Algumas semanas atrás, uma exposição de temática LGBT foi fechada em Porto Alegre, devido a ação de um grupo neoconservador, em razão de uma suposta proteção dos valores da família, e sob a acusação da mostra fazer apologia a temas como pedofilia e zoofilia.

Longe de julgar o caráter de tal grupo, ou os valores que os move, o intuito deste artigo é falar um pouco sobre a arte e a liberdade de expressão dentro de um regime democrático e de um Estado laico, fazendo apenas um breve ensejo, somente para chamar atenção para tal grupo que se autodenominam liberais e que a eles não lhes custam fazer apologia à ditadura – algo tipificado como crime por nossas leis – Porém dentro de um Estado de Direito eles possuem liberdade de proferir esse tipo de discurso demagogo e que devemos respeitar na medida que a lei nos indica e do possível e sua liberdade para tal.

Após esse acontecimento muitas pessoas no Brasil começaram a questionar o que seria a arte, havendo uma grande confusão e polarização social, frutos talvez do profundo déficit educacional que existe no país e pela falta de oferta cultural e estimulo culturais.

A arte não é concebida como uma forma de expressão humana pelo brasileiro médio, mas sim confundida com a estética que possa existir dentro de uma obra… para grande parte da sociedade a arte é o belo, o bonito, o harmônico e o decorativo… pensamento que reduz drasticamente a capacidade de expressão que existe na arte e a importância da mesma para a humanidade, e não somente para a história como para as demais ciências humanas e até mesmo exatas como a engenharia.

A arte é uma forma de expressão e a mesma não se limita ao estético e bonito, nem ao que vemos ou entendemos (realismo), mas também ao que sonhamos ou imaginamos (surrealismo) ou até mesmo aquelas sensação que não sabemos exatamente como definir (abstracionismo). Basta pensar em uma pessoa com deficiência visual… mesmo que ela não possa entender o sistema de cores da mesma forma que uma pessoa com visão plena, ela pode gerar arte ao expressar como ela concebe o mundo…  De modo que a arte é uma porta para que o artista expresse ao mundo um determinado tema.

Esses temas podem ser cotidianos, psicológicos, religiosos, mitológicos, sexuais e tabus…  e seu intuito pode ser diverso… principalmente quando se tratam de medos e tabus sociais… o autor trata de levar um tema oculto pela sociedade a exposição e discussão. seria como aquele que revela um grande segredo de família com todos reunidos no Natal… E existem diversos objetivos, tais como chocar aos presentes, forçar a uma reflexão, provocar a raiva ou o medo… ou seja a arte se transforma em um veículo de reflexão social e de diálogo.

O grande problema é que muitas pessoas não estão habituadas ou não possuem essa vivência com a arte e acabam reconhecendo apenas o aspecto didático da mesma, que foi utilizado ao longo de sua formação acadêmica e as vezes religiosa… ignoram as diferentes dimensões da expressão artística e transformam o autor em uma espécie de professor… confundindo o âmago deste de provocar uma reação através da contemplação de sua obra, com a assimilação didática da mesma, e nesse momento quando surge a acusação de apologia, quando de fato não houve uma defensa do artista frente a nenhum dos temas.

Essa arte provocativa, chocante e muitas vezes agressiva busca impactar as pessoas e de certa forma forçar para que tenham uma reação, seja ela de raiva, de inconformidade ou até mesmo abominação, mas não é algo exclusivo deste milênio.

Desde o antigo Egito passando por todas as culturas que pisaram na terra, artistas usavam a arte não somente para cultuar aos Deuses e com fins didáticos para ensinar a população, mas também para provocar mudanças sociais e pessoais… as representações do julgamento nas tumbas do Antigo Egito e as visões infernais ou celestiais de Bosch do século XV tinham como objetivo provocar o medo nas pessoas, a reflexão e a busca do caminho para a virtude…  O intuito nessas obras não era narrar a história de uma personagem como nos quadros religiosos, mas provocar nas pessoas uma reflexão através de uma reação que o quadro evocou, e essa reflexão as vezes consegue transformar a própria sociedade, tanto que o inferno de diversos grupos religiosos de hoje se alimentam de obras como a de Dante e Bosch e não de descrições bíblicas.

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Visão do Inferno de Dante pintada por Bosch.

Após o medo como matéria prima veio o tabu, o Grande Masturbador do gênio catalão Salvador Dalí é um dos grandes exemplos, já que questionava os valores da sociedade e a falsa moralidade da mesma, chamava as pessoas para a contemplação de seu corpo como algo estético, porém desvirtuado pela própria sociedade, mostrando o desejo sexual como o mais humano de todos os desejos… Certo é que o tabu já havia sido explorado centenas de vezes, pois em cada época existem diferentes tabus.

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Quadro “O Grande Masturbador” de Salvador Dalí.

O próprio Michelangelo retratou a beleza de um corpo masculino nu em pleno Século XV onde mostrar uma simples panturrilha era visto como falta de decoro. E mesmo assim ele quis evocar as virtudes dos homens em uma figura quase divina que venceu um gigante através da sensualidade do que segundo estudiosos seria seu amante… sem dúvidas uma mensagem gigantesca para uma sociedade que saia do teocentrismo para o antropocentrismo…

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David de Michelangelo

E é graças a arte que conhecemos a evolução da sociedade e do pensamento humano, sabemos dos seus valores, da sua visão dos acontecimentos, seus desejos, seus medos e seus tabus…  A arte é democrática, não abrange somente o belo, mas também o caótico ou amorfo, não retrata apenas o amor… mas também ódio, o pânico…  não havendo nada mais humano… censurar a arte é censurar a própria capacidade que possui a sociedade de refletir sobre si mesma… é censurar ao espírito humano….

Não podemos permitir que isso seja silenciado… não em um país democrático cujo estado supostamente é laico. Certo também que algumas mensagens podem parecer ofensivas mas existe uma linha entre o desagrado e o ilegal  As exposições não são obrigatórias, vai quem quer, livros não são obrigatórios, compra quem quer… agora leis criadas com base aos valores de determinados grupos, essas SIM… são obrigatórias!

Bibliografia:

La historia del Arte – A.E Gombrich Ed. Phaidom Press, 2008.

Psicologia del arte y la estética. Robert Frances, 2005

La filosofia y el arte como interpelación a la política, Amélia L. Gallastegui.

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.