O feminismo está pop. Basta vermos qualquer mídia relacionada a atualidades e podemos verificar que muitas artistas atuais e pessoas públicas se posicionam a favor do movimento feminista, militando por uma igualdade entre homens e mulheres, seja na área profissional, por equidade salarial, inclusive nos serviços domésticos que são comumente delegados à mulher, vide A Mística Feminina, livro no qual Betty Friedan explica como a mulher, no período pós-Segunda Guerra Mundial, foi novamente colocada como dona-de-casa, não mais como profissional igual aos homens, papel que exerce enquanto os homens estavam em combate. O que Friedan explica em seu estudo é que mulheres só deveriam ter como sonho casar, ter uma bela casa, belos filhos e um marido para cuidar, mas grande parte destas mulheres tiveram casos de depressão, recorreram a auxílio psiquiátrico, e este fenômeno, nomeado pela autora como “A Mística Feminina”, era inexplicável para os profissionais da época, visto que estas mulheres “tinham tudo que uma mulher gostaria de ter”. E esta obra de Friedan levou à Segunda Onda do Feminismo, nas décadas de 1960 e 1970, onde se relacionou o consumismo exacerbado causado pelo capitalismo ao sistema patriarcal, e diretamente à repressão da mulher, sendo esta subjugada exclusivamente aos serviços domésticos.

Hoje a mulher está no mercado profissional, competindo os mesmos cargos com homens, é possível observar avanços relacionados aos direitos femininos desde o período d’A Mística Feminina até os dias atuais, mas ainda verifica-se que mulheres ganham até 30% a menos que homens exercendo a mesma função, e até pela jornada dupla de trabalho, tendo seu cargo profissional e também responsável quase exclusivamente pelos serviços domésticos (IBGE). E este feminismo, que luta pelas pautas de igualdade de gênero e liberdades individuais, representa a todas as mulheres? Deve-se questionar também “o discurso homogeneizador do feminismo urbano/ocidental que enfatiza o direito à igualdade sem considerar a maneira na qual a classe e etnia marcam as identidades das mulheres”, como Rosalia Paiva lembra em seu texto “Feminismo Paritário Indígena Andino”, de 2007 (tradução nossa). É necessário o recorte de classes, a vivência de cada mulher, e como o feminismo atua em cada setor da sociedade. O objeto de estudo com o qual trabalharemos será da minoria andina ou indígena, um povo que busca resgatar sua cultura e seu papel de importância nas sociedades latinas.

Hoje na América do Sul, é possível identificar o fenômeno dos movimentos antissistêmicos, que são movimentos sociais e socialistas somados a movimentos de liberação nacional, nacionalistas e anticolonialistas, surgidos nos países periféricos como os latinos (Wallerstein, apud Rojas, 2013). Os povos andinos podem ser considerados parte destes movimentos. Mas onde surge o machismo na cultura andina e qual a importância do feminismo dentro desta “nova ordem” na América Latina, de Estados voltando-se para questões sociais e fortalecendo-se como bloco?

Na cultura andina da antiguidade, o homem e a mulher são considerados uma unidade, onde cada cidadão, cada parte do casal, tem seu papel, e socialmente a importância dos dois é igualitária, colocado que somente unidos é possível a vivência na sociedade. Com a colonização, á partir de 1492, os costumes ocidentais anglo-saxões (sendo o ocidente colocado dentro da divisão de povos de Sammuel Huntington em O Choque de Civilizações) são forçados às comunidades andinas, onde a mulher é considerada inferior ao homem. Isso, somado ao advento do capitalismo como sistema-mundo, designou à parcela feminina a função de dona de casa e reprodutoras, somente. Após a Segunda Onda Feminista, este quadro se diferencia, como já citado, com capitalismo neoliberal se adaptando ao feminismo, englobando parte de suas reivindicações, e, buscando liberdades individuais, de certa forma levando o feminismo liberal (o feminismo pop) a entender suas pautas como aceitas. Estas feministas costumam ter o sistema ao seu favor, pois não enxergam os recortes sociais necessários, as vivências de todas as mulheres, um dos maiores motivos do feminismo não ser um movimento homogêneo. O feminismo praticado pelas minorias andinas é o feminismo de mulheres que, pela pobreza imposta primeiramente pela colonização e depois pelo sistema neoliberal, com cortes de benefícios sociais e retirada de suas terras, se viram obrigadas a trabalhar em dupla jornada, como mencionado, dentro de um sistema patriarcal. Muitas mulheres, lideranças destes movimentos emancipatórios andinos, organizam, cuidam de questões logísticas, lideram grupos, mas raramente são lembradas em alguma conquista popular (PAIVA, 2007). A população andina foi “contaminada” pelo machismo anglo-saxão.

