Em dezembro de 2010, um evento dramático foi noticiado ao redor do mundo: Mohamed Bouazizi – um jovem tunisiano de 26 anos – que trabalhava como vendedor de frutas ateou fogo ao próprio corpo em uma atitude desesperada contra a pobreza, o desemprego e a falta de liberdade que assolavam seu país. A população incomodada com as mesmas questões que o jovem iniciou, assim, uma série de manifestações com demandas de direitos políticos, como, por exemplo, o direito de escolher os destinos de seus governos, elegendo os representantes dos mesmos, e em busca de liberdades de expressão e revolta contra a corrupção.

Tais manifestações conseguiram derrubar o governo de Ben Ali, que tinha estendido seu mandato por mais de vinte anos na presidência através de argumentos relacionados à sua política de segurança (sobretudo a noção de estabilidade interna e externa, com sua atuação contra o extremismo). Inicialmente, um dos grandes desafios do governo de transição liderado pela coalizão Ennahda foi coordenar os interesses das diversas partes envolvidas nas manifestações, como os islamitas de vertente secular e os movimentos sindicais. O processo de transição logrou resultados positivos: um novo Parlamento e o Presidente foram legitimamente eleitos; uma Constituição mais democrática e liberal foi aprovada em 2014; a liberdade de expressão foi alcançada e a participação dos jovens foi consagrada como um pilar fundamental para os futuros desenvolvimentos políticos, sociais e econômicos do país mediterrâneo.

No entanto, no que diz respeito à juventude tunisiana, que por sua vez apresenta uma importante heterogeneidade, ainda restam barreiras para a concretização de suas demandas: embora os jovens tenham desenvolvido um importante papel de liderança ao longo da revolução e mudança de regime no país, não conseguiram manter uma posição compatível com sua importância no processo de tomada de decisão que se seguiu e o sentimento de exclusão política permaneceu, bem como os índices socioeconômicoos negativos, tal como o desemprego de jovens na faixa etária de 15-29 anos, que em 2013 estava em 33,2%.

De maneira geral, as manifestações da Primavera Árabe trouxeram esperanças aos jovens tunisianos, sobretudo no sentido de participar das alterações das já estabelecidas estruturas políticas e até mesmo de revoluções sociais, trazendo novas oportunidades de ação à juventude. O êxito inicial das manifestações de jasmim (flor símbolo da Tunísia), outra forma com que as manifestações na Tunísia passaram a ser referidas no mundo árabe, em derrubar o governo autoritário ao qual era submetida serviu de inspiração para a população egípcia, sobretudo jovem, reunir-se na conhecida praça Tahrir à favor de uma agenda inicialmente semelhante àquela do país mediterrâneo. Em novembro de 2011, diante das pressões das manifestações populares e de sua repercussão ao redor do mundo, sobretudo através da Internet e redes de relacionamento, o presidente egípcio Hosni Mubarak renunciou ao seu cargo, fato que encerrou um longo período de ditadura – iniciado ainda na década de 1950 através do governo nacionalista de Adbel Nasser e sucedido por Mubarak. No entanto, diferentemente do que ocorreu na Tunísia, os responsáveis pela transição egípcia foram predominantemente militares que, ao invés de cumprirem a função de auxiliar o processo de transmissão do poder ao convocar e garantir eleições legítimas, acabaram por instaurar no país um golpe ao retirarem do poder o presidente eleito Mohamed Morsi (da Irmandade Muçulmana) e empossar em seu lugar o general Al-Sisi, que aparentemente possui certo apoio popular.

O cenário político egípcio sofreu diversas mudanças desde a deposição de Mubarak, em 2011, sendo que entre elas se destacam: as diversas correntes islâmicas do país (seculares, moderados e radicais) que inicialmente venceram as eleições, como a Irmandade Muçulmana que obteve êxito ao eleger Morsi para a presidência, foram excluídas ou marginalizadas e enfraqueceram-se do ponto de vista do apoio público e financeiro enquanto figuras tidas como “nacionalistas” ou até mesmo ligadas ao regime de Mubarak   ressurgiram no campo político; o presidente Al-Sisi utilizou-se de um discurso visto como nacionalista – no sentido de “salvar a nação de um caos iminente”, representado pelo empoderamento de partidos islâmicos – para justificar medidas extremas e impopulares  tomadas em seu governo, tais como a pouca liberdade de expressão e associação ao longo do processo eleitoral; e a dificuldade de organização da oposição (sobretudo de pautas e interesses) formou um Parlamento pouco coeso, que não tem força suficiente para conter as manobras de Al-Sisi.  Os eventos da política doméstica colocam em xeque a possibilidade de uma transição egípcia para a democracia, um caminho oposto àquele que foi observado no caso da Tunísia.

