Desde o início da Crise Financeira Internacional de 2008 a União Europeia (UE) enfrenta uma série de problemas que culminaram na maior crise existencial do bloco.

Embora desde o início o projeto europeu enfrentou diversos desafios, devido as diferenças das economias que formam o bloco e as assimetrias existentes em cada sociedade, somente com o apogeu da crise as mazelas europeias ficaram expostas e as fissuras cada vez maiores.

O euroceticismo aumenta na Europa e os programas de integração sofrem com a falta de alinhamento entre os países membros afetando o desenvolvimento e colocando em perigo o futuro do bloco.

Os problemas que enfrentam a União Europeia se apresentam nas diferentes dimensões nas quais são necessárias promover a integração da região para uma real consolidação da bloco e recuperação do mesmo.

Economia: A Crise Financeira Internacional afetou praticamente a todos os países da União Europeia, mas principalmente as economias do Mediterrâneo (Grécia, Itália, Espanha e Portugal). Embora as políticas de austeridade e reformas econômicas aos poucos dão resultados o desemprego e a redução da produção continua nesses países.

A duração da chamada Crise do Mediterrâneo também afetou o equilíbrio econômico e fiscal da União promovendo novas regras de financiamento e incentivos que impactaram na produção Europeia e no papel da mesma perante a economia interna dos estados membros além da sua competitividade internacional.

Por último, a Europa teve que enfrentar as assimetrias do mercado interno que promoveu a concentração da produção em determinados pontos – onde a mão de obra é mais barata ou existe maior número de recursos – em detrimento dos outros, gerando desequilíbrios fiscais cada vez mais severos e ciclos migratórios internos.

Também é importante ressaltar o impacto da redução da demanda internacional e da movimentação do eixo econômico mundial para o Pacífico que mobilizou as negociações do TTIP (Tratado Transatlântico de Comercio e Investimento) mas que fracassou por falta de consenso dos países da união.

Social: Uma eclosão das tensões sociais e dos problemas de integração se alastrou pela Europa. As reformas e redução dos gastos públicos propostas pela União Europeia afetaram a qualidade de vida em diferentes países e mudaram as relações laborais, além da prestação de serviços públicos.

As questões de imigração tanto interna (entre países da União Europeia) quanto externa aumentaram durante a crise migratória do Mediterrâneo – com grandes ciclos de imigração gerados pela instabilidade do continente africano – que chegaram ao seu ápice com a Crise dos Refugiados.

Os problemas de integração foram evidenciados, tanto pelas políticas adotadas em relação aos novos imigrantes quanto ao impacto das mesmas nas comunidades já existentes. A questão do terrorismo reforçou os problemas de integração, principalmente da comunidade islâmica.

O desemprego gerou tensões sociais entre os nativos e os imigrantes devido a competição entre ambos grupos. Refletindo-se em um aumento dos partidos de ultradireita e xenofóbicos.

Por último as tensões nacionalistas ganharam folego em países que enfrentam problemas econômicos ou de governo como no caso da Catalunha.

Política:  O projeto de integração europeia contemplava a expansão gradual, porém organizada do bloco. Com o efeito da crise houve um aumento da assimetria entre as grandes economias da Europa Ocidental e os recém integrados países do leste além dos problemas dos países do Mediterrâneo.

Em uma tentativa de voltar ao equilíbrio necessário para o funcionamento do bloco, a orientação da Europa foi a de priorizar a economia da região, gerando uma onda de políticas de austeridade e redução além de diversas reformas que modificaram a qualidade e o estilo de vida dos cidadãos europeus. Essas mudanças rapidamente se refletiram no governo e na composição do mesmo.

O pacto social e a legitimidade de alguns estados enfrentaram importantes pontos de tensões havendo ainda desafios que não foram resolvidos.

A Grécia passou por duas eleições, Espanha caminha para a 3ª eleição em menos de um ano, Estônia já teve três eleições, Bélgica esteve 520 dias sem presidente, Áustria realizará novas eleições por suspeita de fraude, Portugal é liderado por uma aliança multipartidária, Itália é liderada por um magistrado que não passou pelas urnas… E muitos países entraram em período eleitoral havendo uma forte tendência ao crescimento de partidos eurocéticos e ultraconservadores.

A saída do Reino Unido – da mesma forma que sua adesão promoveu uma modificação nos requisitos de entrada “Europe a la carte” – sua saída promoveu uma reflexão dos países membros em relação aos seus interesses e projetos frente aos da União Europeia, o que está resultando em uma mudança de alinhamento entre os países e um aumento dos desequilíbrios que podem afetar a evolução dos projetos regionais.

