Brasil, Estados Unidos, Itália, Espanha, Áustria, Colômbia, entre outros países… são casos sintomáticos de uma tensão existente entre o sistema político e seus representantes com o povo e com o processo de formulação e tomada de decisões políticas; sendo está uma realidade crescente em diversos países.

Em cada caso um ponto ou mais de tensão, ficou evidenciado refletindo as mudanças de paradigma que já ocorrem no mundo inteiro.

Seja os resultados das eleições americanas; a dificuldade de empossar o presidente eleito em duas eleições na Espanha; a negativa da população ao Acordo de Paz da Colômbia; a resposta negativa a reforma constitucional da Itália; o cancelamento e reviravolta nas eleições da Áustria e as tensões entre o executivo e o judiciário do Brasil. São casos que colocam em evidência a dificuldade de equilibrar os interesses da sociedade com os interesses políticos de uma nação, além de levantar questões sobre a capacidade dos sistemas ditos democráticos de espelhar a vontade majoritária da população principalmente quando a mesma está cada vez mais polarizada.

O Leviatã evoluiu de tal forma que possui interesses e ações próprias que já não são limitadas pelo pacto social e pela representação dos interesses nacionais.

Essa mudança no caráter representativo e político do Leviatã, não somente se espalha numa maior polarização e tensão social como também numa modificação nas correntes ideológica e de como está chega até a população, havendo uma mudança perceptível nos discursos e o surgimento de novos víeis ideológicos.

Modificações nas ações dos regimes socialistas que são cada vez mais liberais em sua ação econômica internacional, como pode ser o caso da China ou a flexibilização que já ocorre na Cuba. E a mudança no discurso de direita que ressurge com força em quase todos os continentes.

Mesmo em países mais liberais, existe uma cobrança crescente da ação do estado, transformando o discurso de direita em uma apologia ao neonacionalismo onde o Estado atua como modelador e transformador tanto social como econômico priorizando uma parcela da população.

Políticas anti-imigração ou reformas tributárias e laborais, impactam na sociedade transformando não somente a economia como até mesmo a disposição da pirâmide demográfica e social. Da mesma forma, políticas intervencionistas que buscam estimular a produção interna de uma nação – como as prometidas por Donald Trump – São uma forma de intervenção do estado na economia; não atuando como um agente regulatório ou fiscalizador, mas como agente transformador, sendo este reflexo das mudanças no discurso e na ação do Estado, que já não se apoia nos ideais neoliberais e sim em uma recuperação de conceitos mais conservadores.

Por outro lado, o discurso socialista perdeu representação em diversos países e ganha reformulações em algumas nações tais como o partido Podemos da Espanha, cujo discurso se intensifica e se radicaliza.

O Leviatã se fortalece em setores fortes da população, com maior poder de movimentação, articulação e representação de seus interesses, sacrificando ao seu passo outras parcelas dessa mesma que também são integrantes do sistema, mas que não possui hoje o mesmo poder ou a mesma representação.Como um grande organismo que luta pela sua sobrevivência o Leviatã em muitos países sacrifica membros de seu corpo no intuito de permanecer, não havendo mudanças significativas em sua estrutura, apenas um giro de seus passos para uma nova direção.

Esse panorama bipolar que enfrenta o Leviatã obrigou que o mesmo lute pela sua própria sobrevivência, as vezes se distanciando do pacto social ou mudando constantemente de parecer, outras vezes tentando modificar o próprio pacto.

O poder como poder já não emana nem do uso da força, nem da representação popular, nem do poder econômico, mas de uma complexa combinação desses fatores somadas ao poder dos interesses e articulação que existe por detrás para fazer valer os mesmos.

Embora a ação política internacional parece voltar ao dualismo o poder do discurso nunca foi tão importante, pois com ele é possível fazer com que o Leviatã sacrifique importantes partes de sua estrutura e ainda assim manter sua atuação.

A população, em diversos países já não se sente representada nas ações do Estado, mas por outro lado absorve o discurso que é transmitido e acaba acatando essas modificações de forma indireta ou direta.

Uma transformação do Leviatã que luta por sobreviver as mudanças no alinhamento geopolítico, mudanças sociais e alterações globais.

O grande questionamento que permanece é saber em quê o Leviatã está se transformando e se a recuperação de uma visão conservadora do mundo é compatível com processos como a globalização e seus efeitos. Além da situação do pacto social e da polarização da população que aos poucos exige ou bem uma ação mais rígida do Estado para a execução de suas políticas mesmo sem o apoio de uma parcela importante da população – gerando autoritarismo – ou o aumento das tensões  e divisões sociais derivar em conflitos – gerando guerras civis – sendo importante tentar compreender como o mundo está no ápice de umas série de transformações e que as instituições mais clássicas ou mudam ou lutam por permanecer as mesmas e recuperar sua força anterior.

Bibliografia

Hobbes, Thomas. Leviatã ou Matéria, Palavra e Poder de um Governo Eclesiástico e Civil. Edipro. São Paulo, 2015.

Chomsky, Noam. Lo que quiere realmente el Tio Sam. Siglo XXI de Editores, 2006. México.

Hobsbawn, Eric. Nações e Nacionalismo desde 1780 programa, mito e realidade. Ed. Paz e Terra. São Paulo, 2013.

Instituto Nacional de Estatisticas de España – Elecciones en España. Disponível em: http://www.lne.es/elecciones/

Boulos, Guilherme. De que lado você esta? Reflexões sobre a conjuntura política e urbana no Brasil. Ed. Boitempo. São Paulo, 2015.

Voltaire. Tratado sobre a tolerância. L&PM editores. São Paulo, 2008.

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.