Após a Primavera Árabe questionou-se onde estariam os jovens revolucionários que participaram das manifestações públicas – nos anos de 2010 e 2011 – que visavam, sobretudo, alterações políticas, econômicas e sociais, e que agora (após cinco anos) parecem se encontrar retirados e desapontados com os desenvolvimentos políticos em seus respectivos países. No entanto, como será exposto ao longo deste texto, o aparente desinteresse dos jovens tunisianos não significa que a juventude árabe se tornou apolítica ou deixou de se envolver em assuntos relacionados à política e a sociedade, visto que os jovens passaram a buscar outros lugares e formas de expressar seus questionamentos a respeito de aspectos considerados urgentes no processo de democratização política do país, a saber: a desigualdade social e política, a injustiça e o elevado desemprego. Entre as formas  encontradas por aqueles que desejam  manter a ação em busca das demandas proclamadas estão, atualmente, a atuação através de  movimentos sociais, organizações não-governamentais (ONGs), uso extensivo da Internet e redes sociais.

Cinco anos depois: desdobramentos das manifestações e desafios à juventude tunisiana

De acordo com o Relatório desenvolvido pelo World Bank e o Center for Mediterranean Integration (publicado em 2014), os jovens tunisianos estiveram no centro dos questionamentos contrários ao regime de Bem Ali e na busca de demandas de mudanças social e expressões de vontade de participar de forma ativa da esfera política pública, porém desde 2013 o referido grupo passou a apresentar certa insatisfação com os desdobramentos da transição política no país: além da contínua injustiça social, escassas oportunidades para o engajamento civil e político e o alto índice de desemprego, a percepção de uma divisão profunda entre as gerações passou a pauta quando figuras políticas da “antiga geração” passaram a dominar o processo de tomada de decisão do processo de transição e reforma política.

A juventude tunisiana, como mencionado anteriormente, não é um grupo homogêneo, sobretudo se analisarmos o nível de educação, emprego e diferenças entre a população rural e urbana, mas parecem enfrentar desafios semelhantes relacionados ao desemprego, desigualdade social, econômica e política. Em uma mesma moeda existe de um lado uma parcela de jovens entre 15 e 29 anos de idade, cerca de 33%, que não estão trabalhando, estudando ou recebendo algum tipo de treinamento, um índice que se agrava se observada na população jovem que reside em áreas rurais, onde o índice vai altera-se para 58% para os homens e 85% para as mulheres, e estes jovens (independentemente do gênero) que deixaram a escola cedo são mais afetados pelo desemprego e subemprego. Do outro, estão os jovens que concluíram o ensino superior, possuem habilidades técnicas e linguísticas, mas não conseguem encontrar um trabalho, um elemento que revela que o sistema educacional tunisiano desenvolveu mais profissionais qualificados do que o mercado de trabalho do país é capaz de absorver.

No início das manifestações de 2010 que deram início à transição política na Tunísia, o comportamento ativo dos jovens tunisianos esteve baseado em aspectos de descontentamento com relação ao desenvolvimento desigual entre regiões do país, o aumento do número de jovens desempregados, à corrupção estatal, à repressão política e a falta de liberdades civis (que incluía, por exemplo, formas de censura ao livre acesso à Internet). A atuação dos jovens deu-se de maneira “física” em manifestações realizadas em diversas cidades do país e através do denominado ativismo cibernético, que tinha como característica o uso de mídias sociais e fóruns na internet com o intuito de denunciar a repressão realizada pelo governo às manifestações populares que passaram a ter a adesão popular.

Desde a queda de Bem Ali, conforme argumenta Honwana (2011), as preocupações dos jovens, bem como da população que participou da condução das manifestações contra o governo, estiveram relacionadas à inclusão de membros do partido político majoritário no governo deposto, a preocupação acerca de uma baixa capacidade das comissões nacionais criadas para lidar com questões específicas, tais como as violações de direitos humanos atribuídas ao governo, o fato de que alguns dos membros da Assembleia Nacional Constituinte trocaram suas filiações partidárias depois de serem eleitos, e, sobretudo, como fio condutor figurou a baixa crença da juventude nas instituições nas instituições políticas de maneira geral.

