Desde os atentados das torres gêmeas em 2001, o terrorismo é um tema que está sempre presente no cotidiano das notícias internacionais. Mesmo sendo este termo, “terrorismo”, e sua definição alvo de debate constante, podemos classificar como terrorismo atentados com fins políticos que ocorrem visando a morte de civis.

Sob esse ponto de vista, podemos perceber que no caso do território dos Estados Unidos, seu maior problema não são atentados terroristas causados por imigrantes muçulmanos, pois o ataque ao World Trade Center foi o único bem sucedido até agora, sendo 15 dos 19 participantes sauditas. Os atentados nos EUA, sejam eles com explosivos, ou com armas de fogo, quase sempre são resultado da ação de cidadãos norte-americanos, em sua maioria brancos.

Porém, o terrorismo de cunho religioso, que costumamos associar com os homens-bomba muçulmanos, foi e continua sendo (hoje indiretamente) algo bancado pelos EUA, através de sua relação muito próxima com a Arábia Saudita.

Para explicar como isso funciona, precisamos entender como se deu a chegada da família Saud ao poder. No século XVIII, um ambicioso líder tribal beduíno de nome Muhammad bin Saud se aliou, através do acordo de Diriyah, com um clérigo reformista de nome Muhammad ibn ʿAbd al-Wahhab (que pretendia purificar o islamismo, restaurando-o ás suas origens maometanas), com o objetivo de ganhar o controle da região da arábia.

As lutas tribais por poder e controle na região da arábia ocorreram durante todo o século XIX até no início do século XX quando, após diversas vitórias militares, Abdelazize Ibn Saud torna-se Rei do que viria a ser o Reino da Arábia Saudita, e ao assinar o Tratado de Gidá com os britânicos, tem reconhecida a independência do novo país.

Com isso, a doutrina islâmica wahhabbita foi institucionalizada como a doutrina oficial do país e começou a ser propagada pelos países vizinhos. O wahhabismo é uma doutrina baseada em escritos estudiosos medievais do islamismo, ela proíbe qualquer tipo de comemoração, mesmo as religiosas, a idolatria a ídolos, promovem a total submissão da mulher aos homens, e a perseguição de qualquer um considerado herege, não só membros de outras religiões, mas também pessoas de outras vertentes do islamismo.

Nos anos 1950, os EUA estabelecem acordos militares com a Arábia Saudita para poder instalar bases militares no país para lutar contra o avanço comunista. A partir daí o relacionamento entre os dois países começou a se estreitar cada vez mais.

Com a explosão da riqueza nos países exportadores de petróleo nos anos 1970, muitos recursos foram destinados ao financiamento de universidades e escolas islâmicas, mesquitas, e bolsas escolares para jornalistas, acadêmicos e estudiosos do Islã que quisessem ir estudar no país, colocando o wahhabismo em posição de destaque. Com isso, houve uma explosão de popularidade e  essa seita sunita começou a se espalhar pelo mundo islâmico.

Com a invasão da União Soviética ao Afeganistão em 1979, os EUA, utilizou-se de sua influência com a Arábia Saudita para armar os rebeldes Mujahideen e treinar-los. Foi também declarada “fatwa”, ou seja, uma jihad defensiva, contra os soviéticos. Com isso, em 10 anos mais de 35 mil voluntários muçulmanos, em sua maioria saudita (em torno de 25 mil), se dirigiu ao combate no Afeganistão. Entre eles estava Osama bin Laden, membro de uma milionária família saudita.

Dessa maneira, os Estados Unidos ajudou a criar o monstro que em alguns anos se voltaria contra ele e todo o Ocidente. Com o passar do tempo, o wahhabismo foi se tornando mais extremo e acabou gerando outra doutrina conhecida como tafkirismo, cujos membros  consideram infiel qualquer muçulmano que faça algo que contradiga a soberania do Rei (saudita).

A expansão dessa seita dentre os sunitas foi o grande incentivo ao início do surgimento de grupos terroristas, sendo a Al-Qaeda de bin Laden o melhor exemplo, pois ele prega a ideia de martírio em nome da jihad.

