A religião sempre foi um fator importante para a coesão social nos países da América latina, sendo um dos tijolos usados na construção da identidade nacional e na formação territorial de diversas nações, entre elas o Brasil.

O surgimento das primeiras repúblicas foi aos poucos minando o poder da igreja católica, majoritária no território desde sua colonização.

As ditaduras embora muitas apoiadas pela igreja também foram um dos motivos que causou o enfraquecimento do catolicismo, principalmente após a queda dos regimes autoritários e a secularização do estado.

Atualmente grande parte do continente está formada por estados laicos. Os casos mais visíveis de estados confessionais são a Argentina e a Costa Rica, onde o catolicismo é ainda citado ora pela constituição ora pela doutrina política e jurídica do país.

O fato de um Estado se autodeclarar laico não significa que não haverá intervenção ou influência da religião em sua composição, uma vez que a mesma representa um grupo de interesse e valores que permeiam diferentes camadas e grupos da sociedade e esta inserida no processo de formulação política e até mesmo nos entes decisórios.

Mas é certo também avaliar que a Igreja Católica em quase todos os países do continente americano atua mais na esfera do softpower, influenciando o processo social e político e na representação de grupos de interesse, do que na ação política de fato e que a Santa Sé (Vaticano) não vê a militância política com bons olhos, levando a suspensão e até mesmo excomunhão do religioso que se envolve em disputas políticas como no caso do ex-presidente do Paraguai o ex-bispo Fernando Lugo.

Ainda assim a religião está presente no cenário político latino, o vácuo de poder deixado pela igreja católica durante seu processo de secularização foi ocupado ao longo dos anos por partidos políticos evangélicos, havendo uma ampla representação em quase todos os países da América Latina.

Este processo é bastante visível na atual crise política que enfrentam os países da região, principalmente no Brasil, cuja comunidade evangélica cresceu consideravelmente nos últimos 30 anos e líderes religiosos das principais denominações evangélicas atuam também na política e na formação de opinião mediante diferentes veículos midiáticos.

Da mesma forma que essas igrejas cresceram perante as adversidades e dificuldades enfrentadas pelos seus fieis, seus partidos políticos prosperam em meio à crise política e econômica que enfrenta o Brasil. Ocupando espaços de poder e barganhando cargos importantes em troca de apoio político.  E dessa forma acabam levando para a agenda política temas controversos e polêmicos, tais como a isenção tributaria das igrejas ou a participação desta como órgão consultivo em determinadas ações do poder jurídico, temas referentes a minorias e direitos humanos, entre outros.

A existência de grupos religiosos dentro da democracia é licita, o problema surge quando esses grupos ameaçam as bases funcionais da sociedade sobrepondo sua fé e sua visão de mundo aos demais grupos e inibindo a manifestação de outras visões, eliminando assim o diálogo político e social necessário para a continuidade da democracia e a garantia dos direitos civis. Gerar uma lei que beneficie uma determinada religião ou grupo de pessoas em detrimento de outras, ou criar uma lei que proíbe determinado comportamento porque contradiz a moral de uma religião, não é representação de um interesse e sim uma amostra fundamentalista da fé dessas pessoas.

Durante períodos de crise é comum existir um acirramento das posturas mais conservadoras e até certo saudosismo de posturas mais autoritárias que mesmo não sendo justificável após uma breve analise da história política e econômica do país, é um efeito derivado da insatisfação pública frente a seu baixo grau de politização e até mesmo de formação, sendo também perceptível em outros países até mesmo desenvolvidos, como atualmente reflete a figura de Jeb Bush e Donal Trump nos Estados Unidos ou da Marie Le Pen na França que mesmo não sendo ativistas religiosos buscam nesses grupos apoio para suas campanhas.

No caso do Brasil, a chamada “doutrina da prosperidade” pregoada por essas igrejas, gera uma forte tendência ao Populismo Religioso onde a figura do líder religioso se confunde com a do líder político pela sua participação na política, motivo que explica o fato de que os pastores evangélicos no Brasil possui o maior número de votos.

Muitas são as ferramentas usadas para fortalecer a presença evangélica no Estado Brasileiro, seu elevado grau de articulação e seu apoio incondicional da massa religiosa que vota neles. Seu poder financeiro e mediático capaz de gerar campanhas eficazes e nortear sua visibilidade e por ultimo seu poder dentro dos órgãos públicos.

Líderes religiosos com elevado grau de carisma entre o público evangélico que leva pautas discutidas na igreja para dentro da própria formulação política do estado, formando comissões benevolentes a sua visão do mundo, um exemplo visível de populismo e um perigo para a democracia.

Algo cada vez mais difundido no Brasil e na América Latina, com partidos como o PSC (Partido Social Cristão) no Brasil, o PES (Partido del Encuentro Social) do México, o MCV (Movimiento Colombia Viva) na Colômbia, entre outros.

A religião pode e deve dialogar com a política, mas não centralizar a mesma, principalmente dentro da diversidade existente nesses países, ou seremos testemunha de uma nova “cristianização política” nos países latinos e retrocessos no diálogo intercultural, inter-religioso e político. E a grande questão que nos resta é entender porquê na América Latina onde a desigualdade econômica e social existe, projetos sociais são vistos como populismo político e  o uso da fé para manutenção do poder de determinados grupos não são alvos de criticas nem de análises mais profundas.

Referências:

Beltramo Álvarez, Andrés (14 de março de 2014). «Papa Francisco: ¿teología do povo ou populista?». Vatican Insider. La Stampa.

Centro Mundial de Investigação para a Paz (2009). «El giro republicano: bases conceptuales del déficit democrático de América Latina». Ediciones Trilce

Enkvist, Inger (2008). Ícones latino-americanos. 9 mitos do populismo do século XX. Ciudadela

Populismo: Fenômeno político baseia-se no carisma de governantes. Por Renato Cancian.Uol.com.br

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.