O acordo para suspensão das sanções econômicas ao Irã envolve muito mais do que centrífugas, urânio e plutônio. O compromisso que o país asiático selou com a China, a Rússia, o Reino Unido, a Alemanha, os EUA, a França e a União Europeia traz desdobramentos na geopolítica do Oriente Médio, da Ásia e da Europa; para a exportação petrolífera mundial e, claro, para a economia.

Essas sanções, em andamento desde 2006, e que afetam diretamente os setores energéticos, econômico e de defesa do Irã, só serão suspensas totalmente em oito anos, e ainda há um longo caminho a ser percorrido. A contagem regressiva começará daqui cinco ou seis meses, porque os tópicos do acordo ainda serão revisados por todas as nações que participaram das negociações e, depois disso, o Irã terá 65 dias para providenciar as medidas necessárias para começar a cumprir as exigências.

Para que todas as barreiras deixem de existir, o Irã deverá se desfazer de 2/3 de suas centrífugas; reduzir seu estoque de urânio de 10 mil kg para 300 kg em 15 anos; construir um reator de água leve, o que limitará o enriquecimento de plutônio; e manter o limite enriquecimento de urânio em 3,67% – valor muito inferior aos 90% necessários para construção de uma bomba.

Com o objetivo de confirmar o cumprimento dessas exigências, serão feitas inspeções semestrais nas usinas nucleares e também nas bases militares iranianas. Apesar de tudo isso, o embargo para importação de armas e mísseis durará cinco e oito anos, respectivamente.

Impacto social pela influência econômica

Na política interna, a suspensão das sanções irá permitir que os iranianos possam entrar em países do ocidente com maior facilidade. Essa é uma das maiores demandas da população, que deseja estudar no exterior, adquirir produtos ocidentais e manter contato com outras nações. Há um trecho no acordo que explicita a intenção de cooperação internacional entre organizações iranianas e da União Europeia.

Nos próximos anos, a sociedade iraniana sofrerá alterações por causa da entrada de empresas ocidentais no país, que possui um mercado consumidor composto por 77 milhões de pessoas. Também há o fato de que o fim dos embargos liberará US$ 100 bilhões de dólares pertencentes a iranianos que estão congelados.

Esse crescimento econômico terá suas particularidades, já que os iranianos não vão consumir como os ocidentais, mas serão mais um grupo para adquirir produtos. Um exemplo dessa expectativa é a comitiva alemã que desembarcará no domingo (19/7) no país asiático. Atualmente, os países que mais enviam produtos ao Irã são a China, a Turquia, a Coreia do Sul e a Índia. E as maiores aquisições são ouro, trigo, ferro, milho e arroz.

Terã
Crédito: Shargroup

Ator energético

A quarta maior reserva de petróleo do mundo, com 10% do total, já é cobiçada sem nem ainda ter cumprido as exigências estipuladas. Os maiores interessados no aumento da oferta petrolífera são a China, a Índia, a Coreia do Sul e o Japão. Atualmente, o Irã exporta 1,1 bilhão de barris por dia, sem as sanções esse total passará para 2,5 bilhões barris diários. A expectativa é que o Irã produza 5 bilhões de barris até 2020, mas para tal serão necessários investimentos de US$ 70 bilhões.

Uma boa parte do acordo firmado foca na possibilidade de prospecção por empresas europeias e na compra de componentes ocidentais para extração de petróleo. Isso pode auxiliar na recuperação econômica dos EUA e da Europa, que são os principais fornecedores de equipamentos para a atividade e também são sede das principais empresas do ramo (Shell, Exxonmobil, BP, Chevron).

Com esse aumento na oferta, a não ser que outros grandes produtores de petróleo fechem suas torneiras, o preço da commoditie deverá cair ainda mais. Atualmente, a cotação do barril brent tem sido de US$ 52 dólares. Países como Rússia, que apoiou o Irã nas negociações e agora terá um concorrente regional na produção de petróleo, Arábia Saudita e Kuwait devem sofrer impactos em suas balanças comerciais com a queda do valor do produto. Lembrando que a maioria das nações produtoras de petróleo têm suas exportações fortemente atreladas ao combustível fóssil.

Incremento econômico

Na economia, as mudanças serão as mais diversas e abrangentes. No acordo firmado entre as nações há várias citações sobre a liberação irrestrita de operações financeiras, desde compra de dólares até as operações de hedge. Essa movimentação, facilmente fortalecerá a entrada de investimento externo no país

Também merece destaque o fato de que bancos iranianos poderão se instalar em solo europeu e, assim, atender o grande número de árabes que vivem na França, no Reino Unido, na Holanda, na Alemanha e na Suécia. Ao todo, 800 instituições financeiras serão liberadas de qualquer sanção.

Essa infraestrutura bancária poderá facilitar a manutenção de iranianos capacitados em seu país de origem, além de aumentar o envio de remessas para o Irã. Esses movimentos financeiros ocorrem porque os imigrantes iranianos são qualificados e, em muitos casos, têm uma boa condição financeira.

Mas esses cidadãos possuem parentes em sua terra natal e poderão enviar rendimentos mais facilmente. Não na mesma intensidade, mas esse movimento é similar ao que acontece em países como o Kuwait, Omã e Iêmen; que possuem uma parcela significativa de seu PIB formada por remessas financeiras vindas do exterior.

Defesa e geopolítica

Hoje, no Oriente Médio, os dois conceitos são muito próximos por causa dos diversos conflitos sectários que ocorrem simultaneamente na Região. O fortalecimento do Estado iraniano poderá frear a expansão do Estado Islâmico (EI), principalmente na Síria. O EI (sunita) é inimigo declarado do Irã (xiita). Essa diferença ideológica será mais nítida nos combates na Síria, que é aliada do Irã.

Mesmo com essa influência, por enquanto, qualquer operação conjunta com forças ocidentais já foi negada pelo presidente dos EUA Barack Obama. Ele afirmou que que o acordo suspende as sanções econômicas, mas não significa que as relações diplomáticas serão reatadas, muito menos é um embrião de uma futura força militar internacional contra o grupo terrorista.

Com esse acordo, a Europa e os EUA conseguem começar a minar o avanço do Estado Islâmico nas duas frentes que o grupo atua, pois, juntamente com a reaparição do país asiático, o regime de Bashar Al Assad também poderá se fortelecer, conseguindo equilibrar a balança de poder e, talvez, eliminar os diversos grupos participantes da guerra civil Síria, entre eles, o EI. Essa nova influência iraniana também servirá para compensar a redução de apoio russo, que passa por uma situação complicada por causa das sanções promovidas pela Europa e pelos EUA devido à invasão da Crimeia.

No Iraque, que também é governado por xiitas aliados do Irã, as perspectivas também são positivas em relação à violência interna, também muito fomentada pelo EI. Lá, as apostas dos EUA são mais fortes de que um empoderamento iraniano irá eliminar o grupo terrorista de solo iraquiano.

Já na ala da oposição está Israel, um dos maiores críticos do acordo, chegando a classificá-lo como um erro histórico. Para o país, historicamente aliado dos Estados Unidos, o acordo com o Irã aumentará ainda mais o poder militar iraniano. Como resultado, o conflito na Jordânia, que envolve o Hezbollah – grupo extremista islâmico patrocinado pelo Irã – poderá se intensificar. Esse crescimento armamentista também deve incomodar o Egito, que já guerreou com Israel no fim da década de 60 (conflito conhecido como Guerra dos Seis Dias) e também possui uma linha ideológica diferente do Irã, mas que tem em comum a Rússia como aliado.

Publicado por:Brenno Grillo Luiz