Recentemente vimos como a mídia festejou o aumento do PIB do Brasil vaticinando o fim de uma recessão econômica, considerada uma das piores da história. Porém ao analisar o crescimento dos diferentes setores que compõe a economia, além de fatores importantes que refletem de forma direta e indireta, tais como o desemprego, trabalho informal e consumo, vemos que existem uma série de questionamentos em relação ao impacto desse resultado positivo na economia brasileira e principalmente na sua sociedade.

O ritmo do crescimento do PIB como forma de mesurar o aumento de uma economia tem sido fortemente criticado por autores como Amartya Sen e Thomas Pikkety, entre outros. Pois a soma do produto interno bruto dos diferentes países mesmo que trate de estabelecer uma forma padronizada e homogeneizada é incapaz de refletir dinâmicas inerentes de cada região, havendo uma distorção, que pode ser menor o mais elevada, conforme a própria composição da economia, os fatores endógenos e a qualidade das informações que circulam nesses contextos.

Também é importante ressaltar que uma análise anacrônica ou quantitativa de um determinado índice pode gerar uma concepção equívoca da realidade e uma obliteração da mesma. E não, não que eu esteja afirmando que não está havendo uma recuperação lenta e progressiva ou que o PIB não seja um parâmetro válido para avaliar esse processo, porém antes de falar de crescimento, é importante analisar não somente o dato de forma isolada, mas sua composição histórica ao longo de ao menos uma década e dessa forma compreender melhor a própria dinâmica dos ciclos econômicos típicos do sistema financeiro internacional que Marx atribuía a própria natureza do liberalismo.

É obvio que após uma profunda recessão qualquer dato positivo será bem recebido, porém antes de falar de crescimento é preciso contemplar uma etapa de recuperação e ainda falta bastante para que o Brasil possa de fato recuperar seus índices posteriores a crise.

Outro ponto importante ao falar do crescimento do PIB brasileiro é analisar quais foram os setores que cresceram. Conforme o IBGE, o agronegócio aumentou 13%, serviços 0,3 e indústria ficou estagnada. É fundamental saber analisar essas informações, pois o crescimento do agronegócio em um cenário positivo para as exportações, com uma moeda local desvalorizada, sem dúvidas gera um efeito positivo, por outro lado, o aumento da oferta no mercado local pressiona a inflação e impacta no consumo das famílias.

A leve recuperação do consumo ajudou a manter o fluxo econômico, porém é importante ressaltar o grau de endividamento familiar e as renegociações decorrentes da queda dos juros que geram um pequeno descanso para o bolso das famílias, mas que não necessariamente significa uma real ativação do consumo.

A paralização do governo (principalmente devido à crise política) e a suspensão de diversos projetos e programas, reduziram os gastos públicos, porém em um país como o Brasil, essa notícia ainda que possa gerar rendimentos a curto prazo, pode se transformar em uma caixa de pandora com o passar do tempo.

Pois é reconhecida a necessidade de infraestrutura para poder viabilizar o desenvolvimento econômico do país e o grande déficit que existe no Brasil. Nesse sentido as PPPS e PPIs formam importantes fontes de recursos, assim como a venda de diversas estatais, porém  somente o tempo será capaz de mostrar se houve uma estratégia econômica em relação a essas vendas geradoras de uma dinâmica positiva para a nação ou se foram apenas uma forma de tentar encher os cofres.

O desemprego é outro fator importante na hora de interpretar o significado dessa suposta recuperação econômica. O Brasil possuí um elevado grau de informalidade e não existe de fato um controle ou índice capaz de quantificar essa realidade e de indicar de forma precisa quantas pessoas vivem desse modo, tampouco existe um controle do perfil dos trabalhadores que podem ser duais (trabalham e exercem alguma atividade informal nas horas livres) ou até mesmo dos trabalhadores que integram os novos modelos de contratação. Fora a essa dificuldade estatística que enfrenta o Brasil é preciso somar que emprego não necessariamente significa uma melhoria real nos rendimentos, pois existe um abismo entre os ganhos reais da população e o custo de vida padrão das cidades brasileiras.

Sendo assim é fácil compreender porque muitas pessoas estão questionando o crescimento do Brasil, já que socialmente existem ainda muitas questões envolvidas, sejam em relação ao desemprego, ao baixo consumo ou a crescente deficiência de serviços por falta de recursos públicos e investimentos do governo.

Havendo uma discrepância entre a realidade macroeconômica da nação e a realidade microeconômica das pessoas, algo que se faz patente na obra de Thomas Pikkety e que vemos no nosso dia a dia.

Por último é fundamental visualizar a conjuntura global. A crise no Brasil coincidiu com uma forte queda no preço das commodities, baixa demanda internacional e uma redução das exportações que impactou na balança comercial, além da moeda (real) que estava mais valorizada que atualmente e com um elevado gasto público em todos os setores. Atualmente as commodities recuperaram seus preços, a balança comercial é positiva, o real está desvalorizado (incrementando a competitividade de nossos produtos) e o gasto público foi interrompido.

De modo que tal vez afirmar que o Brasil voltou a crescer não seja de fato uma realidade, o correto seria dizer que somente agora se inicia um ciclo de recuperação, mas que será necessário muito tempo e intervenções para transformar essa recuperação em um crescimento real e inserir a sociedade nesse processo sem defasar ao país ainda mais devido a uma baixa taxa de investimentos ou por terceirizar a estratégia de toda uma nação nas mãos do capital financeiro.

 

16508475_1856260734643784_2512335075699457974_nWesley S.T Guerra, Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais.

Bibliografia:

O Capital no Século XXI, Thomas Piketty, Edição em 10-2014, coleção Temas e Debates, editor – Círculo de Leitores

On Economic Inequality, Amartya Sen. Expanded Edition, Oxford: Clarendon Press, 1997

Development as Freedom, Amartya Sem. Oxford: Oxford University Press, 1999

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estadísticas

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.