A crise econômica que rompeu no mercado imobiliário norte-americano, relacionado ao mercado de hipotecas de alto risco ainda em meados de 2007, alcançou o mundo em 2008 e converteu-se em uma crise financeira internacional, que de maneira inédita transformou-se em um mal-estar financeiro  um mal-estar econômico nos países de alta renda, trouxe uma crise na zona do euro e inseriu o mundo em uma crise caracterizada pela incerteza, a retração da atividade econômica em economias centrais (ou desenvolvidas), a aversão ao risco e a preferência pela liquidez , menor dinamismo no comercio internacional, interrupção das linhas de crédito comercial e desvalorização das moedas de diversos países.

Em seu mais recente livro As Transições e os Choques: o que aprendemos e o que ainda temos que aprender com a crise financeira, o professor honorário da Universidade de Nottingham e editor e colunista chefe do jornal Financial Times, Martin Wolf (2015) desenvolve um raciocínio mais abrangente sobre a mais recente crise financeira e o que ela tem a ensinar sobre a economia em si, sobretudo ao analisar com minúcia a crise, as formas desenvolvidas pelos países para tentar lidar com os seus efeitos negativos e discutir a eficácia do que vem sendo feito ao longo dos últimos anos, bem quais seriam outras possibilidades de ação. Desta maneira, o autor busca identificar a origem da recente crise, que segundo sua argumentação esteve relacionada a uma espécie de interação entre desequilíbrios mundiais, o processo de globalização e a existência de um sistema financeiro frágil. Tendo em vista a argumentação e as  percepções de Martin Wolf acerca dos efeitos da crise financeira mais recente junto às economias emergentes, presente texto possui como objetivo central apresentar e discutir aspectos da crise financeira de 2008, sobretudo a crise e recuperação dos países emergentes, bem como os principais desafios apresentados a estas economias na sequência da dita recuperação, apresentando alguns exemplos das economias brasileira e chinesa.

Percepções acerca dos efeitos da crise financeira de 2008 junto às economias emergentes: crise, recuperação e principais desafios apresentados

Antes de desenvolver a sua exposição, Martin Wolf (2015) abre o seu livro com algumas reflexões acerca da importância de analisar o que denomina “choques econômicos” e uma provocação muito interessante no título “não estamos mais no Kansas”, que ao longo da leitura da argumentação do autor pode ser compreendida como uma forma de acenar ao leitor, logo de inicio, a tese que será depreendida em sua análise acerca das economias emergente, ou seja, a noção de que ocorreu uma espécie de inversão de papeis entre os países desenvolvidos e os países emergentes ou em desenvolvimento, no que diz respeito aos efeitos percebidos na última crise, que atingiu de forma inédita, mais os países de alta renda ou países desenvolvidos.

Quanto às reflexões iniciais, o referido autor passa por alguns aspectos que mais tarde serão importantes em sua argumentação, a saber: a) a importância de compreender e analisar o último choque, segundo o autor relacionada ao fato de que o choque alterou a percepção sobre a própria economia mundial e a sua sustentação (visto que a situação de estabilidade “notável” que acreditava-se existir deu lugar a incertezas e desequilíbrios econômicos); b) a observação de que as economias que eram consideradas  vigorosas ou até mesmo estáveis demonstraram a sua vulnerabilidade, como foi o caso dos Estados Unidos e de diversas economias da zona do euro; c) a maioria dos países emergentes ou em desenvolvimento recuperaram-se vigorosamente e em geral alteraram algumas de suas estratégias de crescimento, substituindo, a curto prazo a demanda externa que haviam  perdido  pelo estímulo interno (estratégia de curto prazo, como foi adotada pela China) – ação que poderia conduzir a uma instabilidade pelo tipo de investimento ou até mesmo gerar bolhas de preços de ativos e tornar-se insustentável, mas da mesma forma não era mais possível manter uma estratégia de crescimento conduzida pelas exportações e acúmulo de reservas; d) a crise expôs a fragilidade do sistema financeiro, e de acordo com autor estabeleceu a dependência de instituições globais em relação ao governo, trouxe a noção de que o sistema financeiro não poderia ser mais visto como uma parte da economia de mercado, e sim como uma parte do Estado, além disso questionou-se a credibilidade do denominado sistema financeiro de mercado ou “capitalismo financeiro anglo-saxônico, em que o mercado que determinaria a alocação de recursos e detinha o controle de empresas; e) a crise teria acelerado um processo que segundo Wolf (2015) já estava em curso: a transição de poder e influência econômicos dos países desenvolvidos para o s países emergentes ou em desenvolvimento, sendo que o autor coloca excessiva ênfase na relevância da China neste cenário, argumentando que a referida economia asiática  manteria o crescimento de seu PIB e poder de compra, e inclusive esboça uma rápida comparação entre a ocorrência de crises financeiras e econômicas e a transição de poder relativo ocorrida após a crise de 1930.

