Tashkent.2

Após o fim de União Soviética, uma série de nações surgiram na Ásia Central, permanecendo durante muito tempo ocultas sob o véu de seu passado. Uzbequistão, Cazaquistão, Turcomenistão, Quirguistão, então outras, foram consideradas, desde sua independência em 1991, área de interesse natural da Rússia, não havendo uma atenção adequada por parte da comunidade internacional na evolução da região, exceto quando as tensões étnicas ou alguma catástrofe ganhavam destaque nos noticiários.

Por esse motivo, para muitos, foi uma grande surpresa o Turcomenistão e o Uzbequistão constarem na lista do Banco Mundial sobre as 13 nações que mais irão crescer nos próximos anos. Da mesma forma que aconteceu com os outros integrantes, houve um crescente interesse por esses países. Algo justificado, não somente pela concepção de ascensão econômica que projeta essas nações devido a um aumento considerável do PIB, mas também pelo fato de que grande parte desses países possui poucos vínculos ou parcerias econômicas, salvo acordos locais ou regionais, havendo baixa inserção deles na economia mundial.

Para entender o porquê desses países estarem na lista é necessário compreender sua evolução e dissociar em parte nossa visão em relação ao seu passado comunista para poder abranger melhor a complexidade da região. Pois, infelizmente, ao falarmos da União Soviética, uma falsa concepção de homogeneidade paira sobre nossas análises nos influenciando a cometer diversos erros. A fragmentação da própria URSS é o reflexo da heterogeneidade da região, seja ela econômica, étnica, cultural ou religiosa.

Na região da Ásia Central, convivem nações milenárias, de diferente modelos econômicos, assimetria na distribuição de recursos naturais, assim como diferentes sistemas de governo. A forma, ou modelo, usado pelos países da região é determinante para compreender sua evolução, sua inserção e seu status atual tanto no cenário local como no externo.

No caso do Uzbequistão, estamos falando de um país cuja civilização remonta aos tempos de Alexandre Magno e que posteriormente foi parte do Império Persa, motivo pelo qual mantém seu idioma de origem persa e tradições culturais da época. Ao ser integrado ao Império Russo adotou parte das tradições, mas sem total adesão, mantendo políticas produtivas e culturais semelhantes às de Moscou, porém com medidas que reforçaram certa estabilidade interna. Uma nação onde atualmente 90% da população são muçulmana sunita e o resto se dividem entre ortodoxos e outras religiões minoritárias.

Embora seja uma democracia desde sua fundação em 91, o governo do Uzbequistão é conhecido pela elevada intervenção no mercado e pela quase inexistente oposição no país, havendo tensões pontuais, mas uma continuidade de caráter conservador e quase autoritarista. A transição para a economia de mercado é feita de forma controlada, priorizando determinados setores, principalmente o de energia, após tentativas falhas do governo de planejar a agricultura, que ficou conhecida devido à catástrofe do mar de Aral.

O Uzbequistão é um forte produtor agrícola, está entre os maiores produtores de algodão do mundo e também produz commodities importantes como Urânio, minérios e fertilizantes. O país, por sua origem multiétnica e pela sua estrutura econômica, foi palco de importantes acordos para a manutenção da segurança da região devido às tensões étnicas, tais como o Acordo de Tashkent (1966) e diversos fóruns regionais, sempre tratando de conciliar os dois mundos em constante atrito na região.

Mas o maior trunfo da economia e política local é a exportação de gás, a indústria que surgiu durante a União Soviética, foi fortalecida com investimentos estrangeiros, principalmente da China e da Rússia nos últimos 10 anos, se transformando no motor da economia uzbeque. Atualmente, a venda de gás corresponde a 40% das exportações do país e representa 60% de toda a inversão estrangeira; havendo um imenso potencial, pois apenas 25% da capacidade de produção são utilizadas e a demanda chinesa, acompanhada pela demanda dos países ocidentais, é crescente.

O Uzbequistão participa de acordos regionais e com as principais potencias locais. Sua localização geográfica lhe posiciona próximo de importantes mercados com elevada demanda energética. A Europa pelo oeste e a China pelo leste, sendo a Rússia um parceiro importante no escoamento do gás.

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Pelo que podemos concluir, mesmo sob o véu do seu passado e convivendo com as pressões de importantes players internacionais, o Uzbequistão soube aproveitar suas condições para promover seu desenvolvimento econômico. Sendo que o modelo usado tem sido tão exitoso que está sendo adotado pelo vizinho Turcomenistão, que após o fim de uma longa ditadura, trata de se reconciliar e se inserir nessa nova dinâmica e que também está na lista das 13 nações que mais vão crescer.

Mesmo assim, o Turcomenistão parte de uma base inferior a do Uzbequistão, justamente devido às divergências na evolução política e econômica de ambas as nações. Essas variações nos ajudam a compreender que a Ásia Central e seus movimentos de integração e alinhamento podem ajudar a fortalecer players importantes na região e até mesmo ser um fator de peso para o futuro de países como Irã, Rússia, China e Índia. Essas nações possuem recursos que são a energia necessária para o motor das grandes economias e aos poucos restabelecem o que no passado foi a rota da Seda e que hoje se configura como a Rota da energia.

Imagens:

Taskent a moderna capital do Uzbequistão – By: tashkent_stolica_gorod_zdaniya_uzbekistan_biznes

Trem de Alta Velocidade em Tahskent fabricado pela empresa espanhola Talgo. by:«Hi-speed trains Afrosiyab (Uzbekistan)» de Guidecity.

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.

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