Os ataques perpetrados na França no dia 13 de novembro de 2015 são o reflexo de um cenário global cada vez mais tenso e assimétrico, onde o extremismo se expande entre a anomia crescente dos atores internacionais e o desequilibro no panorama mundial. Nesse cenário anárquico, desestabilizado e tenso, o extremismo trilha seu caminho e se consolida como player na balança de equilíbrio mundial, sendo necessário conhecer todas as suas faces e suas dimensões.

O extremismo pode ser religioso, étnico-cultural, político, econômico e ideológico.  E representa a polarização dos diferentes atores nas diversas dimensões que moldam o contexto político nacional e internacional apresentando diferentes níveis, que vão desde fundamentalistas religiosos à políticos extremistas de países avançados ou emergentes.

Vivemos a verdadeira Era dos Extremos, mas a diferença do extremismo apresentado por Eric Hobsbawm em sua obra. O cenário atual não se define mais pelo maniqueísmo ou dualismo da Guerra Fria, nem pela tensão entre dois atores e sua visão de mundo, mas pela existência de várias concepções da realidade que colidem entre elas, onde cada pessoa e ator é dono de sua verdade e que se aferra a mesma para sobreviver ao mundo globalizado.

Já não existe uma hegemonia definida e um caminho a ser seguido, pois não existe uma ou duas potências isoladas – como era o caso dos EUA e da URSS – para guiar as demais nações.

Não existe um modelo econômico estabelecido, pois grandes players como a China reúnem características de dois modelos antes opostos – capitalismo e comunismo – e a inserção de novos países no cenário econômico diversificou o mercado.

A linha que define o que é democracia, autocracia e oligarquia é cada vez mais difusa assim como o posicionamento político e ideológico dos autores e dos formuladores políticos.

Os órgãos Supranacionais não conseguiram consolidar seu papel no equilíbrio de forças seja pela conduta dos Estados ou pelo crescente institucionalismo que enfraqueceu essas organizações devido a coexistência de órgãos semelhantes, mas que defendem visões diferentes.

Vivemos uma época onde a multipolaridade gera o constante atrito entre as diversas visões de mundo o que aumenta perceptivelmente as tensões e a anarquia existente entre os Estados havendo reflexos em todo o sistema e em todas as escalas.

Mesmo que a palavra extremismo seja hoje usada como sinônimo de terrorismo é necessário compreender as dimensões e escalas intrínsecas da mesma e não confundir a mesma com o fundamentalismo.

Este último fim de semana a mídia e a sociedade brasileira foi um exemplo perceptível da tensão social e do crescente extremismo das ideias.

O motivo da discussão foi a repercussão social dos Atentados de Paris frente ao Desastre Ambiental de Mariana.  Catástrofes de origem e significados diferentes, mas que gerou posicionamento bastante rígidos.

Essa tensão não aconteceu somente no Brasil, mas em países como México, Colômbia, Nigéria, entre outros, que usavam catástrofes e acontecimentos locais para questionar a mídia e a polarização da mesma em relação a Paris.

A própria Paris, também apresenta as diversas faces do extremismo, pois ao mesmo tempo que foi vítima do Fundamentalismo religioso os movimentos e partidos de extrema direita é uma realidade crescente que após os atentados não demoraram em fazer seu discurso extremista ecoar pelos cantos da cidade.

O extremismo não deriva da diversidade de opiniões – sempre necessária para a consolidação da democracia – mas da falta de diálogo entre os implicados e do posicionamento exacerbado.

A falta de compreensão de cada evento, revela essa crescente radicalização de assuntos que permeiam todas as dimensões da sociedade e se retroalimenta na formulação política.

As pessoas são donas de sua verdade e de sua realidade e não estão abertas ao diálogo, essa falta de intercâmbio cimenta as crenças e o extremismo cresce em ambos os lados dificultando ou impossibilitando o diálogo intercultural e inter-religioso. Sendo necessário compreender a essência do extremismo para não instaurar um sistema que seja extremista por temor a ser invadido por outro…

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Bibliografia:

HOBSBAWN, E. Era dos extremos. O breve século XX – 1914, 1991. São Paulo: Cia. das. Letras

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.