Os principais resultados e ou desafios deixados como um “legado” da crise são: a necessidade de reformas na regulação financeira, sistemas monetários e governança global (relacionada a instituições econômicas), o surgimento de um desafio à existência da zona do euro, e consequentemente o até então considerado bem sucedido projeto de integração regional europeu, e argumenta que embora acredite ser pouco provável que membros deixem a zona do euro após o período mais grave da crise (sobretudo o período de 2010 até 2012), processo este que além de um retrocesso do projeto de integração da União Europeia iria trazer uma crise de confiança e credibilidade, a região deve focar-se em si por um período de recuperação econômica. No entanto, o que se destaca é a argumentação do autor acerca da ideia de que o maior impacto da crise tenha sido no campo intelectual, ou seja, a partir da crise observou-se que noções pré-estabelecidas acerca do vigor de certas economias e sistemas financeiros, bem como as medidas econômicas e fiscais para lidar com a crise, podem não ser aplicáveis a atual crise.

Neste sentido, o autor sustenta a argumentação de que diferentemente do que observou-se nas crises anteriores, as economias emergentes ou em desenvolvimento não atravessaram crises sérias, ao contrário, conseguiram manter-se até o que o autor denomina como “grande recessão” que seguiu após a crise financeira de 2008, período que compreende o fim de 2008 e o inicio de 2009, quando os referidos países foram atingidos pelos efeitos da crise. Contudo, Wolf (2015) enfatiza que o aparente sucesso das economias emergentes não significa que os países estavam “deslocados” da realidade vivenciada pelos demais países do globo; mas que um dos “resultados” deste processo de crise foi a verificação de uma transição do fluxo econômico dos países de alta renda ou desenvolvidos para os países emergentes ou em desenvolvimento, como é o caso da China, que se tornou um novo centro da economia mundial.

Ao analisar os elementos que culminaram na crise financeira de 2008, Arieti e Inácio (2010) vão ao encontro do argumento central de Wolf (2015) de que as principais potências econômicas (países de alta renda ou desenvolvidos, no modelo de Wolf) sofreram mais com as consequências da crise subprime do que os países em desenvolvimento (ou emergentes), porém as autoras repousam tal diferença dos efeitos observados no sistema financeiro, visto que os bancos dos países desenvolvidos possuíam muitos ativos subprime (sobretudo empréstimos concedidos a clientes que tinham dificuldade de manter seus pagamentos) e assim sofreram de falta de liquidez, enquanto que os países em desenvolvimento foram afetados pela retração do comércio mundial e das exportações direcionadas aos países desenvolvidos. Assim, argumentam assertivamente que um dos “resultados” da recente crise financeira foi justamente a verificação do potencial de instabilidade decorrente de um sistema financeiro marcado pela desregulamentação, caracterizado pelo surgimento de diferentes “produtos” que conduziram a uma elevação a um aumento da liquidez e do crédito de maneiras insustentáveis e não condizentes com a realidade econômica.

Os constrangimentos externos às economias emergentes advindos do sistema financeiro internacional também já tinham sido considerados por ALMEIDA (2001), quando o autor avalia os diversos efeitos negativos das crises, sobretudo na América Latina. No caso brasileiro, contudo, o autor argumenta que após a verificação da turbulência dos mercados financeiros na década de 1990 e em 2001, as autoridades nacionais foram testadas em sua capacidade de lidar com os efeitos negativos da volatilidade de capitais, que detinha, por sua vez, a capacidade de abalar a política monetária e equilíbrio da balança de pagamentos, porém a resposta das autoridades foi positiva e relativamente bem desenvolvida a partir do momento em que foi possível a contenção de possíveis crises bancárias com a utilização de medidas (tidas inclusive como contrárias ao movimento de liberalização financeira) que permitissem a autoridade nacional maior controle econômico, tais como os mecanismos de controle de capitais e a manipulação de instrumentos – como o depósito compulsório e alterações na taxa do imposto de operações financeiras – para conter possíveis distorções monetárias.

