Márcia de Paiva Fernandes[1]

Um dos aspectos mais fascinantes do Egito é, sem sombra de dúvida, as construções de sua antiga civilização que ainda podem ser observadas no país. Desde as três pirâmides de Gizé até o templo de Abu-Simbel, a maestria dos antigos arquitetos embeleza o território egípcio, fazendo com que as obras faraônicas sejam uma fonte de fascínio, de conhecimento sobre a vida no Egito na antiguidade e de renda, já que o turismo é uma das principais fontes de arrecadação no país.

Ao que tudo indica, o atual presidente do Egito, Abdel Fatah el-Sisi, possui uma ambição tão grande quanto a dos antigos faraós no que se refere à magnitude e ao impacto de construções. O dia seis de agosto de 2015 a partir de agora será lembrado pelos egípcios como o dia em que o chamado Novo Canal de Suez foi inaugurado por el-Sisi, com direito a feriado nacional e à uma cerimônia exuberante de trinta milhões de dólares que foram pagos por empresas egípcias e estrangeiras (AL-YOUM, 2015).

Com um custo de cerca de oito bilhões de dólares, o Novo Canal de Suez – definido por el-Sisi no discurso de inauguração como o presente do Egito para o mundo (STATE INFORMATION SERVICE, 2015) – permite o trânsito de navios em dois sentidos através da criação de um novo canal ao lado do antigo que, ademais, suporta a passagem de embarcações maiores e em menor tempo do que antes (AHRAM ONLINE, 2015). Construído no prazo recorde de um ano, o Novo Canal de Suez foi até o momento o maior investimento econômico e de infraestrutura do governo de el-Sisi e espera-se que sua ampliação possa aumentar o ingresso de receitas na frágil economia egípcia para 13,23 bilhões de dólares anuais até 2023 em comparação com os 5 bilhões do ano passado através do aumento previsto do fluxo diário de navios de 49 para 97 (EGYPT INDEPENDENT, 2015).

Dentre as vantagens apontadas por alguns economistas com o Novo Canal de Suez, destacam-se a geração de empregos, um efetivo aumento nas receitas e a atração de investidores internacionais que possam incentivar o crescimento da economia egípcia (GULF NEWS EGYPT, 2015). Entretanto, o grande problema com o novo canal não é se ele irá de fato gerar os ganhos econômicos esperados, mas sim a sua construção em um momento em que o Egito apresenta necessidades mais urgentes.

Apesar de toda especulação em torno do novo canal, alguns economistas apontam que a efetividade da mais recente obra faraônica no Egito é questionável por vários motivos. Em primeiro lugar, a quantidade de navios petroleiros que passa pelo canal tende a diminuir devido ao fato dos maiores compradores do óleo estarem buscando novos exportadores com um cenário político mais estável e favorável e até mesmo investindo em outras fontes de energia para se tornarem mais independentes desse comércio. Em segundo lugar, um enfraquecimento no comércio internacional que ainda sofre com os efeitos da crise de 2008 e com a desaceleração do crescimento econômico da China, por exemplo, não demanda no momento um novo canal para cerca de 40 navios a mais esperados (MOUNIR, 2015). Por fim, o canal do Panamá também está em vias de expansão e se apresenta como uma alternativa mais rápida e mais barata para o comércio entre os continentes asiático e americano, sendo uma ameaça à diminuição do fluxo de navios em Suez (EGYPT INDEPENDENT, 2015).

Uma comparação mais direta entre as obras realizadas em Suez e as que estão em andamento no Panamá pode ser realizada para evidenciar não apenas as diferenças entre os canais responsáveis por grande parte do comércio marítimo internacional, mas também a maneira pela qual sua ampliação foi ou está sendo realizada. O canal do Panamá, assim como o de Suez, possui uma posição geográfica estratégica que permite o escoamento e a comercialização de mercadorias entre os países banhados pelos oceanos Pacífico e Atlântico. Desde 2007, esse canal está em obras que visam a sua ampliação através da construção de um terceiro jogo de eclusas[2] tendo em vista tanto o aumento do uso de rotas marítimas no comércio internacional quanto a necessidade de se adaptar ao maior tamanho das embarcações atuais (BÜRGER; LISBOA, 2014).

Com o fim da ampliação, espera-se que o aumento do fluxo de navios e a passagem de embarcações de grande porte pelo canal do Panamá gerem um acréscimo de 300 milhões de dólares ao valor de um bilhão anual que é arrecadado atualmente. Apesar dos condicionantes externos que impulsionaram a expansão do referido canal, as obras contam com a legitimidade da população panamenha, tendo em vista a sua aprovação por um plebiscito em 2006. Ciente da importância das receitas oriundas do tráfego de embarcações no canal para a economia do Panamá, tanto o governo quanto a população constataram que a sua expansão traria ganhos econômicos e que, caso essa obra não fosse realizada, o país deveria diversificar suas fontes de renda, o que seria um caminho mais difícil tendo em vista o seu baixo nível de industrialização e por exportar produtos agrícolas de menor valor, como a banana (BÜRGER; LISBOA, 2014).

Percebe-se, portanto, grandes diferenças entre o Novo Canal de Suez e a expansão em andamento do canal do Panamá. El-Sisi não colocou a proposta de ampliação do canal egípcio para votação em um plebiscito, sendo até mesmo acusado de não ter realizado estudos mais sistemáticos sobre a efetividade de sua ampliação e de não compartilhar as informações a respeito do projeto. Embora tenham havido impasses entre a Autoridade do Canal do Panamá e o consórcio responsável pela execução da obra – Grupo Unidos pelo Canal[3] – sobre os seus custos e que atrasaram o seu andamento (MELÉNDEZ, 2014), tudo indica que o projeto de expansão do canal do Panamá foi mais transparente – ao menos em uma perspectiva comparada com o caso egípcio – e obedeceu um plano mais elaborado. O curtíssimo tempo em que o Novo Canal de Suez foi construído levanta dúvidas a respeito de seu planejamento e até mesmo das próprias condições às quais os trabalhadores do canal estavam submetidos.

