O que pode ser dito do ano de 2016, quase que em tom de retrospectiva, é que este foi marcado por uma série de acontecimentos que se não no presente, no futuro serão observados como fundamentais para o debate e a reestruturação dos paradigmas com os quais estávamos acostumados a lidar.

Devido à velocidade com que as mudanças e eventos acontecem é necessário estarmos atentos para a compreensão das mesmas para não perdemos os movimentos das peças contidas neste grande tabuleiro de xadrez que é o sistema internacional.

Entre os acontecimentos, destacamos e monitoramos ao longo dos ciclos de estudos e dos artigos elaborados no ano algumas transformações-chave nos panoramas internacional e nacional, tais como as mudanças institucionais no governo de Erdogan na Turquia; o terrorismo e a busca pela contenção dos avanços do Estado Islâmico; a crise dos refugiados e seus reflexos na Europa; a crise política brasileira; a guerra civil na Síria e seus desdobramentos no Oriente Médio; mudanças climáticas e a geopolítica do Ártico; a geopolítica da Ásia para o século XXI; o aumento do conservadorismo nos EUA e Europa; a retomada das relações entre EUA e Cuba; alterações nas diretrizes da política externa brasileira; os desdobramentos observados nos cinco anos após a primavera árabe; crise do modelo de integração da União Europeia.

Desde o Ciclo Perspectivas, o primeiro deste ano, nossos membros e colaboradores trouxeram análises singulares acerca de temas que foram recorrentes na ordem do dia na política internacional.

Inspiração para as demais regiões do globo no que tange aos seus esforços de integração, a União Europeia se constituiu, ao longo das décadas, como um paradigma de sucesso para o desenvolvimento e implementação de um projeto regional. Nos últimos anos, o projeto europeu tem vivido uma fase crítica, em que questões de natureza diversa, tais como a crise da dívida pública de países como a Grécia que além de enfraquecerem o Estado colocam em cheque as rígidas regras para a adesão à União Européia; a postura austera da Alemanha; o fortalecimento de partidos políticos que questionam a austeridade; e a atual crise dos refugiados advindos de regiões do Oriente Médio e Norte da África.

A crise econômica que foi deflagrada no ano de 2008, inicialmente nos Estados Unidos e depois no mundo, expôs as contradições relacionadas às rígidas regras para a adesão à União Europeia, bem como ao modelo de governança proposto por meio das instituições europeias para lidar – de maneira comum – com os efeitos das instabilidades econômicas e financeiras de seus Estados membros. Tendo em vista os aspectos econômicos da crise da dívida, os principais desafios da União Europeia estão relacionados à coordenação fiscal, sobretudo através de medidas de austeridade inseridas em diversos Estados-membro, ações estas que além de demandarem tempo tem outro ingrediente importante: a solidariedade entre os seus membros. Ao pensarmos na ascensão de partidos populistas ou de pronunciado teor nacionalista, ou que possuem uma postura contrária àquela revelada pela União Européia e suas instituições, é possível identificar outro desafio europeu: a questão da identidade. Um processo contrário àquele ideal desenvolvido por Ernest Haas– teórico do denominado neofuncionalismo em Teoria de Relações Internacionais – em que as identidades nacionais aos poucos “dividiriam” seu espaço com a supranacionalidade e o aspecto político seria preponderante para as relações entre os Estados.

As crises vividas pelas Europa podem realmente afetar ou até mesmo “frear” o processo de integração europeu? Ou seriam estas boas opções para incitar o questionamento produtivo acerca do modelo atual e suas fraquezas? As discussões para responder essa questão que ronda a cabeça dos cidadãos europeus foram dominadas por economistas e especialistas em finanças que, por sua vez, discordam dos cientistas sociais, sobretudo no que diz respeito às origens dos problemas atuais e as possibilidades para resolvê-los. Em junho de 2016 mais um elemento juntou-se à já complexa crise institucional da União Europeia: o Reino Unido votou por sua retirada da condição de membro do bloco europeu. Mas uma vez, a estabilidade do bloco voltou à tona e os desdobramentos da ação britânica ainda não são consenso entre formuladores de política no mundo.

Ainda no continente europeu, observou-se a intensificação da crise dos refugiados e a dificuldade dos países membros da União Europeia em coordenar e desenvolver políticas para lidar com o grande fluxo de pessoas advindas de países do Oriente Médio e Norte da África, sendo que a falta de consenso em lidar com o tema ocasionou uma série de medidas tomadas por iniciativa própria de cada Estado e agravou a crise institucional do bloco. Entre as iniciativas debatidas pelos membros estavam desde a aceitação e integração dos imigrantes – sendo que inclusive foi uma proposta da chanceler alemã Angela Merkel “dividir” igualmente entre os países do bloco o fluxo migratório – até o fechamento das fronteiras e a revisão do Tratado de Schengen. Um dos temores que tal situação proporciona é a ascensão e/ou o fortalecimento de partidos políticos populistas ou de pronunciado teor nacionalista que no contexto nacional de cada país membro do bloco tentem ganhar capital político com base na dificuldade dos governos atuais em lidar com desafios econômicos e políticos.

