Após os atentados no dia 13 de novembro de 2015 em Paris, houve uma crescente exposição do mundo e das tradições islâmicas, muitas vezes ligada de forma inescrupulosa ao fundamentalismo e ao terrorismo, tendo como resultado o aumento da tensão social em países que possui comunidades muçulmanas e o aumento da violência e agressões de cunho racista e xenofóbico em todo o mundo.

Muitos países até mesmo aprovaram leis com o objetivo de limitar a expressão da fé islâmica e suas tradições culturais, proibindo o uso das vestimentas femininas tradicionais tais como o Hijab (véu), o Xador (véu longo) e a Burca (véu composto). Ou as manifestações religiosas em locais públicos e a construção de novas mesquitas.

Gerar um paralelismo entre uma cultura ou religião com o fundamentalismo e o terrorismo, é promover de forma irresponsável um maior atrito e aumento das tensões sociais e limitar consequentemente o diálogo intercultural e inter-religioso tão necessário no atual mundo globalizado e na busca incessante pela paz.
Outro erro bastante comum é homogeneizar a situação do mundo islâmico, pois o mesmo está bem longe de ser uma realidade compacta.

A cultura e a religião no mundo muçulmano não sofreram uma secularização como ocorrido no mundo ocidental sendo difícil dissociar ambos termos. Porém acreditar em uma comunidade islâmica homogenia é ignorar a própria evolução da mesma e os diversos fatores que influenciaram em sua expansão, consolidação e até mesmo transformação. Sendo difícil comparar países de origem muçulmana como a Turquia – Considerado um estado laico altamente influenciado pela Europa – com países cuja aplicação da Sharia (lei islâmica) é bastante severa como no caso da Arábia Saudita ou Afeganistão.

Outro fator importante e que deve ser reiterado é que o islamismo possui diversas cisões e divisões que vão além do Sunismo e do Xiismo. Existem outras vertentes tais como o Ibadismo (Omã), o Sufismo (presente em quase todos os países islâmicos), os Ismaelitas (presentes na Índia), e outras diversas escolas de pensamento religioso que existentes desde o século VII D.C.

Embora a religião seja a mesma a interpretação e aplicação varia conforme os fatores que constitui a realidade política e social desses países.

Da mesma forma que acontece com os países de origem cristã, a religião atou como um dos fatores de formação da sociedade e do Estado, porém não foi o único fator nem o único alicerce no qual se fundamentou os países islâmicos. Dessa forma países periféricos e na área de Influência da União Europeia possui diferencias visíveis frente a outros países muçulmanos localizados em outras regiões tais como os localizados na Ásia ou as nações anteriormente ligadas a antiga URSS.

Assim, mesmo a aplicação da Lei islâmica (Sharia) varia em cada uma das nações, havendo países que aplicam a mesma de forma severa, outros de forma complementar a um processo legislativo democrático, alguns países utilizam a mesma de forma consultiva e por último algumas nações não aplicam a Sharia e a substituíram por um sistema de leis seculares.

O islã não promove a violência, ou melhor, não promove mais a violência do que as outras religiões e a utilização seletiva de trechos do Alcorão podem gerar uma má interpretação da religião, sendo possível realizar o mesmo com trechos do Velho Testamento Judaico-Cristão, e com outros textos de outras religiões do mundo que sempre tratam de se posicionar como religião única e universal.

Os preceitos universais do Alcorão são:

• A crença em um único Deus;

• A crença no criacionismo e nos seres celestiais (anjos)

• A crença nos livros sagrados (entre eles o Torá, os Salmos e o Evangelho)

• A crença nos profetas enviados para a humanidade (Abrão, Moisés, Jesus) sendo Maomé o último

• A crença no Julgamento final

• A crença em um Deus único, omnipotente e omnipresente

E para fundamentar sua fé o mundo islâmico possui os chamados cinco pilares da Fé islâmica, sendo uma espécie de mandamento a ser seguido, são eles:

• A recitação e aceitação da crença – Shahada;

• Oração cinco vezes ao longo do dia (Salat ou Salah)

• Pagar esmola e ajudar aos necessitados (Zakat ou Zakah)

• Respeitar o jejum no Ramadão (Saum ou Siyam) parecido ao tempo de Quaresma.

• Fazer a peregrinação a Meca (Hajj) caso existam condições físicas e financeiras uma vez na vida.

Sendo assim é um erro grosseiro resumir o islã e a cultura islâmica ao fundamentalismo religioso e as interpretações extremistas que grupos terroristas ou até mesmo políticos – ao igual que muitas seitas ao longo da história do mundo cristão ou regimes autoritários – fazem do Alcorão.

Conhecer as dimensões que compõe a realidade do mundo muçulmano é a única formar de obter um caminho para promover a estabilidade da região e uma atuação coerente dos processos de integração inerentes do aumento da globalização, caso contrário jamais será possível superar o atrito cultural entre ambas realidades e ambas visões de mundo e sempre haverá grupos extremistas dispostas a manter esse estado de anomia em benefício próprio, respaldados por uma visão distorcida da fé mas que ao mesmo tempo atua como um forte atrativo para novos integrantes.

Poucas pessoas sabem que a primeira universidade do mundo foi fundada em Fez (no Marrocos) por uma mulher; que o mundo islâmico já possuía preceitos para o capital e seu uso desde o século VII havendo o chamado “capitalismo islâmico” vigente atualmente, e, que muitos países muçulmanos tiveram historicamente mais representantes femininas ocupando cargos de poder que nenhum outro país ocidental, etc.

Claro que existem casos exacerbados, principalmente porque existe uma instabilidade histórica entre as nações islâmicas desde a II Guerra Mundial, quando quase todas foram divididas e transformadas em protetorados europeus (França, Espanha, Inglaterra e Bélgica principalmente) ou integradas a outras nações como a União Soviética, sendo que muitas delas tiveram sua independência mediante a instauração de regimes autoritários apoiados pelas potências mundiais (Europa, Estados Unidos e Rússia), principalmente as produtoras de gás e petróleo.

É errado aceitar a ideia de que estamos perante uma guerra religiosa ou civilizacional, entre os países do ocidente e a comunidade islâmica. Na realidade, o que vivemos é o acumulo de uma série de fatores históricos, econômicos, culturais e políticos que apoiados pelo polarização, fragmentação e tensão constantes, eclodiram através do surgimento de grupos extremistas e fundamentalista que se usam da religião para reivindicar de forma violenta e ilícita uma modificação no plano territorial, utilizando-se de uma visão deturpada da fé. Sendo o Islã um fator usado de forma equívoca em lugar de ser o responsável pela deturpação que sofreu.

Bibliografia

Mumisa, Michael (2002) Islamic Law: Theory & Interpretation, Amana Publications,

HOBSBAWN, E. Era dos extremos. O breve século XX – 1914, 1991. São Paulo: Cia. das. Letras

GUELLOUZ, Azzedine – “O Islão” in As Grandes Religiões do Mundo, direcção de Jean Delumeau. Lisboa: Editorial Presença, 199

SCHUON, Frithjof – Para Compreender o Islã. Rio de Janeiro, 2006.

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.