A tese desenvolvida por Wolf (2015) para analisar os efeitos da crise nas economias emergentes, bem como as políticas desenvolvidas que contribuíram para sua recuperação, é a de que o sucesso obtido pelos referidos países em atravessar a crise é notável e praticamente um fato inédito, considerando o potencial avassalador dos choques anteriores, mas estes países enfrentam grandes desafios, notadamente quatro correlacionados, que serão discutidos mais a frente. Para tanto, o autor busca analisar quais seriam os fatores que permitiram o referido “sucesso” das economias emergentes frente à crise financeira de 2008 e determinar se estes tendem a continuar.

Tendo em vista os fatores que permitiram o “sucesso” das economias emergentes frente à crise, o principal argumento de Wolf (2015) está relacionado à resiliência das economias emergentes, ou seja, a capacidade destas de se recobrarem ou adaptarem às mudanças, fato que reflete uma visão mais otimista de que a capacidade demonstrada pelos referidos países esteve relacionada à questionável noção de que eles desenvolveram políticas monetárias melhores e políticas fiscais anticíclicas após terem sofrido com as conseqüências das crises financeiras vivenciadas nas décadas de 1980 e 1990. Baseado em analises estatísticas e dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) Wolf (2015) argumenta que países que desenvolveram “políticas melhores”, ao que indica política monetária e manter as posições da divida pública, déficits fiscais e reservas em moedas estrangeiras, mantiveram um crescimento mais prolongado. No entanto, poucos exemplos o autor concede de tais políticas econômicas.

Embora os países emergentes tenham conseguido recuperarem-se de maneira relativamente rápida, os desafios apresentados às economias no contexto pós-crise seriam importantes, a saber: a normalização monetária das economias de alta renda (ou desenvolvidas); a desaceleração estrutural das economias emergentes; a desaceleração da China (considerada importante peça do crescimento mundial); o crescimento econômico liderado pelas exportações de economias de alta renda (países da zona do euro e Japão).  No entanto, ao observarmos a situação econômica mundial atual talvez dois destes desafios pareçam mais proeminentes, a saber: a desaceleração estrutural das economias emergentes e a desaceleração da China.

A questão da desaceleração das economias emergentes estaria, segundo a argumentação de Wolf (2015), relacionada à coexistência de fatores cíclicos, principalmente à rápida e insustentável recuperação dos referidos países no período posterior ao ano de 2009, e estruturais, visto que para o referido autor não era mias possível a estas economias apoiarem-se nas mesmas “fontes de crescimento” existentes em períodos anteriores, ou seja, teria ocorrido uma alteração na estratégia de crescimento porque elementos antes positivos, como o boom das commodities, o elevado crescimento do comercio mundial e a existência de condições financeiras acessíveis (possivelmente acesso ao crédito, influxo de capitais e acúmulo de reservas via exportação), não estavam mais presentes no cenário econômico desde meados do ano de 2011.  Neste sentido, cabe ressaltar que no caso da economia brasileira, por exemplo, o “diagnóstico” da desaceleração já era evidente na análise de Bacha(2013), sobretudo quando o autor argumenta que embora o Brasil tenha apresentado  uma trajetória econômica favorável desde 2004 e tenha se recuperado relativamente rápido da crise financeira no biênio 2008-2009, a partir de 2011 passou a apresentar índices econômicos negativos – como o baixo crescimento econômico, a alta inflação  e a desindustrialização – que demonstravam que embora o país tenha sido beneficiado (no período de 2004-2010) pelo boom das commodities, acúmulo de reservas e influxo de capital externo,  a aparente euforia econômica teve seus fatores principais esgotados e ceder lugar a uma economia repleta de problemas.

Entre as possibilidades discutidas pelo referido autor para lidar com estes índices ruins da economia brasileira está uma visão qualitativa da estratégia de desenvolvimento, que consiste em manter foco em pontos críticos ao crescimento economicamente sustentável do país, e clama, deste modo, por uma maior integração da economia brasileira no comércio internacional poderia como forma de induzir o país a um crescimento através da ideia de “exportabilidade” (advinda da noção de desenvolvimento desequilibrado de Hirschman) em que ao passou que o país continuasse seu processo de industrialização poderia alcançar um maior e melhor crescimento econômico e integrar-se as cadeias internacionais de valor. Assim, a proposta de Bacha(2013) sugere uma estratégia relativamente diferente daquela observada até então (sobretudo no período discutido pelo autor, 2004-2010) – baseada primordialmente na exportação de commodities – , ao falar da importância de integrar o país à cadeira internacional de valor, fato que ainda não ocorre, de acordo com sua visão, porque embora o país seja interessante para o investimento direto estrangeiro este investimento só ocorre para a exploração do mercado interno relativamente protegido (pelo nosso processo de substituição de importações) e não gera assim crescimento integrador ou economicamente sustentável.

