História da Armênia

O mito de criação do povo armênio conta que o grande rei e herói ancestral Hayk (ou Haik), junto com toda sua tribo (Hayasa), deixa a Babilônia após se revoltarem contra o rei Bel e fogem em direção ao norte. Bel e seu exército o seguem e eles entram uma batalha onde Hayk consegue matar o tirano com uma de suas flechas. Dessa maneira eles (o povo Haigagán, os armênio chama a si mesmos de Hai) conseguem sua liberdade e se estabelecem aos pés do Monte Ararat.

O primeiro grande Estado na região que hoje se encontra a Armênia surgiu no século XIII antes de Cristo e foi conhecido como reino de Urartu, um poderoso Estado que rivalizava com os Assírios. Foi após sua queda para os Assírios, no século VI, que a população de origem indo-européia (Hayk) migrou para a região e se misturou com as tribos ali existentes para formar o que viriam a ser os armênios.

O início da civilização Armênia propriamente dita, se deu no século VI antes de cristo, momento em que o primeiro Estado Armênio (Haiasdán ou Haiastão), na região do Cáucaso.  Devido a sua localização entre o Oriente e o Ocidente e sua proximidade com diversos impérios, o povo armênio possui uma cultura que mistura a estrutura política e social persa, com tradições literárias e culturas helênicas e cristãs.

Durante toda a Antiguidade, os armênios e sua região fizeram parte de diversos diferentes impérios. O primeiro foi o Persa, que controlou a região até que no século IV as tropas de Alexandre, o Grande invade e domina a região durante sua conquista em direção ao Oriente.

Com o fim do curto império de Alexandre, quem toma conta da região são os Selêucidas, remanescentes do controle grego (alexandrino) sobre a área. Finalmente, no início do século II (190 a.C.) surge o primeiro reino armênio unificado pelo rei Artachés (Artaxia) I, e teve seu auge durante o reinado de Tigran (ou Dikran) II, o Grande. Seu território se extendia do Mediterrâneo (Síria atual) até o Mar Negro (atual Geórgia) e o Mar Cáspio (atual Azerbaijão).

Durante o reinado de Tigran e seu filho (Artavazd II) o reino se tornou um centro de difusão da cultura helênica (Grega) no Oriente Médio, se voltando definitivamente para o Ocidente, e se tornando por um breve período o mais poderoso reino a leste do Império Romano.

No ano 30 a.C., o Império Armênio é conquistado por Roma e pelos próximos 200 anos se transforma em um peão dos romanos em suas campanhas contra seus inimigos na região os Pártas (Persas), porém estando a partir de 63 d.C  sob influência destes através da dinastia Arsacid, de origem parta, que toma o reino após vitórias em cima dos romanos. Ou seja, o Estado fazia parte do Império Romano, mas o rei era parta (CURTIS, 1995).

Em 387, a Armênia finalmente é dividida entre os romanos e os persas, dividindo o reino em Ocidental e Oriental, realidade que perdurou por muitos séculos. Foi pouco antes dessa divisão, em 306, que o rei Tiriades III definiu que o Cristianismo seria a religião oficial do Estado, fazendo com que a Armênia seja o primeiro Estado cristão da história. Foi nessa época que se desenvolveu o alfabeto armênio, para ajudar na cristianização de todo a população.

A parte Ocidental ficou sob controle do Império Bizantino, enquanto a parte Oriental, sob controle dos Persas. Durante o século V, houve uma revolta armênia contra os persas que pressionavam a população cristã a adotar o zoroastrismo, e que resultou em um ganho de autonomia e tolerância religiosa para a população local.

Com a invasão e conquista dos árabes na região, houve a unificação da armênia em torno de um Emirado da Armênia, um principado autônomo do Império Árabe. Foi nessa época que houve a primeira diáspora armênia, com grandes deslocamentos populacionais de armênios para outros países cristão da área como Geórgia e o Império Bizantino.

Com o enfraquecimento do controle árabe, no final do século IX o rei Achot I declara a independência da Grande Armênia (unificação da Armênia Ocidental com a Oriental), e por 160 anos ocorre um período de florescimento artístico e cultural.

Durante o século XI, invasões dos Bizantinos pelo Oeste e dos Turcos Seljúcidas, Mongóis s outras tribos das estepes pelo Leste acabaram por derrubar o Reino da Armênia. Em seu lugar surge o Reino Armênio de Cilícia (ou Armênia Menor) na região nordeste da costa do Meditarrâneo (atual Anatólia, sul da Turquia), resultado do êxodo dos armênios após a invasão Seljúcida.

Esse reino independente durou por cerca de 300 anos, até o fim do século XIV. Foi um importante aliado dos reinos cristão criados em decorrência das Cruzadas dos reis europeus, na luta contra a constante ameaça dos muçulmanos aos cristãos da área. O reino caiu devido aos ataques do Sultanato Mameluco do Egito, e esse foi o fim do estado armênio no ocidente. Com a queda do reino houve uma nova diáspora armênia em direção a Europa, com migração para lugares como Marselha, Veneza, Chipre, Holanda, e até mesmo Cairo (CURTIS, 1995).

