O rápido crescimento econômico verificado nas últimas décadas, de cerca de 10% ao ano de acordo com dados do Banco Mundial, trouxe alguns desafios, tais como desequilíbrios econômicos e sociais, sustentabilidade e pressões demográficas relacionadas ao envelhecimento da população e migrações. O 12º Plano Quinquenal da China (elaborado para o período de 2011-2015 antes do mandato de Jinping), já buscava ajustamentos de ordem política para as questões mencionadas, com foco especial no desenvolvimento de medidas que permitissem um crescimento sustentável, centrado na melhoria de índices sociais (como a pobreza e melhoria na qualidade de vida) e ambientais e na garantia da eficiência energética.

Contudo, o fato é que no início do ano de 2015 observamos uma China que, depois de décadas de altos índices de crescimento econômico, sobretudo do produto interno bruto (PIB), vivencia um novo estágio em seu processo de desenvolvimento – denominado pelo Presidente Xi Jinping como “Novo Normal” – caracterizado pela busca de um reequilíbrio crucial e diversificação de sua economia para alcançar um crescimento mais lento, porém economicamente sustentável, e uma distribuição mais uniforme dos ganhos, sobretudo através do estímulo ao desenvolvimento de regiões do país que atualmente são mais pobres e ou menos desenvolvidas.

Em meio a este cenário de desafios econômicos domésticos e à busca de um papel de maior influência no cenário regional, a China de Jinping deu inicio a uma série de reformas na política externa e econômica para lidar com os referidos novos desafios e alcançar novas oportunidades de projeção regional e crescimento nacional.Tais alterações nas políticas doméstica e externa, que destacaram-se por serem diferentes daquelas desenvolvidas por seus antecessores, trouxeram questões acerca de qual seria a natureza da grande estratégia chinesa, como observou-se nas discussões desenvolvidas por Brooks e Worthfort (2016); Foot(2009); Biddle e Oelrich (2016) que tratam, respectivamente, da possibilidade da China questionar a até então dita unipolaridade norte-americana no sistema internacional (sobretudo desde 1991), as estratégias desenvolvidas pela China para lidar com a influência norte-americana na região asiática, sobretudo por conta das diversas parcerias estratégicas desenvolvidas com países como o Japão, e, em uma análise extrema, a possibilidade de conflitos na região do pacífico.

Brooks e Worthfort (2016) argumentam que a China não é como as potências emergentes do passado e as condições de mundo que observa-se a ascensão do país asiático também são diferentes daquelas discutidas quando da ascensão dos Estados Unidos, por exemplo, que permitiria invalidar as analogias apresentadas por Paul Kennedy em Ascensão e Queda das Grandes Potências. Tomando como base três aspectos principais, a saber: a) a China estaria em um nível tecnológico mais baixo ao ser comparada com o Estado líder; b) a vantagem militar norte-americana é maior do que as analogias de distanciamento observado em momentos históricos anteriores; e c) a própria natureza do poder alterou-se: a dificuldade de converter as capacidades econômicas em capacidades militares torna a transição de uma grande potência para o status de superpotência mais difícil do que foi no passado.

Foot(2009) argumenta que embora a sociedade chinesa possua visões divergentes acerca do futuro do relacionamento com os Estados Unidos, o que parece unir tais visões em torno de um posicionamento político doméstico e internacional é o reconhecimento por parte da China de que se vive em um ambiente em que a dominação americana e sua influência irão perdurar ao menos por mais algumas décadas. Desta forma, a China teria desenvolvido uma estratégia sofisticada de “fazer o melhor possível no pouco espaço de manobra existente” que consiste em evitar conflitos abertos com os Estados Unidos, buscando interesses congruentes e concentrar-se em seus objetivos de modernização e crescimento nacional. A primeira vista, tal estratégia chinesa pode ser interpretada como soft bandwagoning, em que a China apenas buscaria aproximar-se da potência hegemônica e acomodar-se, assim, no sistema internacional, mas, tal ação é contrabalanceada com uma movimentação ativa chinesa, destacada pela presença regional e global forte, traduzida na atuação em foros multilaterais, celebração de acordos bilaterais e regionais em que o país oriental busca a promoção de seus interesses, mesmo quando estes se opõem àqueles apresentados pelos Estados Unidos, como, por exemplo, na questão de Taiwan. A estratégia chinesa guarda um aspecto importante de hedging, ou seja, uma espécie de garantia em que a China baseia seu futuro que está relacionada a possibilidade de um desgaste  importante na relação sino-americana. Tal garantia vem dos laços fortes que a China estabeleceu com diversos países – como a celebração de parcerias estratégicas na região, com países como Rússia, Índia, Tailândia, Cazaquistão, e além desta, com França, Brasil e Irã – e blocos econômicos presentes no sistema internacional – como a Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) –, fato que acrescido da forte interdependência econômica dificultaria uma contenção ou isolamento do país asiático e asseguraria sua posição de relevância no cenário econômico.