O desafio relacionado à desaceleração da China, por exemplo, é pauta recorrente nos últimos anos, sobretudo desde 2015 quando depois de um rápido crescimento econômico verificado nas últimas décadas, de cerca de 10% ao ano de acordo com dados do Banco Mundial, trouxe alguns desafios à nação asiática, tais como desequilíbrio econômico, social, de sustentabilidade e pressões relacionadas ao envelhecimento da população. O 12º Plano Quinquenal da China, elaborado para o período de 2011-2015 antes do mandato de Xi Jinping, já buscava ajustamentos de ordem política para as questões mencionadas, com foco especial no desenvolvimento de medidas que permitissem o crescimento sustentável, centrado na melhoria de índices sociais (como a pobreza e melhoria na qualidade de vida). No ano de 2015, após altos índices de crescimento econômico, sobretudo do produto interno bruto (PIB), a China entrou em um novo estágio em seu processo de desenvolvimento – denominado pelo Presidente Xi Jinping como “Novo Normal” – caracterizado pela busca de reequilíbrio crucial e pela diversificação de sua economia para alcançar um crescimento mais lento, porém economicamente sustentável, e uma distribuição mais uniforme dos ganhos, sobretudo através do estímulo ao desenvolvimento de regiões do país que atualmente são mais pobres e ou menos desenvolvidas.

De acordo com a análise desenvolvida ao longo deste texto ficou evidente que no que diz respeito às percepções de Martin Wolf acerca dos efeitos da crise financeira de 2008 junto às economias emergentes ou em desenvolvimento, alguns aspectos são importantes para a compreensão da rápida recuperação das referidas economias, tais como (citar os fatores). No entanto, cabe ressaltar que tal “sucesso” é heterogêneo e que as economias sofreram, assim como quase todas as demais, sobretudo com o chamado período de recessão mundial (que compreende o final do ano de 2008 e o início de 2009).

Tendo em vista as percepções desenvolvidas por Martin Wolf para analisar os efeitos da crise financeira de 2008 junto às economias emergentes, é possível inferir que no caso do Brasil alguns aspectos são verificáveis, entre eles: de fato, o Brasil como uma economia emergente demorou certo tempo para sentir os efeitos da crise financeira de 2008, porém quando tais efeitos – como a redução do crédito, fruto da incerteza de investidores com relação aplicações realizadas, a baixa liquidez de um sistema financeiro interligado – tornaram-se perceptíveis pelos formuladores de política (ainda no final do segundo governo de Lula), o governo desenvolveu uma série de medidas com o intuito de mitigar tais efeitos na economia brasileira: o governo estimulou o aumento do consumo interno através de atitudes como a redução do imposto sobre produtos industrializados (IPI) para áreas como construção civil, automobilístico e eletrodomésticos (“linha branca”), redução do IOF, redução da alíquota do depósito compulsório dos bancos e estímulo ao crédito.  As políticas adotadas no caso brasileiro parecem mais fruto de uma necessidade de adaptação às mudanças observadas no cenário internacional do que algo que tenha sido forjado ao longo de muitos anos, e o êxito do país no manejo de políticas anticíclicas durou um curto período, porém como fica evidente na argumentação de Wolf (2015), ocorreu um processo de desaceleração econômica, sobretudo tendo em vista o crescimento do país em 2011 (de 2,7%, segundo o relatório de 2013 do FMI) e dos anos subseqüentes, que registraram baixa.

Referências Bibliográficas 

ALMEIDA, Paulo Roberto de. O Brasil e as crises financeiras internacionais, 1929-2001. Cena Internacional, v.3, n.2, 2001.

ARIENTI, Patrícia F.; INÁCIO, Janypher Marcela. Instabilidade, Desregulamentação Financeira e a Crise do Sistema Financeiro Atual. Cadernos Cedec, n.90, novembro de 2010.

BACHA, Edmar. Integrar para crescer: o Brasil na economia mundial, 2013.

WOLF, Martin. As transições e os choques: o que aprendemos – e o que ainda temos que aprender – com a crie financeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Imagem: Moedas internacionais. Crédito: FreePhotosBank

Publicado por:Flávia Abud Luz

Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado, atualmente é aluna do curso de Política e Relações Internacionais, Pós-Graduação lato sensu da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Possui interesse nas áreas de Segurança Internacional, Terrorismo e Conflitos Internacionais, especialmente temas relacionados ao Oriente Médio (sub-áreas Levante e Golfo Pérsico).