Com a ascensão dos Turcos Otomanos ao poder no Oriente Médio, a atual região da Armênia, no Cáucaso, foi dividida entre os turco-otomanos e os persas até o século XVIII, quando o Império Russo começa a se expandir nessa direção, enquanto os armênios que ficaram na região da Anatólia estavam somente sob domínio turco, o que gerou graves consequências.

Com as áreas de Karabagh, Yerevan e Nakhitchevan anexadas pelos russos após o tratado de Turkmanchay (1828), milhares de armênios viraram parte do Império.  Isso trouxe para a região, juntamente com o controle czarista, um grande impulso de desenvolvimento econômico, social e de infra-estrutura com a construção de estradas-de-ferro interligando cidades e vilas e propiciando um grande crescimento urbano.

Na mesma época, no Império Otomano, os armênios (ocidentais) conseguiram uma constituição especial, porém facções reacionárias tomaram o poder dentro do império e a tolerância ás minorias começou a diminuir.

Durante os 1870, começou a surgir um movimento de libertação contra os otomanos na região dos Balcãs, apoiado pelos russos (ideal de pan-eslavismo). O resultado disso foi a Guerra Russo-turca de 1877-1878 que opôs o Império Turco-Otomano de um lado e uma coalizão do Império Russo, Bulgária, Romênia, Sérvia e Montenegro, que teve fronts ocidentais nos Bálcãs e orientais no Cáucaso.

O resultado dessa guerra foi à independência dos principados na região balcânica e a anexação de uma vasta região do que outrora fora parte da Armênia ao Império Russo. O Tratado de São Stefano exigia que o Sultão garantisse à segurança física e os direitos das minorias armênias, internacionalizando a questão, levando a para o Congresso de Berlim, onde foi deixada em segundo plano.

Outra consequência da guerra foi à migração em massa de muçulmanos dos Bálcãs para a Anatólia, o que acabou por transformar os armênios em uma minoria perigosamente em risco na região.

Esses resultados impulsionaram o ideal nacionalista nos armênios da Anatólia que ainda faziam parte o Império Otomano, surgiram os primeiros partidos políticos armênios. Como consequência dessa luta por maiores direitos, o Sultão Abdul Hamid II ordenou a perseguição e deportação da minoria armênia, além da ocorrência do massacre dos politicamente ativos, o que garantiu ao sultão a alcunha de o Sultão Vermelho. Entre 80 e 300 mil armênios foram mortos entre 1894 e 1896.

Enquanto isso na Rússia, o nacionalismo armênio foi ganhando força, o que levou também levou a perseguição, com o fechamento de escolas e igrejas armênias, e alguns massacres em vilas e cidades no ano de 1905. Até 1912 diversos líderes armênios foram presos e condenados pela prática de atividades clandestinas (CURTIS, 1995).

A população armênia que continuou no Império Otomano apoiou a revolução organizada pelo partido do Comitê para a União e Progresso (também conhecidos como Jovens Turcos) que prometia um tratamento igualitário as minorias étnicas.  Porém ao chegarem ao poder. Porém, ao ser eleito, o partido começou a planejar a eliminação dos armênios, que assim como outras minorias, eram um impedimento a sua ideologia de nacionalismo islâmico.

Com o início da primeira guerra mundial e os exércitos britânico e russo marchando contra os otomanos, o governo começou a perseguir as minorias com o argumento de que eles poderiam se rebelar. O resultado disso foi os genocídios armênio, grego e assírio (todos cristãos), que exterminou entre 600 mil e dois milhões de armênios, mais de 300 mil gregos e entre 500 e 750 mil assírios (70% da população assíria total). Portanto quase três milhões de cristãos foram mortos. Durante esse período houve uma nova diáspora, conhecida como a “Grande Diáspora”, quando os armênios vieram para a Europa, mas também para a América do Norte e do Sul (existem em torno de 40 mil descendentes de armênios no Brasil), porém a grande maioria foi para a região do Cáucaso.

Como resultado da queda do Império Russo devido a Revolução Bolchevique, em 1917, após a retirada das tropas russas, tentou-se criar um Triunvirato da Transcaucásia ou “Seim” (união com a Geórgia e o Azerbaijão). Porém, com o vácuo de poder militar na área, o exército turco decidiu invadir a região e a orientação pró-turca do Azerbaijão fez com que a união se desmantela-se.

Em julho de 1918, após a vitória armênia em três batalhas, é assinado um tratado de paz com os turcos que reconhecem sua soberania, surgindo assim à República da Armênia. Ela durou até 1920, com a assinatura todo Tratado de Sévres a Turquia ficava com a parte da Armênia Ocidental na Anatólia, porém reconhecia a independência do Estado Armênio Oriental no Cáucaso. Em novembro de 1920, ao se ver entre o avanço do exército turcos  e também Exército Vermelho em sua direção, o governo da República da Armênia decide assinar um tratado de coalizão com os comunistas (CURTIS, 1995).

 

Referência Bibliográfica:

 

CURTIS, Glenn E. (Glenn Eldon) – Library of Congress. Federal Research Division, 1995, Whasington, DC, EUA.

http://www.armenia.com.br/hayk.htm

Publicado por:Lourenço Weber

Formado em Ciências Sociais, com especialização em Política e Relações Internacionais, escrevo sobre temas como política externa, segurança e defesa, diplomacia, economia e geopolítica.