Embora as Américas tenham tido várias possibilidades de integrar-se, este fator, mesmo que relevante, nunca chegou de fato a ocorrer, salvo a sua consolidação no aspecto do direito, quando da criação da OEA (Organização dos Estados Americanos), no ano de 1.948, depois de inúmeras divergências surgidas nesses continentes.

O sonho de integração, denominado de pan-americanismo passou por vários momentos e por várias pessoas, como Francisco Miranda em 1.790, depois por Don Pablo de Olavide em 1.795 e por último, e com mais vigor e visibilidade, por Simon Bolívar, no Congresso do Panamá, no ano de 1.826, que lutou com unhas e dentes para a unificação das ex-colônias espanholas na América, sob a égide do fortalecimento regional, objetivando não só o desenvolvimento em bloco, mas também a inserção de um pensamento socioeconômico, cultural e político, superando as diferenças entre seus líderes, entre os seus usos, costumes que estratificaram cada um desses Estados nacionais.

Passados séculos desses movimentos, verifica-se que as Américas ainda continuam fragmentadas, o que é uma lamentação, pois cada ente possui atributos internos que podem servir para o tão requisitado desenvolvimento em bloco, pegando o ponto forte de cada um para somar-se na projeção de poder e posteriormente, na tomada de decisão também em bloco, refletindo fatores positivo dantes jamais visto.

Sabe-se que a tarefa é árdua, principalmente quando menciona-se, o turbilhão de desencontros e retrocessos locais entre os entes, bem como político, cultural e econômicos, podendo gerar o famoso “Choque de civilizações” haja vista, se voltarmos a origem histórica da América do Sul, por exemplo, veremos tantos conflitos que geraram desequilíbrios internos e externos dos seus membros, desde a exploração sofrida até o comportamento discutível de seus líderes que procuraram expandir suas vontades e interesses privados por toda a região como, Che Guevara, Fidel Castro, Perón, Chaves e etc.

Mesmo que o Brasil sofra com a desconfiança dos Estados nacionais que compõem a região pelo fato de não ter a mesma raiz de colonização espanhola e sim portuguesa, é inegável discutir a liderança do país na esfera regional da América do Sul, bem como da América Latina, devido a sua pujança territorial, com dimensões continentais, com reservas naturais abastadas, com uma economia forte, dentre as mais fortes do mundo inclusive, (embora esteja passando atribulações cambiais e de juros altos), não se pode descartar a sua supremacia regional exercida, o que demanda uma análise de conjuntura eficaz e interna, acertando seus passos com uma reestruturação em setores pontuais e relevantes, como por exemplo, elaborar e aprovar as reformas política, fiscal e tributária, descentralizando a renda, tornando-o consonante as demandas regionais para agirem proporcionalmente ao interesse de todos componentes do bloco.

Nessa linha de raciocínio, vem o Brasil com a pregação de novas frentes de aproximação, incumbindo o Ministro de Assuntos Estratégicos e Professor da Havard Law School, ora Roberto Mangabeira Unger, trazendo um modelo denominado “Integração produtiva na América do Sul”, sendo considerada uma alternativa viável para a concretização e sucesso na formação compacta de um bloco regional que fale a mesma língua, não no sentido do idioma, mas sim nas suas ações convergentes que possam beneficiar a todos.

Na entrevista para a Folha de São Paulo, datada em 30/08/2.015, o Ministro revela a pretensão do Brasil de assumir esse papel, trazendo uma nova estratégia de desenvolvimento nacional, calcada em capacitações educacionais e oportunidades produtivas, com uma qualificação e democratização do processo produtivo, mencionando a seguinte explicação:

“Precisamos construir um produtivismo inclusivo e capacitador. O cumprimento dessa tarefa nos dá uma grande oportunidade para avançarmos na união sul-americana. Por isso, iniciei uma série de viagens para vizinhos como Chile, Equador, Paraguai e, na sequência, Colômbia e Peru”. (1).

Muito importante o desenho e a prática efetiva dessa frente externada pelo Ministro Mangabeira Unger, pois mesmo tendo ciência das dificuldades de uma concretização em curto espaço de tempo, a semente deve ser plantada e regada, quem sabe ela crescerá mais rápido do que se imagina, basta perseverar e prestar todo cuidado necessário para que tal implementação realmente, venha para a práxis, o que seria um alívio para o bloco.

O Ministro traz como medidas concretas uma discussão com cada país integrante do bloco no sentido de afiar o consenso prático, como por exemplo, com o Equador discutirá um novo modelo de escola média e técnica com capacidade de priorizar a capacitação exigida pelas novas tecnologias, com o Paraguai discutirá o modelo agropecuário (especificamente, a recuperação de pastagens degradadas e a industrialização de produtos agropecuários e por fim, o Chile, onde o foco será a educação e o desenho institucional propício ao fomento das empresas de vanguarda.

Vislumbra-se então uma possibilidade de mudança, ou melhor, uma transformação na acepção do termo, pois com certeza é com a chegada de uma crise que a transformação surge, abrindo, dentro de uma visão otimista, a chance de aglutinação e consolidação do bloco, para quem sabe projetar poder regional para o mundo, como um novo celeiro de produção e oportunidades na recepção de novos relacionamentos em rede, como novos comércios, novas culturas, proporcionando inclusive, um novo soft power regionalizado e não mais pontual.

Referências:

. Folha de São Paulo, reportagem do dia 30/08/2.015, na coluna “Mundo”.

. LOPEZ FERREIRA, Ana Paula; MÉRCHER, Leonardo. História política da América Latina. 1ª Edição, ano de 2.015.

Publicado por:Edney Abrantes

Bacharel em Direito pela UMC, Advogado OAB/SP. 178.856, Membro da Comissão de Meio-Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil, OAB/SP, Subsecção São Vicente/SP, Consultor Político formado pela MANHANELLI ASSOCIADOS, Cientista político pela FESP-SP, especialista em Política e Relações Internacionais pela FESP-SP, Associado ao Núcleo de Estudos em Relações Internacionais NEMRI da FESP-SP, Pesquisador registrado no CNPQ, Mestre em Gestão Ambiental pelo Instituto Iberoamericano, e Mestrando em PMICH em Sociedade, Comunicação e Política, pela UNISA, especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral pela USP, especialista em Direito Processual pela UNISANTOS, MBA em Direito Empresarial na Strong/FGV.