Biddle e Oelrich (2016) tratam da possibiliade da perda de poder militar norte-ameicano no pacifico ocidental  por conta do desenvolvimento, por parte da China, de tecnologias (como mísseis e sensores) destinados a negar a liberdade de movimento à poderes considerados hostis ao país asiático, tanto no ar como na costa marítima. O desenvolvimento e maturação de tecnologia militar denominada A2/AD (antiacesso ou negação de acesso) pode ser efetivo no suposto objetivo de restringir o acesso norte-americano às áreas antes controladas, conforme enfatizam as análises dos autores e de observadores de segurança norte-americanos,que em um cenário extremo poderiam  ocorrer conflitos limitados. No entanto, o resultado destes possíveis embates na região não conduziria, necessariamente, a uma hegemonia chinesa, e assim o prognóstico seria o de que esferas de influência chinesa e norte-americana desenvolver-se-iam ao longo dos países da região.

A grande estratégia de Xi Jinping

No âmbito da política externa, uma das principais iniciativas do governo chinês foi a “The Belt and Road”, considerada por Jinping uma peça fundamental para a sua política externa e para a nova estratégia econômica doméstica, que foi originalmente concebida como uma rede de projetos de infraestrutura para interligar diversas regiões da Ásia Central. Porém o plano lançado pela Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento indica uma ampliação do escopo inicial do projeto de forma a incluir aspetos como: coordenação de políticas no continente asiático, integração financeira, liberalização do comércio, fluxo livre de fatores econômicos, interligação de mercados e maior conexão entre os povos da região.

Freqüentemente mencionada como “The Belt and Road”, a nova iniciativa do governo chinês abrange duas principais frentes:

  1. Nova Rota da Seda (“cinturão” ou “belt”), uma rede de rotas terrestres, sobretudo rodovias e ferrovias, destinadas a interligar a China à Europa através do centro-oeste do continente asiático.
  2. Rota da Seda para o Século XXI (“rota” ou “road”) , o equivalente marítimo das obras de infraestrutura que ligam a Ásia à África.

De um ponto de vista estratégico, existem fatores de ordem geopolítica e econômica que impulsionam a China a desenvolver e implementar a mega iniciativa anteriormente mencionada, sendo que entre eles destacam-se os relacionados ao crescimento econômico doméstico, tais como: a transição de uma economia pungente para um “novo normal” baseado em um crescimento relativamente baixo (como foi o ano de 2014, em que o PIB chegou a 7,4%, valor abaixo das expectativas do Partido Comunista para o país); estimular um crescimento equitativo através da interligação econômica de áreas mais pobres do país àquelas já desenvolvidas do sul, ação esta que conduziria a uma maior competitividade dos produtos chineses;  e  utilizar-se das obras de infraestrutura para atribuir maior dinamismo ao setor de construção civil que havia desacelerado juntamente com o mercado interno.

Quanto aos fatores geopolíticos, os novos investimentos chineses em infraestrutura terão implicações em interesses nacionais, como na estratégia de hedging ou proteção para garantir ao país asiático as novas rotas de abastecimento, sobretudo energético e de recursos minerais em geral, e a distribuição, no sentido de garantir a manutenção do comércio, caso haja um conflito na região.

No âmbito da política externa, na iniciativa do “The Belt and Road” encontram-se as novas políticas de Xi Jinping e seu Partido, tais como a prioridade em melhorar a relação com os países vizinhos, de forma a aprofundar a cooperação regional, e a utilização da economia de forma “mais estratégica” como elemento importante da diplomacia chinesa.

Desde sua proposta, apresentada pelo Presidente Xi Jinping em 2013 durante visitas ao Cazaquistão e à Indonésia, a iniciativa alcançou resultados mistos: embora acordos para iniciar os projetos de infraestrutura tenham sido celebrados com países, como o Cazaquistão, Uzbequistão, Quirquistão e Sri Lanka, a preocupação dos países do entorno, como a Índia e potências que agem na região, sobretudo os Estados Unidos, estão relacionadas aos interesses chineses (geopolíticos, sobretudo, como a redução da influência norte-americana na região asiática, o acesso a recursos naturais e o aumento de seu papel no cenário internacional) implícitos em tal iniciativa.