A guerra civil síria, que até o momento já causou a morte de mais de 200 mil pessoas e provocou uma crise migratória de grande escala, que de acordo com o ACNUR já fez com que cerca de 4 milhões de pessoas deixassem a Síria, ainda é um desafio aos formuladores de política externa de diversos Estados. Os desafios relacionados diretamente ao embate de forças do governo e os movimentos armados de resistência a este, ao longo dos últimos dois anos outro aspecto importante somou-se ao cenário sírio: o fortalecimento do grupo terrorista Estado Islâmico no Iraque e seu posterior avanço em território sírio, sobretudo com a tomada da cidade de Raqqa. O enfraquecimento e fragmentação do poder do Leviatã sírio, visto que o governo já não conseguia mais conter os insurgentes e opositores políticos, foi observado e posteriormente “aproveitado” pelo Estado Islâmico, que na referida fragmentação interna buscou a ampliação de seu objetivo inicial de estabelecer um califado. Além das ofensivas entre as tropas de Bashar al-Assad e as forças de oposição ao seu governo, o envolvimento de potências externas ampliou-se consideravelmente no segundo semestre de 2015, por conta de ações inter-relacionadas: quando jatos da Força Aérea Russa iniciaram uma campanha na Síria de apoio ao governo de presidente Assad e, após os ataques ocorridos em Paris em novembro de 2015 – cuja autoria foi reclamada pelo auto-proclamado Estado Islâmico – a França e o Reino Unido ampliaram seus ataques à Síria com o intuito de acertar alvos do Estado Islâmico que agiam ou encontravam-se em território sírio e, não menos importante,  tropas especiais norte-americanas aproximaram-se de tropas curdas para conter e lutar contra o Estado Islâmico. As tentativas de um entendimento ou cessar-fogo ainda não alcançaram resultados satisfatórios.

Na Turquia, as mudanças institucionais desenvolvidas ao longo do governo de Recep Erdogan, desde o ano de 2010 foram acompanhadas por acusações de perseguições políticas, de minorias sectárias e censura dos meios de comunicação; e correram protestos de parcelas da população em uma espécie de resposta às medidas que consideraram autoritárias. E em julho de 2016 um novo capítulo destas relações instáveis no país ocorreu quando militares tomaram diversos pontos da capital Istambul quando o governo informou que um golpe de Estado estaria em curso e uma série de embates ocorreu entre população, forças do governo até que este conteve a proclamada ameaça.

Na China, a política externa de Xi Jinping em uma posição diferenciada daquela de seus antecessores é o uso que ele e aqueles que compõem  a máquina estatal chinesa fazem de diferentes instrumentos , como a aspectos de tecnologia militar e o desenvolvimento de uma robusta diplomacia de comércio, para desenvolver uma política externa voltada à concretização de objetivos geopolíticos muito bem desenhados. Entre os referidos objetivos figura, por exemplo, a manutenção da ordem interna, o desenvolvimento de um crescimento econômico sustentável.

Com relação aos Estados Unidos, eventos como a retomada de relações entre os Estados Unidos e Cuba e a campanha das eleições presidenciais foram foco de atenção por parte da mídia internacional e de analistas. A visita do presidente norte-americano Barack Obama à Cuba foi simbólica ou demonstrar comprometimento com a reaproximação – iniciada em 2014 – e que teve a intervenção feita pelo Papa Francisco na organização de conversas diplomáticas entre ambos os países, porém, os questionamentos sobre o fim do embargo econômico imposto à Cuba. Quanto à campanha das eleições presidenciais, uma série de elementos definidores ocorreram; a candidata democrata Hillary Clinton venceu o candidato Bernie Sanders nas prévias de seu partido e teve como oponente do partido republicano o empresário Donald Trump, que mesmo não sendo o favorito de seu partido conseguiu desenvolver um discurso conservador que alcançou muitas parcelas do povo americano.

No Brasil, após meses de crise política, associada a escândalos de corrupção e a acusação de que a presidente teria cometido crime de responsabilidade fiscal, culminaram no impeachment da presidente. O governo de Michel Temer sinalizou que sua prioridade central deve ser a política econômica, sobretudo a adoção de um conjunto de medidas econômicas e fiscais com o proclamado objetivo de retomar o crescimento do país. Além da discussão das políticas internas, um ponto ressaltado por analistas foi acerca das possíveis mudanças na condução da política externa brasileira.

O intuito do NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar de Relações Internacionais em seu último ciclo deste ano é propiciar uma oportunidade de olharmos e abordar justamente estes acontecimentos de forma analítica e crítica, buscando compreender suas origens, significado e quais podem ser seus desdobramentos para o ano que chega, tendo em vista a multiplicidade de visões de mundo existentes e a vontade de compreender o contexto nacional, regional e mundial em que estamos inseridos.

Convidamos todos os membros, colaboradores e leitores a participarem destas reflexões.

Boa leitura e estudos a todos!

 

Publicado por:Flávia Abud Luz

Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado, atualmente é aluna do curso de Política e Relações Internacionais, Pós-Graduação lato sensu da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Possui interesse nas áreas de Segurança Internacional, Terrorismo e Conflitos Internacionais, especialmente temas relacionados ao Oriente Médio (sub-áreas Levante e Golfo Pérsico).