Toda interação entre dois ou mais indivíduos é pautada por uma série de códigos, normas e regras de conduta. O processo de comunicação é algo inerente do ser humano. Não importa o código no qual é feito e o contexto político, cultural ou religioso onde se desenvolve.

O homem precisa se comunicar e dessa forma consolidar as dinâmicas sociais intrínsecas de cada contexto no qual se desenvolve socialmente, porém é necessário haver um critério básico capaz de promover o intercâmbio e fluxo dessas informações, mas ao mesmo tempo garantir uma continua coesão social. Ou seja, a liberdade de expressão é pautada e limitada pela necessidade de coesão social e pelos critérios construídos pela sociedade que orientam as pessoas em seus processos comunicativos… assim surgem os tabus, os palavrões, as blasfêmias, a apologia, como elementos adversos… o que é certo ou errado de falar… sejam em situações cotidianas como no trabalho, em situações eventuais tais como a morte de um ser querido ou em discursos e diálogos perante a comunidade…

O mundo comunicativo é limitado pelo normativo e pela sociedade que utiliza vários recursos para orientar essa liberdade mediante construções sociais e normas, sejam estas instituídas ou não.

Ou seja, a própria liberdade de expressão não existe já que o próprio ser humano estabelece regras que limitam o que “deve ser dito” para manter uma harmonia e coesão social.

Esses limites não surgiram apenas com a implementação de regimes autoritaristas, mas podem ser vistos ao longo da história em diferentes escalas, na religião, nas regras de conduta, na ética de diversas profissões, nas normas morais, nos costumes…  Alguns desses limites foram normatizados pela legislação de alguns países, assim… a apologia ou discurso a favor de um determinado regime é proibido, as injurias em relação a pigmentação das pessoas, a defesa da violência contra uma pessoa ou grupo de pessoas, a difamação, etc…

O direito de uma pessoa que convive em sociedade se delimita ao se deparar com o direito do próximo, e isso também está presente no processo comunicativo… O direito de liberdade de expressão e opinião não é um salvo-conduto para ferir ao próximo, uma vez que este também possuí direitos tais como sua integridade física e psicológica, além da sua dignidade e outros direitos protegidos pela lei.

De modo que tanto o senso comum quanto a norma jurídica indicam os limites da comunicação e do discurso com o objetivo de manter uma certa harmonia social… já que não existe um consenso de opiniões entre as pessoas, mas sim a necessidade de priorizar o respeito que alicerça o convívio da diversidade de opiniões.

Infelizmente na Era da Telecomunicações, a polarização política e a ação monopólica dos grandes grupos mediáticos geraram um novo conceito de comunicação e abriram espaço para a fragmentação do diálogo, criando um mundo de monólogos e discursos direcionados.

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A Internet forneceu a falsa sensação de liberdade incondicional dos discursos, reforçada pelo sentimento de anonimato ou impunidade. Mas ao mesmo tempo gerando uma espécie de recompensa para aqueles que provocam maior polêmica.

Na política a polarização destruiu o tão necessário diálogo político entre os diferentes representantes do povo, para substituir a mesma por um ring de luta e acusações, de insultos e discursos, que em nada tem a ver com a atividade política de uma pessoa ou sua relação para com seu eleitorado, mas sim, uma motivação pessoal, sem limites em um mundo onde o verbal ganhou uma nova dimensão.

As notícias falsas, as interpretações manipuladas por interesses econômicos, o sensacionalismo, se transformaram na realidade das televisões, jornais e portais de todo o mundo… estes canais não se limitam em informar, mas sim, tentam transmitir e reforçar um discurso que beneficia aos grandes grupos mediáticos que investem em diferentes setores, interesses políticos, formação de opinião, etc. Atuando como o já conhecido 4º poder…

O ódio foi democratizado… já não existem regras…. e o direito não consegue acompanhar essas mudanças… tampouco o senso comum… não sendo um processo exclusivo do Brasil mas presente no mundo inteiro… O diálogo está cada vez mais difícil…

Líderes com discursos cada vez mais radicais tais como Trump, Rodrigo Deturte, Vikor Orban, Vladimir Putin… que falam abertamente e sem pensar nas consequências que cada uma das suas palavras produz no cenário internacional e regional. Personagens que antes seriam ignorados pela sociedade, ganham força e centenas de seguidores graças as redes sociais e a essa polarização e reprodução de discursos carregados de ódio e limitados em argumentos, ex-atores pornográficos, futebolistas, comediantes, participantes de reality shows, grupos e movimentos movidos pela busca de poder…

O ódio é o vetor desse momento disruptivo da comunicação… ele não somente foi democratizado como espalhado graças as redes sociais e a evolução das telecomunicações…  E não porque a evolução da tecnologia seja prejudicial… tudo pelo contrário seria de grande ajuda se os meios de comunicação fossem utilizados de forma ética e construtiva orientados para fomentar uma grande coesão social a nível mundial… porém foi o ódio que encontrou esse caminho… falsas notícias, discursos fundamentalistas, apologia a crimes, ataque a indivíduos e grupos de pessoas… um retrocesso continuo sem limites… Uma sede constante de continuar alimentando esse fluxo e continuar esse ciclo… Tanto que leva a uma suposta socialite a mais de 10.000 Km a criticar uma criança, se considerando imune a um crime e livre de falar…

Pois este é o maior erro de todos…. confundir o ódio… com a liberdade….

 

Bibliografia:

Language and Politics, Noam Chomsky

MÍDIA: Propaganda política e manipulação, Noam Chomsky

Semiótica e filosofia da linguagem, Umberto Eco.

Race et Histoire, Levy Strauss

Modernidade Liquída, Zygmunt Bauman

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.