Cultural: O projeto europeu contemplava a criação de uma identidade europeia formada pelas múltiplas dimensões que compõe a realidade da região. Sendo este um processo lento e continuo de adaptação e implementação.  Políticas como a livre circulação, a padronização de determinados tramites e programas de mobilidade cultural e acadêmica surgiram como ferramentas para promover essa integração no âmbito cultural.

Mas embora o projeto de integração pareceria funcionar, aos poucos importantes mazelas ficaram expostas além de setores que também compõe a sociedade europeia e que não foram contemplados começaram a demandar maior participação, pois não houve programas específicos para sua integração.

A crise financeira ressaltou as diferenças culturais devido ao aumento das migrações internas e o impacto dos fluxos externo que somados ao terrorismo serviram como desculpa para a suspensão temporária do Tratado de Schegen, a proliferação das políticas de deportação em massa e a construção de muros de contenção nas fronteiras.

A União Europeia é um mosaico de diferentes culturas, mas a relação entre elas e o engessamento das mesmas em um local fixo, dificulta a criação de uma identidade abrangente e gera importantes pontos atrito.

Por um lado, a União enfrenta o problema de promover uma maior interação e integração entre as culturas inerentes ao seu espaço geográfico; por outro deve também contemplar a existência de elementos importantes tais como a imigração e emigração, relações históricas dos países, multilinguismo, diversidade religiosa e os efeitos da globalização na cultura.

O aumento de leis conservadoras e das restrições indicam claramente a dificuldade da União Europeia de promover uma real integração e criar uma identidade europeia capaz de abranger os múltiplos fatores de reconhecimento social dos cidadãos que vivem no bloco.  Que um europeu possa ser “Um Europeu” como cidadão e ao mesmo tempo, moreno ou branco, de esquerda ou direita, cristão ou muçulmano, da Europa do Leste ou do Norte, etc.

Militar: Outro setor que sem dúvidas impacta no projeto de integração e que consequentemente sentiu o efeito da crise que enfrenta a União Europeia é o setor militar.

O projeto de criar um exército europeu existe desde os anos 2000, porém a Crise da Crimeia, a aproximação da instabilidade na Síria para as fronteiras da Turquia, a presença do Estado Islâmico no Norte da África e as tensões na OTAN – que propôs uma maior divisão dos gastos – colocou em evidência a hegemonia americana em relação a segurança da região e a falta de poder que possui o bloco como um todo, já que o mesmo acaba sendo representado por países pontuais e não pela totalidade da região, evidenciando assim seus pontos fracos antes mesmo de uma formação bélica conjunta.

A participação de países membros de forma isolada em conflitos internacionais enfraquece ainda mais o discurso de integração da região.

Embora exista um discurso de integração que fora consolidado pelos grandes líderes da Europa durante o Auge da União Europeia e ao longo de toda a história do bloco. O mesmo parece não resistir ao próprio peso do projeto de integração e a incapacidade de se reformular e se realinhar dos países europeus.

Aceitar o NOVO quando se tem orgulho de ser o VELHO continente parece gerar essa crise existencial na Europa, e muitos políticos e personalidades já falam do fim do sonho europeu. A última em alertar foi o ex-presidente da Comissão Europeia (2014) e ex-presidente por duas vezes do Conselho Europeu (1997 – 2005), Jean-Claude Juncker que avisou aos países membros que caso a Europa não volte atrás o projeto europeu já pode estar de caminho ao fim.

A Europa deve repensar e mudar seu discurso… analisar friamente a nova composição mundial e se realinhar com essa nova realidade ou se readequar a mesma. Caso contrário seguirá sendo um continente envelhecido, com diversos problemas culturais, intolerante, assimétrico economicamente, com elevado desemprego e endividamento público estratosférico… Ingredientes estes… que sempre de uma forma ou outra… explodem…

Bibliografia

Harmsen, Robert; Spiering, Menno (2005). Euroscepticism: Party Politics, National Identity and European Integration. Rodopi.

Florian Hartleb: A thorn in the side of European elites: The new Euroscepticism, Centre for European Studies, Brussels 2011

Habermas, Jürgen; ¡Ay, Europa!. Trotta, Madrid, 2009

Habermas, Jürgen; La constitución de Europa. Trotta, Madrid, 2012

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.