As mesmas táticas usadas no Afeganistão começaram a ser exportadas por meio de células terroristas por todo o mundo. O maior resultado dessa expansão foi o ataque ao WTC em setembro de 2001. Como reação os EUA decidem invadir o Afeganistão, junto com as forças da OTAN, e pouco depois invadir novamente o Iraque.

O resultado da invasão ao Afeganistão foi a tirada do poder e enfraquecimento do Taliban, que governou o país entre 1996 e 2001 e é considerado oficialmente como uma organização terrorista pela Rússia, Estados Unidos e União Européia. Com a saída das forças da OTAN em 2014, a guerra do Afeganistão se transformou em uma guerra civil entre a Aliança do Norte, que era apoiada pelos ocidentais, e os insurgentes liderados pelo Taliban, que perdura até hoje.

No Iraque as forças norte-americanas conseguem facilmente acabar com as forças de Saddam Hussein, porém não conseguem eliminar os insurgentes e rebeldes que eram contrários a invasão dos ocidentais, o que causa grandes problemas de opinião pública entre os americanos. Como solução, os EUA decidem ceder equipamentos e armamentos para as forças iraquianas, e retirar o seu exército.

Mas essa decisão se provou extremamente equivocada, pois os antigos militares sunitas, leais ao antigo regime de Saddam Hussein haviam se agrupado e organizado em milíciais, que utilizando-se das mesmas táticas e ideologia usada pelos wahabitas para a tomar o poder na região da arábia, conseguiram tomar os armamentos das forças de defesas iraquianas.

Isso tudo culminou no surgimento do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, ou Da’ish em árabe (ISIS em inglês), organização jihadista islâmica de orientação wahabita, que declarou a fundação de um califado na região da Síria/Iraque.

Portanto, os Estados Unidos, através de sua parceria de décadas, política, econômica e militar, com Árabia Saudita, cuja vertente oficial do islamismo que seguem é o wahhabismo, seita fundamentalista que tem como seus seguidores grupos terroristas como Boko Haram, o Estado Islâmico, Al Qaeda, Al Shabab e Taleban, além de outros, acabou financiando a criação de seus próprios inimigos.

Além disso, suas últimas investidas militares em países de religião muçulmana trouxeram muito mais problemas do que solucionaram, sendo que a desastrosa campanha no Iraque gerou uma instabilidade que tem o potencial de se espalhar por toda a região do Oriente Médio, e chegar a Europa, tranformando-se em uma guerra generalizada.

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What is behind terrorism

Since the attacks of the twin towers in 2001, terrorism is an issue that is always present in the daily international news. Even though this term, “terrorism” and its definition  is suitable for debate, we can classify terrorism attacks targeting civilian casualties for political gains.

From this point of view, we can see that in the case of the territory of the United States, their biggest problem are not terrorist attacks caused by Muslim immigrants, for the attack on the World Trade Center was the only successful so far, with 15 of the 19 participating  Saudis citizens. The attacks in the United States, either with explosives or firearms, are almost always the result of the action of US citizens, mostly white extremist/supremacists.

But the terrorism of religious nature, which we usually associate with Muslims suicide bombers, was and is indirectly funded by the United States, through its close relationship with Saudi Arabia.

To explain how this works, we need to understand how was the arrival of the Saud family into power. In the eighteenth century, an ambitious Bedouin tribal leader name d Muhammad bin Saud has teamed, through Diriyah agreement, with a reformist cleric name Muhammad ibn’Abd al-Wahhab (who wished to purify Islam, restoring the ace your Mohammedan sources) in order to gain control of the region Arabia.

A tribal struggle for power and control in the Arabia region occurred throughout the nineteenth century until the early twentieth century when, after several military victories, Abdelazize Ibn Saud becomes king of what was to become the Kingdom of Saudi Arabia, and signing the Treaty of Jeddah with the British, has recognized the independence of the new country.

Thus, the wahhabbi Islamic doctrine was institutionalized as the official doctrine of the country and began to be propagated to the neighboring countries. Wahhabism is a doctrine based on the written of medieval Islam scholars, it prohibits any kind of celebration, even religious, idolatry of idols, promote the total submission of women to men, and the persecution of anyone considered a heretic, not only members other religions, but also people from other strands of Islam.

