Sob o tema gerador “Prosperidade com Equidade: os Desafios da Cooperação nas Américas” a VII Cúpula das Américas, a sétima desde sua criação em 1994, realizada em abril deste ano, reuniu, pela primeira vez, todos os chefes de Estado do continente americano na cidade do Panamá e trouxe diversas questões para um debate. A reunião, que ocorre com um intervalo de três anos e tem o potencial de reunir diversas autoridades do continente para a discussão e posterior elaboração de uma agenda hemisférica que lide com os principais desafios observados na região, teve grande parte das atenções centradas na histórica reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba, ação esta que teve como uma peça fundamental o Papa Francisco.

A participação do Papa Francisco na referida reaproximação é apenas mais um exemplo da bem sucedida conduta do pontífice argentino, que parece utilizar da sua posição e prestígio para conferir maior fluência a tópicos da agenda política internacional, tais como o combate a desigualdades sociais e econômicas, às mudanças climáticas, e afirmou a importância da solidariedade com a causa dos imigrantes advindos de áreas de conflito, como a Síria.

Desta forma, observa-se que ao longo dos primeiros anos de seu pontificado (iniciado em março de 2013) Francisco acumulou uma série de momentos históricos e discursos críticos que trazem uma energia renovadora junto ao relacionamento entre uma das instituições mais antigas do mundo – a Igreja Católica – e a sociedade de forma geral.

Mensagens aos países da América Latina

Em sua primeira visita à América Latina, realizada em julho deste ano, o papa Francisco, o primeiro papa não europeu eleito desde o século VIII e o primeiro advindo da ordem dos jesuítas, visitou o Equador, a Bolívia e o Paraguai, países diferentes, mas que possuem em comum desafios relacionados às elevadas taxas de pobreza e à desigualdade econômica subseqüente.

Na Bolívia, em um discurso entusiasmado durante o II Encontro dos Movimentos Populares no país, Francisco chamava o público presente para refletir acerca das desigualdades sócio-econômicas e a lutar por seus direitos sagrados – “terra, teto e trabalho para todos os irmãos e irmãs” – ou seja, convidava membros da igreja, integrantes de movimentos sociais da cidade e do campo, bem como leigos e a sociedade em geral a serem agentes das mudanças por ele sugeridas. Assim, o pontífice clamava: “Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…e nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra1”.

Ao falar sobre o “potencial renovador” da mudança que evocava em suas palavras e da necessidade da “globalização da esperança”, um movimento que segundo o papa surge e cresce entre os pobres, em detrimento da atual “globalização da exclusão e da indiferença”, Francisco fez duras críticas à idéia de que o dinheiro se transforme em uma espécie de guia das decisões humanas, o que a seu ver apenas gera maior tensão entre os indivíduos que compõem as sociedades e permeia as desigualdades socioeconômicas, e propôs aos presentes que cada um definisse a mudança que poderia trazer ao seu entorno através da reflexão acerca de aspectos como: criar os subsídios para a economia a ser colocada a serviço das sociedades e da dignidade humana, e defender a terra dos efeitos devastadores das mudanças climáticas.

A defesa da “Mãe Terra” e a encíclica sobre as mudanças climáticas (Laudato si´)

No mês de junho deste ano, o papa Francisco apresentou um documento por ele redigido e direcionado à comunidade internacional que discutia a questão das mudanças climáticas observadas em nosso planeta ao longo das últimas décadas e propunha a cada pessoa que habita este mundo que atuasse de maneira ativa para a contenção de tais processos destrutivos à vida humana e à vida da própria terra, que inclusive é chamada pelo pontífice de “casa comum” ou em alguns momentos do texto até mesmo comparada com um familiar com quem se compartilha a existência e se busca o acolhimento.

Dotada do tom de serenidade necessário para lidar com um tema de tamanha importância e com um frescor da crença na mudança de comportamento, a encíclica de Francisco argumenta que o mal pelo qual a terra passou nas últimas décadas está relacionado ao “uso irresponsável e abusivo dos bens que Deus nela colocou2” e, clama pela união da “família humana” com o intuito de cumprir o “urgente desafio” de proteger a nossa casa comum e alcançar um desenvolvimento sustentável e pleno.