Por fim, deve-se comparar o objetivo de cada uma dessas obras. Diferente do caso panamenho em que estavam ocorrendo prejuízos para o país e para o próprio comércio internacional com a impossibilidade do tráfego de navios de grande porte, o Novo Canal de Suez não era o projeto mais necessário para o Egito no momento. O aumento de quarenta navios no número total de embarcações que estão previstas para passarem pelo canal egípcio não é tão significativo a ponto de justificar uma obra como essa. Nesse sentido, fica evidente que enquanto a expansão do canal do Panamá possui um objetivo econômico bem definido, o Novo Canal de Suez foi construído para promover ganhos para a reputação internacional do Egito e para a imagem de el-Sisi no país. Se esse projeto fosse apresentado à população em um plebiscito, dificilmente os egípcios o aprovariam para promover a imagem de um presidente que após um ano de governo ainda não voltou seu olhar para as necessidades básicas e imediatas do país.

A precária situação da economia egípcia, por exemplo, demanda investimentos capazes de gerarem ganhos mais imediatos. O que el-Sisi tem feito, na verdade, é tentar fortalecer a reputação internacional do Egito seja através da utilização de uma conferência econômica em Sharm el-Sheik como uma oportunidade para mostrar que o país é capaz de realizar um importante evento e que sua economia está pronta e estável o suficiente para atrair investidores externos (SHENKER, 2015); seja através da própria construção do Novo Canal de Suez, que foi mais uma demonstração para ingleses, russos, americanos e franceses verem que o Egito possui estabilidade política e econômica e que o terrorismo está sob controle, do que um investimento bem planejado e com ganhos imediatos (KALDAS, 2015). Até mesmo analistas ambientais fizeram críticas à falta de planejamento para a construção do Novo Canal de Suez, alertando para a possibilidade de espécies invasoras migrarem em maior escala para o Mar Mediterrâneo e alterar o equilíbrio de seu ecossistema (DAILY NEWS EGYPT, 2015).

Ademais, os sistemas de saúde e de educação do país estão entre os piores do mundo, a infraestrutura de transportes é péssima, a pobreza e os índices criminas têm aumentado e o país vive uma das maiores crises habitacionais de sua história (KALDAS, 2015; AL-NAGAR, 2015). Para completar esse trágico cenário, o Egito está longe da promessa democrática feita por el-Sisi durante a campanha presidencial e o terrorismo não está tão controlado como ele insiste em afirmar em cada oportunidade que possui: com a ameaça de grupos terroristas na Península do Sinai e na vizinha Líbia, o Egito se encontra cercado entre tais grupos e tem demonstrado dificuldades para contê-los, o que é evidenciado por ataques cada vez mais frequentes em grandes cidades e contra o exército (EL DEEB; ROHAN, 2015).

Se o objetivo de el-Sisi com o lançamento do Novo Canal de Suez foi tentar consolidar a reputação do Egito como um país estável e melhorar a sua própria imagem interna através de sua propaganda como um líder nacionalista e que está salvando o Egito do terrorismo e da precária situação econômica, pode-se somar esse conjunto de metas aos duvidosos ganhos econômicos do novo canal em um pacote de prejuízos para o país, apesar de alguns apoiadores de seu governo que comemoraram a obra de Suez na Praça Tahrir discordarem dessa afirmação. Mesmo que as grandes imprensas nacional e internacional comprem o discurso de el-Sisi, está mais do que evidente que os egípcios não são alheios à real situação que enfrentam no país e que podem cedo ou tarde lutar por transformações, mesmo que encarando altos riscos e custos.

As grandes obras faraônicas do passado eram uma demonstração do grande poder do faraó para os seus súditos, poder esse instituído pelos próprios deuses. Destinadas ao culto do divino, à glorificação por grandes feitos ou ao descanso eterno, os faraós lograram eternizar seus nomes através de grandes obras arquitetônicas que correspondiam às crenças e às expectativas da população da época sobre o que o seu governante deveria realizar no país. El-Sisi, porém, não possui a mesma sorte: seu poder não é divino e por mais que tente mostrar a grandiosidade do Novo Canal de Suez, os anseios da população atual são diferentes. Comida, saúde, educação, segurança e moradia são as reais necessidades dos egípcios atualmente e um novo canal em Suez não será capaz de atender essas reivindicações e acalmar os ânimos dos egípcios que têm se mostrado capazes de enfrentar o aparelho repressor do Estado para apresentar suas queixas, ameaçando a boa imagem política e econômica que o governo tenta construir.

Sem título (1)

[1] Márcia de Paiva Fernandes

Bacharel em Relações Internacionais pela PUC Minas e Mestranda em Ciência Política na UNICAMP.

[2] Uma eclusa é um “Conjunto de duas ou mais comportas usado para reter ou deixar fluir a água, permitindo a subida ou descida de uma embarcação entre trechos de um rio ou canal em desnível; dique (DICIONÁRIO ESCOLAR DA LÍNGUA PORTUGUESA, 2008, p. 462).

[3] O Grupo Unidos pelo Canal é um consórcio formado pelas empresas Sacyr Vallehermoso da Espanha, Impreglio da Itália, Jan de Nul da Bélgica e Constructora Urbana do Panamá (MELÉNDEZ, 2014).

* Texto original O Novo Canal de Suez (2)

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