. Disponível em: https://tradingeconomics.com/italy. Acesso em: 05 de Março de 2018.

[xi] Ruggie, John Gerard (1992). “Multilateralism: the Anatomy of an Institution”. International Organization, Vol.46, No.3, pp. 561-598.

[xii] Mitrany, David (1943). A Working Peace System: An Argument for the Functional Development of International Organization. Londres, The Royal Institute of International Affairs.

[xiii] Gaddis, John Lewis (1989). The Long Peace: Inquiries into the History of the Cold War. Oxford: Oxford University Press.

[xiv] Fukuyama, Francis (1992). The End of History and the Last Man. Nova York: Free Press.

[xv] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). “A Ceteris Paribus World? Economic Nationalism in the Age of Donald Trump”. Medium. Disponível em: https://medium.com/@CarlosFredericoPdSG/a-ceteris-paribus-world-economic-nationalism-in-the-age-of-donald-trump-47c358530b3c. Acesso em: 12 de Março de 2017.

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