Nacionalismo e a questão de Nigorno- Karabakh 

Para entender os atritos existentes entre Azerbaijão e Armênia é necessário explicar que sempre existiram minorias azeri na Armênia, e armênia no Azerbaijão durante o período soviético, sendo cada uma a maior minoria no país vizinho.

Além disso, o caso de Karabakh é bastante semelhante ao de Nakhchivan, mas com diferenças quanto ao modo como os soviéticos tentaram resolver a situação e consequentemente o que ocorreu após a queda da URSS.

Ambas foram colonizadas por camponeses armênios durante o período do Império Russo. Porém, enquanto em Nakhchivan os azeris sempre foram a grande maioria, em Karabakh, os armênios eram mais numerosos. Como consequência da maioria azeri em Nakhchivan, a região conseguiu se tornar um enclave autônomo do Azerbaijão, entre a Armênia e o Irã, após um referendo nos anos 20.

Independência, Soberania e Nacionalismo

No final dos anos 1980, conforme Mikhail Gorbatchev iniciou o processo de abertura política e econômica da União Soviética através da Perestroika e da Glasnost, para tentar tirar o país da grave situação de crise, em diversas de suas repúblicas houve o desencadeamento de movimentos nacionalistas que visavam se aproveitar do momento para conseguir independência da URSS e do Conselho Soviético.

Não foi diferente no caso das repúblicas caucasianas. Na Armênia, surgiu um movimento nacionalista alimentado pelo desagrado da população com a elite do partido comunista e pela situação na minoria que vivia no Azerbaijão, sobre tudo na região da Karabakh, que vinha perdendo espaço desde a entrada dos países no bloco soviético.

Os armênios temiam que ocorresse na região, o mesmo que aconteceu em Nakhichevan, onde a minoria de sua nacionalidade perdeu espaço devido a migrações azeris. Além disso, o Azerbaijão restringia o desenvolvimento da cultura e língua pelos armênios da região.

Desde os anos 1960 haviam atrito entre a minoria armênia e os azeris, mas somente a partir de 1988 que começou a haver ataques entre as duas populações. Os armênios começaram com demonstrações públicas de apoio a união da região com a Armênia, o que fez com que a população azeri da área fugisse para áreas aonde era maioria. Como represália, em Baku (capital do Azerbaijão), havia perseguição a essa minoria, eventualmente levando dezenas a morte com a criação de um movimento nacionalista azeri fortemente anti-armênio. Enquanto isso Moscou se mantinha sem tomar nenhuma atitude para resolver esse problema.

No final de 1988 foi criado o Comitê de Karabakh, uma coalizão anticomunista para a democracia e a soberania nacional, que logo após ser criada teve seus líderes presos pelas autoridades soviéticas. Isso prejudicou muito a popularidade dos governantes do Partido Comunista da Armênia, com a população boicotando em massa as eleições legislativas de 1989 e protestando em favor da soltura dos membros do Comitê. Na eleição seguinte, a maioria dos eleitos para o Soviete Supremo da Armênia foi de pessoas ligadas à causa de Karabakh. Gorbachev então propôs aumentar a autonomia da região, algo que desagradou a ambos os lados e como consequência se deu o início do conflito entre Armênia e Azerbaijão.

No Azerbaijão, no mesmo ano a Frente Popular Azeri, de caráter nacionalista, promoveu diversos protestos contra o Partido Comunista do Azerbaijão, o que levou este a declarar a soberania do país sobre suas terras, águas e recursos naturais (a primeira entre todos os membros da URSS) e seu direito de se separar da União Soviética através de um referendo. O corpo legislativo da URSS declarou a resolução do Azerbaijão inválida. Como consequência, nacionalistas se revoltaram e destruíram todos os postos de alfândega na região da fronteira entre o país e o Irã (que possui grande população de azeris).

Com o aumento das demonstrações nacionalistas, a perseguição aos armênios aumentos, e o governo azeri começou a impedir a entrada de bens e combustível na região de Karabakh. Como resposta, a população armênia decidisse por eleger um Conselho Nacional, que declarou a secessão do Azerbaijão e a anexação á Armênia.

Isso fez com que a perseguição e o estrangulamento econômico por parte dos azeris aumentassem a ponto de, em janeiro de 1990, Moscou enviar forças armadas para reprimir as violentas revoltas nacionalistas que estavam ocorrendo por todo Azerbaijão.

Os levantes nacionalistas dos dois lados da fronteira causaram a fuga de quase toda a minoria azeri da Armênia, e também de mais de 75% dos armênios do Azerbaijão, incluindo os de Karabakh, de modo que dos quase 400 mil armênios que viviam no país até os anos 70, sobram em torno de 120 mil (Censo de 1999), quase todos na região em disputa (Minority Rights).

Ambos os países declararam sua independência da União Soviética em 1991, enquanto o conflito armado em Karabakh iniciava. A Armênia negou que estava apoiando as forças de defesa da região que estavam expulsando o exército azeri. Esses por sua vez acusavam o país vizinho um Estado agressor cuja política nacional envolvia a anexação de parte de seu território.

Como medida para sufocar as forças armênias, o Azerbaijão cortou as linhas de suprimentos para o país que passavam por seu território, diminuindo em 90% a entrada de gás e combustíveis líquidos para o país, o que devastou a economia da Armênia. Por outro lado, a partir de 1992 as forças militares dos armênios em Karabakh se aproveitaram das disputas por poder político entre os nacionalistas e os comunistas azeris, para expandir o seu controle pela região sudoeste do país.

Durante o período inicial pós-comunista, diversas tentativas de terminar o conflito foram feitas, mediadas por países como Rússia, Irã, Turquia e também Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), porém curtos cessar-fogos foi o máximo que se conseguiu.

Em 1993 as forças armênias conseguiram capturar regiões que se encontram fora do enclave, o que fez com que outros países voltassem sua atenção para o conflito.  Em Maio de 1994, com a Rússia agindo como mediadora, os lados concordaram em parar os ataques e um cessar fogo foi assinado pelos três lados: Armênia, Azerbaijão e a República do Nagorno-Karabakh.

Referências Bibliográficas

CURTIS, Glenn E. Armenia, Azerbaijan and Georgia country studies – Library of Congress. Federal Research Division, 1995, Whasington, DC, EUA.

TOURNAN, Fernando Garcés De Los Fayos. Minorities in the South Caucasus: New visibility amid old frustrations. Policy Department, Directorate General for External Policies,  EUROPARL. 27 Junho 2014, Belgium. Disponível em: http://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/briefing_note/join/2014/522341/EXPO-AFET_SP(2014)522341_EN.pdf

http://minorityrights.org/

Publicado por:Lourenço Weber

Formado em Ciências Sociais, com especialização em Política e Relações Internacionais, escrevo sobre temas como política externa, segurança e defesa, diplomacia, economia e geopolítica.