O feminismo de matriz andina caminha junto ao nacionalismo, e se assemelha ao feminismo islâmico durante o período de descolonização dos países no Oriente Médio, onde a luta pela libertação da mulher se uniu a luta pela libertação das nações de seus colonizadores (tradução nossa, BADRAN, 1995), pois as mulheres andinas buscam primeiramente a liberdade do seu povo, o retorno de suas terras, de seu direito de agricultura de subsistência, e busca não depender de um sistema no qual as decisões econômicas ficam nas mãos de especialistas, que separam o econômico do cultural e social, característica do sistema capitalista neoliberal (tradução nossa, BURCH, 2015). Em países como Bolívia, o feminismo andino se articula há cerca de 70 anos, com o primeiro congresso organizado por uma entidade feminista – Legión Femenina de Educación Popular América. (MÉRIDA, 2006), mas, infelizmente, isto não significa que esta vertente feminista tenha conquistado tanta força. Em entrevista, a psicóloga, apresentadora de televisão e ativista feminista boliviana María Galindo diz que, “apesar das mulheres indígenas serem a base de apoio social, sem nome, nem corpo, as mulheres brancas são objeto de desejo” e que “se deve abandonar a ideia mistificadora de uma cultura indígena horizontal e não patriarcal. Em um contexto em que o homem indígena aparece como único interlocutor do Estado, reclamamos o direito das mulheres à desobediência cultural e o desacato dos mandos de costume” (tradução nossa. GALINDO, M. María Galindo: “No vuelvo a ir a un encuentro feminista en un hotel de cinco estrellas”. Fev. 2015. Lima: La Republica. Entrevista concedida a Gabriela Wiener). Galindo demonstra um dos maiores impedimentos da solidificação do feminismo no continente sul-americano, onde ainda percebe-se uma imposição do feminismo liberal, do feminismo que não reconhece as mulheres dentro das minorias latinas, e a falta de uma corrente feminista própria das mulheres da América do Sul, das mulheres andinas. Há autoras brasileiras, chilenas e mexicanas que abordam o feminismo, mas não há um feminismo propriamente da região, com foco nas experiências e conhecimentos destas mulheres, somente baseados em outros feminismos e seus estudos acerca destes.

O feminismo andino, como demonstrado brevemente neste texto, luta não somente contra a opressão do sistema patriarcal, mas principalmente contra a opressão do sistema capitalista e ocidental sobre seu povo e sua cultura, o que leva a mulher a uma maior marginalização além da questão de gênero. A mulher andina tem duas lutas constantes, sobre a opressão do seu povo e sua cultura, e dentro destes movimentos, a opressão por ser mulher, sendo silenciada apesar de sua luta constante ao lado dos homens. É clara a articulação destas mulheres dentro de seus países, mas é necessário que haja um reconhecimento de um feminismo próprio, deste subcontinente, baseado nas experiências e lutas destas mulheres, para ser possível construir um movimento que fortaleça a luta nacionalista, antissistêmica e também a feminista andina. O que estas feministas dizem é para que as reconheçam como povo, mas também como iguais.

“Assim como a opressão das mulheres só terminará com o fim do capitalismo, o socialismo só será possível com a liberação das mulheres” (tradução nossa, BURCH, 2015).

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Thanee Degasperi

Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Paulista (UNIP), em 2014.

Atualmente focada em seu projeto de pesquisa sobre feminismo islâmico para um futuro mestrado.

Faz trabalho voluntário na ONG ADUS, de reintegração do refugiado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

Aproximaciones críticas a las prácticas teórico-políticas del feminismo latinoamericano / coordinado por Yuderkys Espinosa Miñoso. – 1a ed. – Buenos Aires: En la Frontera, 2010. v. 1, 320 p.

AQUINO, Ma. Pilar; TÁMEZ, Elsa. Teología FeministaLatinoamericana. 1ª Ed. – Quito: Ediciones Abya-Yala, 1998.

BADRAN, Margot. Feminists, Islam, and Nation. Princeton: Princeton University Press, 1995.
BURCH, Verónica León. Más allá del cuerpo: el feminismo como proyecto emancipador. Mujeres em Red. El Periódico Feminista. Julho 2015. Disponível em < http://www.mujeresenred.net/spip.php?article2202>

GALINDO, M. María Galindo: “No vuelvo a ir a un encuentro feminista en un hotel de cinco estrellas”. Fev. 2015. Lima: La Republica. Entrevista concedida a Gabriela Wiener

HUNTINGTON, Samuel. O Choque de Civilizações. 1ª. Ed. – São Paulo: Editora Objetiva, 1997.

MÉRIDA, Wilson García. Bolivia: Uma historia inédita em las luchas del feminismo andino. Out. 2006. Disponível em: <http://www.latinoamerica-online.info/2006/arti06_garcia_merida_feminismobolivia.htm>

PAIVA, Rosalía. Feminismo Paritario Indígena Andino. ECOPORTAL.net. abr. 2007. Disponível em: <http://www.ecoportal.net/Temas-Especiales/Pueblos-Indigenas/Feminismo_Paritario_Indigena_Andino>

ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. O que são os movimentos antissistêmicos. Revista Eletrônica História em Reflexão: Vol. 7 n. 13 – UFGD – Dourados, jan/jun – 2013. Tradução André Dioney Fonseca.

Voces Y Saberes Feministas: Hacia uma agenda de cooperación emancipadora / coordenado por Amaia del Río Martinez y Sandra Dema Moreno. – Bilbao: Lankopi, 2013.

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