Recentemente Londres foi vítima de mais um atentado que mobilizou a comunidade internacional e sensibilizou grande parte da população que assistiu atônitos a história se repetir em plena noite da Liga dos Campeões na Europa… os terroristas sabiam o que faziam, sabiam que as pessoas estariam nas ruas, sabiam que as atenções recaiam sobre o Reino Unido naquela noite… sem dúvidas uma tragédia.

Poucas horas depois as autoridades britânicas responderam com ações e promessas de manter o pulso forte no combate ao terrorismo e até mesmo anunciaram uma possível mudança na política de diretos humanos.

Quatro dias depois o Irã vira palco de novos atentados… porém sem a mesma relevância na comunidade internacional e sem a mesma mobilização social… Neste caso existe um sentimento oculto de que o país islâmico parece “merecer” esse tipo de atentados… ao final muitos julgam essa nação como a vilã do planeta… o líder do eixo do mal conforme dizia Bush… ou a verdadeira ameaça como afirmou Donald Trump.

Ao analisar ambos atentados e a reações que ambos provocaram vemos como existe uma dupla moral na comunidade internacional. Moral esta justificada apenas pelo poder e não pela legalidade, cultura, religião, afinidade ou sinergia…

Um país pode ser extremamente fundamentalista como no caso da Arábia Saudita e participar da comunidade internacional apoiada pelos enormes contratos armamentistas assinados com o Estados Unidos e outros países da OTAN regados com champanhe e petróleo, já outros são marginalizados do sistema internacional por motivos estratégicos e interesses geopolíticos e apresentados como o reino do mal tais como o Irã.

O terrorismo revela a pior face das nações poderosas e cobra seu preço na população civil.

O mesmo país que hoje é palco de atentados terroristas são também grandes fornecedores de armas para a região do Oriente Médio e promovem diariamente a instabilidade na região.

Assim mesmo, chama a atenção que toda essa tensão haja acontecido após poucas semanas da visita de Donald Trump na área. A resiliência e uma possível corrida armamentista será sem dúvidas uma resposta ao reforço do armamento saudita em uma região cuja tensão é crescente.

Em nenhum momento o terrorismo é justificável, mas o problema aqui apresentado é que a população dos países afetados paga a articulação política e o preço do poder.

O equilíbrio internacional não é forjado pelos direitos humanos como preza a Carta das Nações Unidas, mas no equilíbrio de poder e força que se disfarça de ideias partidários, econômicos, religiosos ou culturais…

Existe toda uma construção sobre a legalidade das ações internacionais que não se justificam com a simples observação da realidade internacional.

Podemos chamar essa realidade de efeito Dubai, o mundo observa seus altos arranha-céus e forte economia e moderna infraestrutura, mas ignora completamente a situação dos trabalhadores da construção civil muito próxima a escravidão, os direitos das mulheres, dos homossexuais, das minorias… O poder é a verdadeira escala de juízo no cenário internacional.

Este poder é o que faz com que as ações do Boko Haram sejam completamente ignoradas pela comunidade internacional, que existam vigílias para as vítimas de Paris ou Londres, mas a indiferença para as vítimas da Síria, do Afeganistão, do Sudão, do Iêmen.

Os governos para manter sobre o controle o sistema internacional, constrói diversos discursos, cujo único objetivo legitimar suas ações e ganhar o apoio da população cujo acesso a realidade é parcial e constantemente manipulado.

Somente haverá mudanças quando a justiça seja a base que equilibra as nações. Justiça e não legalidade, já que a legalidade responde diretamente ao poder…

E é pavoroso ver como o discurso do ódio por autodefesa vai ganhando força, como nações com grande histórico democrático confunde a origem e natureza dos direitos humanos, quando cadáveres ganham importância e categorias conforme sua cor, etnia ou nacionalidade…

A dupla moralidade é a maior mazela do sistema internacional e o discurso sua principal arma, sendo uma realidade oculta por conflitos tingidos de ideologias, religiões e culturas… Mas no fundo… tudo se resume ao poder.

Bibliografia:

Samuel P. Huntington – Choque de Civilizações

Fareed Zakaria – O mundo pós Americano

Henry Kissinger – Diplomacia

Noam Chomsky – Notas sobre o anarquismo

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.