A receptividade dos países asiáticos com relação ao projeto chinês foi marcada por desconfiança – que é o caso da Índia, sendo que ambos os países buscam ampliar a sua influência na região e competem por áreas de atuação em países como Mianmar, onde a Índia iniciou um projeto de interligação em Arakan que permitirá aos indianos utilizar a região que dá acesso à Baia de Bengala para atividades de comércio e ou transporte – e adesão pragmática, como são os casos do Sri Lanka e Indonésia, que necessitavam de financiamentos para estabelecer novos portos e infraestrutura relacionada à área de transportes e viram no projeto chinês a oportunidade de conseguir o investimento necessário para realizar as obras que desejavam.

Em 2014 o governo chinês firmou acordos com Cazaquistão, Uzbequistão, Quirquistão e Sri Lanka. O investimento de 1,4 bilhões de dólares neste último país, considerado o maior investimento estrangeiro registrado, destinou-se à construção de um porto na cidade de Colombo (integrando assim parte da Rota da Seda para o Século XXI) e o aprofundamento dos laços entre a China e o país do leste asiático passou a ser observado com preocupação pela Índia, que teria a sua influência reduzida no país vizinho, e pelo Japão, que ultimamente renovaram seu interesse pelo país.

No entanto, a iniciativa chinesa também passou a sofrer alguns empecilhos, com a crescente rejeição popular no Mianmar (antiga Birmânia), relacionada ao conflito entre os objetivos chineses, nomeadamente o acesso a novas fontes de recursos naturais e à Baia de Bengala, e a contestação de parcelas da população birmanesa que se demonstram contrárias ao investimento chinês na área da infraestrutura, sobretudo por conta dos laços deste país com os ex-governantes militares – explicitados através da celebração de acordos para a construção de hidroelétricas no país – e aos impactos sociais (principalmente o deslocamento de pessoas) e ambientais relacionados a obras de infraestrutura que ligariam os dois países asiáticos. Desta forma, o projeto de construção de uma ferrovia, que seguiria o caminho de um gasoduto existente até a capital da província chinesa de Yunan e que havia sido orçada em 20 bilhões de dólares, como parte do projeto marítimo da iniciativa “The Belt and Road”, foi cancelado.

Cabe ressaltar que além da rejeição apresentada por Mianmar, os projetos chineses também podem sofrer com os interesses e “visões” dos governos indiano e norte-americano para o continente asiático. De uma perspectiva indiana, desde o ano de 2014, o Primeiro Ministro indiano, Sr. Modi, tem voltado sua política externa para um maior engajamento com os países ao seu redor, como o Afeganistão, Bangladesh, Paquistão, Sri Lanka e Mianmar, e forjou relações mais estreitas com os Estados Unidos, tendo inclusive desenvolvido em conjunto uma Visão Estratégica para as regiões da Ásia-Pacífico e Oceano Índico, como o declarado intuito de apoiar projetos de investimentos conjuntos que tenham a capacidade de conferir crescimento econômico e estabilidade para as regiões como um todo.

Além da iniciativa conjunta com a Índia, a política dos Estados Unidos também compreende outra interpretação para a “Nova Rota da Seda”, sendo esta observada como uma forma de integrar o Afeganistão na região através de rotas de comércio e da reconstrução de infraestruturas inviabilizadas por anos de conflito. Assim, a proposta de um gasoduto que atravessaria o Afeganistão, Turcomenistão e Paquistão passou a ser a alternativa para trazer divisas aos países e permitir ao Turcomenistão (país dotado da segunda maior reserva de gás natural do mundo) ampliar seu comércio com a Índia e o Paquistão através do fornecimento de energia.

Embora a mega iniciativa chinesa “The Belt and Road” tenha até o presente momento alcançado resultados diversos e existam impedimentos a serem ultrapassados, como uma certa resistência dos países vizinhos com relação às motivações chinesas, e os interesses indianos e norte-americanos, sobretudo tendo em vista as possíveis alterações no equilíbrio de poder regional, a implementação devidamente feita dos projetos de infraestrurura (planejada pelo governo chinês visando o 13º Plano Quinquenal, em vigor de 2015 até 2020) pode auxiliar no crescimento econômico, desenvolvimento e integração regional.