Conforme o papa assinala na encíclica mencionada, anteriores a ele outros pontífices demonstraram preocupação e interesse na discussão de temas relacionados ao meio ambiente, e conferiram espaço em algumas encíclicas para levarem mensagens aos povos do mundo. Este é o caso, por exemplo, do papa PauloVI  que em sua encíclica voltada à justiça social inseriu o tema do meio ambiente como um dos “novos problemas sociais” e chamou atenção para as “conseqüências dramáticas ou até mesmo inesperadas” da ação humana e de sua “exploração inconsiderada da natureza3”.

A encíclica de Francisco traz o apelo anteriormente mencionado de uma união da humanidade em prol da proteção da Terra e é dotada de conteúdo político à medida que chama a para a ação humana, a responsabilidade pelas alterações climáticas vivenciadas e pelo processo de mudança positivo que pode ser adotado pelos países para conter tais fatos. Entre os temas abordados, estão, por exemplo: a poluição e as mudanças climáticas (tendo em vista a idéia de que o clima é um bem comum a todas as pessoas); a importância da água; a dificuldade de articular, no âmbito da política internacional, uma reação para os problemas ambientais relacionados à tecnologia e à ambição humana.

Ao longo do capítulo V, intitulado o papa delineou os “caminhos para diálogos” que deverão conduzir o processo de mudança da relação entre o homem e a terra, e conseqüentemente a construção de um futuro econômico e socialmente sustentável, que descole do sistema socioeconômico atual que se encontra caracterizado pela desigualdade entre setores sociais (no âmbito nacional e regional) e entre países (aquela “tradicional” cisão entre os interesses dos países desenvolvidos e em desenvolvimento), pelos excessos de consumo, e pelo uso desmedido de recursos naturais tão necessários para a vida humana.

Embora ainda seja muito cedo para qualificar ou até mesmo dimensionar em sua totalidade a importância dos discursos e iniciativas do papa Francisco, tendo em vista que vivenciamos o terceiro ano de seu pontificado, é possível inferir que ao longo dos últimos anos vimos na figura de Francisco uma energia renovadora que possui o potencial de alterar as relações entre a Igreja Católica e a sociedade global, e a esperança de um pontífice que possui a determinação e coragem necessárias para atuar de forma ativa em tópicos importantes da agenda política internacional, tais como o combate a desigualdades sociais e econômicas, às mudanças climáticas, e à recente crise migratória, além de buscar atender demandas mais imediatas das sociedades – como é o combate à desigualdade social e econômica – e fazer duras críticas ao atual sistema socioeconômico que perpetua a desigualdade entre as pessoas e dificulta o exercício da fraternidade.

Referências Bibliográficas

1 Discurso do Papa Francisco no II Encontro dos Movimentos Populares. Disponível em: <http://papa.cancaonova.com/discurso-durante-ii-encontro-dos-movimentos-populares-na-bolivia/&gt;. Acesso em 20 de set de 2015

2Laudato Si´. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html&gt;. Acesso em: 23 de set de 2015

3Octogesima Adveniens do Papa Paulo VI. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/apost_letters/documents/hf_p-vi_apl_19710514_octogesima-adveniens.html&gt;. Acesso em 21 de set de 2015

Primeira Homilía do Papa Francisco na América Latina. Disponível em: <http://www.news.va/es/news/primera-homilia-del-papa-francisco-en-america-lati&gt;. Acesso em 20 de set de 2015

Rádio Vaticano [ O Papa Francisco foi determinante na reaproximação entre EUA-Cuba, afirma Kerry]. Disponível em: <http://br.radiovaticana.va/news/2015/09/23/papa_foi_ determinante_na_rela%C3%A7%C3%A3o_com_cuba,_afirma_kerry/1174052>. Acesso em 20 de set de 2015

Imagem: Papa Francisco em visita ao Equador, parte de sua viagem à América Latina. Fonte: Ministério de Relações Exteriores do Equador.

Publicado por:Flávia Abud Luz

Bacharel em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado, atualmente é aluna do curso de Política e Relações Internacionais, Pós-Graduação lato sensu da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Possui interesse nas áreas de Segurança Internacional, Terrorismo e Conflitos Internacionais, especialmente temas relacionados ao Oriente Médio (sub-áreas Levante e Golfo Pérsico).