Uma vez descontentes com a “política tradicional”, de maneira geral aquela conduzida por partidos políticos, os jovens tunisianos passaram a observar formas diferentes de atuação para manter o engajamento político e de alguma maneira influenciar e até mesmo monitorar processos decisórios de nível nacional e/ou local, tais como a participação na sociedade civil organizada e a manutenção do uso da Internet para expressão de posicionamentos políticos. Um exemplo interessante do envolvimento jovem no processo de redação da nova constituição do país pode ser observado na ação da “I Watch”, uma organização não-governamental liderada por jovens desenvolvida após as manifestações iniciais ainda em 2010, desenvolveu um espaço em que cerca de 200 jovens de diferentes partes do país propuseram sugestões para a nova legislação nacional, que posteriormente foram encaminhadas, analisadas e três delas implementadas pela recém-eleita Assembleia Constitucional (WORLD BANK; CENTER FOR MEDITERRANEAN INTEGRATION, 2014).

Ao mesmo tempo em que a juventude tunisiana desenvolveu formas “próprias ou alternativas” para expressar suas posições e programa político, a descrença nas instituições políticas e partidos (mesmo que após a queda do governo de Ali diversos partidos políticos emergiram), sobretudo pela associação feita pela juventude destes com aspectos negativos  como corrupção ou abuso de poder, pode ser percebida na baixa participação de pessoas com idade inferior a 30 anos nas eleições nacionais em 2011, que registrou cerca de 17% de eleitores votantes.

Embora a juventude tunisiana possua desafios a serem transpostos no contexto posterior à Primavera Árabe, tais como o descontentamento com relação a aspectos do processo de transição política e a dificuldade de efetivar seus posicionamentos em ações políticas concretas através de canais “convencionais”, é possível argumentar que os jovens que foram às ruas em 2010 e continuaram a se expressar das formas possíveis (ação junto á sociedade civil organizada, redes sociais, fóruns na Internet e encontros em locais públicos) deixaram para si mesmos e para o futuro político do país um legado importante: uma mudança de atitude traduzida no engajamento jovem, seja ele no meio cibernético (através de redes sociais e fóruns), manifestações ou debates em locais públicos, organizações não-governamentais e movimentos sociais. Neste contexto de transição política e aprendizagem do país mediterrâneo em desenvolver a manter uma democracia, o desenvolvimento de políticas de inclusão dos jovens é um aspecto importante, e inclusive já discutido na Tunísia, sobretudo desde a eleição de 2011 em que os partidos políticos que registraram-se tiveram que apresentar em suas listas candidatos jovens, mas mesmo com algumas modificações com o intuito integrar os jovens no processo decisório, os resultados da medida citada foram positivos aos jovens candidatos, visto que em 2014 dos 216 membros da Assembleia Constitucional apenas 4% tinham menos de trinta anos de idade.

No entanto,  cabe ressaltar que além dos desafios políticos, existem aqueles de ordem socioeconômica, tais como o elevado desemprego entre jovens qualificados e não qualificados (aqueles que não estudam ou possuem trabalho) e o fato de que uma parcela dos jovens depende de trabalhos informais para manter uma renda mínima. Ainda é cedo para determinar os caminhos que serão trilhados pela juventude tunisiana, mas a continuidade do processo transitório, bem como as políticas por este desenvolvidas, demonstrará se o governo e instituições serão capazes de integrar de maneira assertiva e positiva a juventude, de modo a aproveitar suas ideias e potencial.

Referências Bibliográficas

HONWANA, Alcinda. Youth and the Tunisian revolution. Conflict Prevention and Peace Forum policy paper, SSRC, 2011.

OTTAWAY, Marina. Learing Politics in Tunisia, Woodrow Wilson Center, Viewpoints, vol.26, 2013.

VASCONCELOS, Álvaro de. As vozes da diferença: a vaga democrática árabe. Lisboa: Editora Bizâncio e Instituto de Estudos de Segurança da Uião Europeia, 2012.

WORLD BANK; CENTER FOR MEDITERRANEAN INTEGRATION. Tunisia: Breaking the barriers to youth inclusion. World Bank, 2014.

Imagem: Grafite feito no muro quando das manifestações contra o governo de Ben Ali. Crédito: Arne Hoel / World Bank

Publicado por:Flávia Abud Luz

Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado, atualmente é aluna do curso de Política e Relações Internacionais, Pós-Graduação lato sensu da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Possui interesse nas áreas de Segurança Internacional, Terrorismo e Conflitos Internacionais, especialmente temas relacionados ao Oriente Médio (sub-áreas Levante e Golfo Pérsico).