A resposta para uma das questões centrais da geopolítica do inicio deste século, ou seja, se a ascensão da China é irrefreável, e conseqüentemente irá conduzi-la ao posto de superpotência do século, ainda permanece em aberto. A questão é que a China, impulsionada pelo seu capital humano, avanços tecnológicos e um capitalismo estatal que ao longo das últimas décadas vem mostrando-se eficiente, parece possuir as condições econômicas e militares necessárias para tornar-se a superpotência deste século, condições estas que são amplamente discutidas, principalmente ao observarmos os desafios que tal país enfrenta (como a desigualdade de desenvolvimento entre regiões, sustentar o rápido desenvolvimento econômico) e poderá enfrentar – tais como o descontentamento político e a escassez de recursos naturais – questão que o país tenta “resolver” investindo externamente em países africanos para garantir a aquisição de recursos como o cobre, que é destinado para instalar as redes elétricas das cidades chinesas, e internamente, através de projetos de infraestrutura, visa à integração física e econômica de regiões que estiveram à margem do rápido processo de desenvolvimento econômico e comercial observado nas últimas décadas.  De acordo com as discussões apresentadas para que ainda é cedo para afirmar de forma categórica se a atuação chinesa no sistema internacional é revisionista, ou seja, busca uma alteração substantiva na distribuição de poder no sistema internacional, ou “conciliadora/de acomodação” com a ainda questionável potência hegemônica, os Estados Unidos.

No entanto, de acordo com os aspectos que foram discutidos no primeiro artigo e ao longo deste, observa-se que um elemento que coloca a política externa de Xi Jinping em uma possição diferenciada daquela de seus antecessores é o uso que ele e aqueles que compõem  a máquina estatal chinesa fazem de diferentes instrumentos , como a aspectos de tecnologia militar e o desenvolvimento de uma robusta diplomacia de comércio, para desenolver uma política externa voltada à concretização de objetivos geopolíticos muito bem desenhados. Entre os referidos objetivos figura, por exemplo, a manutenção da ordem interna, o desenvolvimento de um crescimento econômico sustentável. Para além do potencial de conflito relacionado ao empoderamneto chinês na Ásia e os interesses norte-americanos na região, é possivel apenas apontar que os dirigentes chineses desenvolveram uma estratégia que possui ações como atuação junto aos países vizinhos, com foco na resolução de questões fronteiriças e a proteção da costa marítima – sendo emblemática a disputa pelas Ilhas de Senkaku/Diaoyu, uma região dotada de fontes energéticas (gás natural e petróleo) e estratégica para o embarque de mercadorias e pesca, reivindicadas pela China e Japão – , além dos laços fortes que a China estabeleceu com diversos países – como a celebração de parcerias estratégicas na região, com países como Rússia, Índia, Tailândia, Cazaquistão, França, Brasil e Irã – o país asiático buscou participar de forma ativa em organizações internacionais e blocos econômicos presentes no sistema internacional – como a Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) –, fato que acrescido da forte interdependência econômica dificultaria uma contenção ou isolamento da potência chinesa e asseguraria sua posição de relevância no cenário econômico.

Referências Bibliográficas 

BBIDDLE, Stephen; OELRICH, Ivan. Future warfare in western pacific: Chinese antiaccess/area denial, U.S. air sea battle, and command of the commons in East Asia. International Security, vol.41, n.1, 2016, pp.7-48.

BLACKWILL, Robert D,; CAMPBELL, Kurt M. Xi Jinping on the Global Stage. Council Special Report, n.74, Council of Foreign Affairs, 2016.

BROOKS, Stephen G; WOHLFORTH, Willian C. The rise and fall of the great powers in the twenty-first century. International security, vol40, n3, 2015.

FOOT, Rosemary. Estratégias chinesas em uma ordem global hegemônica: acomodação e hedging. In: HURRELL, Andrew et al. Os BRICS e a Ordem Mundial. Rio de janeiro: Editora FGV, 2009, pp. 125-151.

KEJIN, Zhao; XIN, Gao. Pursuing the Chinese Dream: Institutional Changes of Chinese Diplomacy under President Xi Jinping. China Quarterly of International Strategic Studies, Vol.1, nº 1, pp.35-57.

SINGH, Swaran. Is China driving PM Modi’s “good neighborly” foreign policy?. Asia Pacific Bulletin, June 2015.

XINHUA NEWS. Full Text: Action Plan on The Belt and Road Initiative. Disponível em: <http://news.xinhuanet.com/english/china/2015-03/28/c_134105858_2.htm&gt;. Acesso em: 10 out 2016

Imagem: O presidente chinês Xi Jinping em uma reunião comercial inserida no contexto da reunião do G20, realizada em setembro de 2016. Fonte: Ministério de Assuntos Exteriores da República Popular da China.

 

Publicado por:Flávia Abud Luz

Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado, atualmente é aluna do curso de Política e Relações Internacionais, Pós-Graduação lato sensu da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Possui interesse nas áreas de Segurança Internacional, Terrorismo e Conflitos Internacionais, especialmente temas relacionados ao Oriente Médio (sub-áreas Levante e Golfo Pérsico).