In the 1950s, the US established military agreements with Saudi Arabia in order to install military bases in the country to fight the communist advance. From there the relationship between the two countries began to get even closer.

With the explosion of wealth in oil-exporting countries in the 1970s, many funds were used to finance universities and Islamic schools, mosques and scholarships for journalists, academics and scholars of Islam that wished to study in the country, putting wahhabism in prominent position. Thus, there was a burst of popularity and this Sunni sect began to spread across the Islamic world.

With the invasion of the Soviet Union on Afghanistan in 1979, the United States used its influence with Saudi Arabia to arm the Mujahideen rebels and train them. It was also declared a “fatwa”, a defensive jihad against the Soviets. With that, in 10 years more than 35,000 Muslim volunteers, mostly Saudi (around 25,000), went to fight in Afghanistan. Among them was Osama bin Laden, a member of a millionaire Saudi family.

In that way the United States helped create the monster that in a few years would turn against him and the West. Over time, wahhabism was becoming more extreme and has generated another doctrine known as tafkirism whose members consider unfaithful any Muslim to do something that contradicts the sovereignty of the King (Saudi).

The expansion of this sect among Sunnis was the great incentive to the early emergence of terrorist groups, bin Laden’s al-Qaeda being the best example, because he preaches the idea of ​​martyrdom in the name of jihad.

The same tactics used by insurgents in Afghanistan began to be exported by terrorists cells throughout the world. The biggest result of this expansion was the attack on the WTC in September 2001. The US reaction was to invade Afghanistan, along with NATO forces, and soon after invade Iraq again.

The result of the invasion of Afghanistan was taken from power and weakening of the Taliban, which ruled the country between 1996 and 2001 and is officially considered a terrorist organization by Russia, the United States and the European Union. With the departure of NATO forces in 2014, the war in Afghanistan has turned into a civil war between the Northern Alliance, which was supported by the West, and the insurgents led by the Taliban, which continues today.

In Iraq the US forces easily wiped out the forces of Saddam Hussein, but could not eliminate the insurgents and rebels who were against the invasion, which caused major problems of public opinion among Americans. As a solution, the United States decided to give equipment and weapons to Iraqi forces and withdraw its army.

But this decision proved extremely misguided because the Sunni soldiers loyal to the former regime of Saddam Hussein had formed and organized in militias, that use the same tactics and ideology used by wahhabis to take power on the region of the Arabian peninsula, managed to take the weapons of the Iraqi defense forces.

All of that culminated in the emergence of the Islamic State of Iraq and the Levant, or Da’ish in Arabic (ISIS in English), Islamic jihadist organization of wahhabi orientation, which declared the establishment of a caliphate in the Syria/Iraq region.

Therefore, the United States, through its decades long political, economic and military partnership with Saudi Arabia, whose official branch of Islam is wahhabism, the fundamentalist sect whose of terrorist groups such as Boko Haram, the Islamic State , Al Qaeda, Taliban and Al Shabab, and others, ended up financing the creation of their own enemies.

Moreover, his last military assaults on Muslim countries brought more problems than it solved, and the disastrous campaign in Iraq has generated an instability that has the potential to spread throughout the Middle East region, and reach Europe, and transform itself in a generalized war.

Referências/ References

http://internacional.estadao.com.br/blogs/gustavo-chacra/por-que-a-arabia-saudita-esta-ligada-ao-crescimento-do-terrorismo-jihadista/

http://www.brasilpost.com.br/alastair-crooke/voce-nao-entendera-o-isis-se-nao-conhecer-a-historia-do-wahabismo-na-arabia-saudita_b_5793288.html

https://islamidades.wordpress.com/2014/07/29/a-ansia-destrutiva-do-wahabismo/

Publicado por:Lourenço Weber

Formado em Ciências Sociais, com especialização em Política e Relações Internacionais, escrevo sobre temas como política externa, segurança e defesa, diplomacia, economia e geopolítica.