À margem ou no centro do debate, cultura e globalização constituem elementos fundamentais para a análise dos movimentos sociais. No entanto, no final do século XX a violência irrompe como objeto do ativismo global e o terrorismo emerge como principal mobilização coletiva contemporânea. Aferindo à comunicação protagonismo neste processo, visto que a pluralidade das demandas individuais e coletivas foi ampliada por meio das redes e novas mídias, viabilizando a organização de mobilizações populares ao redor do mundo e impulsionando movimentos sociais transnacionais.

Devido a complexidade e dimensão mundial do ativismo, os limites antes estabelecidos pelas três principais teorias críticas dos movimentos sociais: Teoria de Mobilização de Recursos, Teoria do Processo Político e a Teoria dos Novos Movimentos Sociais, na prática foram superados. A fim de possibilitar a compreensão dos processos de formação e o caráter simbólico dos movimentos, lançando luz sobre elementos anteriormente subestimados.

O volume e a velocidade de difusão das informações transmitidas através das redes, baseadas em mídias digitais, evidenciam a importância da comunicação em tempo real na mobilização social.

Em junho de 2013, no Brasil, a organização em rede entre movimentos sociais e sociedade civil fomentou manifestações populares contra o aumento das tarifas de transportes públicos, em diversos estados. Atos coordenados através da internet mobilizaram milhões de pessoas, que saíram as ruas do país em protesto. Explicitando a insatisfação coletiva com os governantes e contra a violência do Estado, imposta pela repressão policial que se seguiu as manifestações.

No mesmo ano, ao perceber que seu filho não tinha com quem jogar futebol, Federico Bastiani, morador da Rua Fondazza, em Bolognha, na Itália, utilizou a rede para promover a interação entre a vizinhança, dando origem a “Social Street”. A iniciativa, aparentemente simples, superou a resistência inicial, uniu os moradores, gerou serviços e atraiu visitantes para a região.

Em contraponto, a rede é amplamente utilizada por grupos terroristas, que demonstram pleno domínio sobre seus mecanismos, para promover a mobilização, divulgar material audiovisual ou mesmo reivindicar a autoria de ataques.

Embora inicialmente as redes de comunicação tenham sido estruturadas com ênfase na coletividade, estabelecendo a conexão global entre indivíduos e o compartilhamento de informações em tempo real, as novas tecnologias em mídias digitais tendem a cercear o acesso ao conteúdo e a atividade coletiva.

Ao codificar os interesses e hábitos de determinado indivíduo em um algoritmo – personalizado em potencial para o consumo – impõe-se uma delimitação aos dados e informações, restringindo e direcionando o conteúdo apreciado. A rede torna-se então uma bolha, na qual indivíduos são isolados em grupos, que lhes conferem superficialmente aspecto coletivo.

Do tripé das teorias clássicas dos movimentos sociais à realidade virtual das redes sociais, a comunicação tornou-se parte da ação efetiva dos movimentos, onde o indivíduo é simultaneamente autor, emissor e receptor da mensagem coletiva. Conferindo, portanto, sua relevância na análise crítica dos movimentos sociais contemporâneos.

Referências

ALONSO, Angela. A Teoria dos Movimentos Sociais: Um balanço do debate. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-64452009000100003&script=sci_abstract&tlng=pt

FONSECA, Francisco. Onda Conservadora – A mídia contra a democracia. http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1273

WALKER, Robert B.J. Social movements/world politics. Millennium: Journal of International Studies 23 (1994), pp. 699-700

Collective identity formation and the international state. American Political Science Review 88 (1994), pp. 384-396.

Social Street – http://www.socialstreet.it/international/portugues

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/13/politica/1434152520_547352.html

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/15/opinion/1421362752_961392.html

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Crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado/ Portal Brasil

Publicado por:Cissa Moreira