Papa_Francesco_USA-Cuba

Durante muito tempo a religião foi a grande força transformadora do mundo sendo usada desde a antiguidade como justificativa para a manutenção do poder, a expansão territorial, as guerras e litígios entre povos. Com o surgimento do antropocentrismo no mundo ocidental, a religião acabou aos poucos sendo delegada a um segundo plano e, atualmente, poucos a consideram como um fator decisivo nas análises internacionais; adicionando a mesma ao complexo mundo dos fatores culturais, que embora importantes, não constitui um elemento de peso na balança de poder, sendo classificado como um tipo de softpower – habilidade de um Estado de indiretamente influenciar os interesses, por meios culturais ou ideológicos, outros atores.

Mas é preciso separar a religião do conceito de cultura., pois a religião é um conjunto de crenças e ritos de uma população; enquanto o termo cultura possui um significado muito mais abrangente, sendo um conjunto não somente de crenças, como: hábitos, costumes, leis, conhecimento, moral, entre outros fatores que compõem uma sociedade.

Se por um lado a cultura se caracteriza por sua capacidade de estar em constante evolução, a religião se caracteriza pela vontade de se perpetuar, de forma quase inalterada, ao longo dos séculos, ditando, e não sendo ditada. Basta lembrar que no mundo judaico-cristão a máxima “como era no principio agora é sempre” ecoa ao longo de séculos.

A religião possui uma particularidade específica, que, embora possa estar presente de forma dispersa no processo cultural, parece ser algo inerente de própria sua própria existência: a capacidade de permear nossos valores e até mesmo modificar a escala de nossas prioridades, podendo ser levada ao extremo, como vemos em determinados grupos fundamentalistas.

Mesmo hoje sendo delegada ao mundo das ideias ou à vida particular dos indivíduos e não mais como fator político ou de estudo nas relações internacionais, não podemos negar que a religião permeia praticamente todas as esferas do cenário público. Basta analisar a realidade de diversos países e ver como a religião está representada por fortes grupos de interesse (partidos políticos, instituições, organizações, etc), sejam eles conservadores ou progressistas. Sendo, talvez, mais difícil calcular o impacto da mesma do que tentar estabelecer padrões críveis para sua análise.

Outro fato importante é compreender que a secularização ou pseudo-secularização da política no mundo não se produziu de forma homogênea e generalizada. Existem países onde a religião ainda forma parte dos sistemas jurídico, de governo, e até mesmo das relações diplomáticas. Desse modo, mesmo havendo um acordo tácito no panorama mundial sobre o efeito dos choques culturais, reduzir a religião á esfera de uma manifestação cultural pode colocar em perigo a inserção desses países no cenário mundial ou a nossa compreensão em relação a eles.

Como ferramenta diplomática, a religião não é algo novo. Apesar de poucos estudarem seu impacto, ela foi usada por grande parte dos papas de Roma, com destaque especial para as viagens internacionais e os concílios ecumênicos feitos pelo pontífice João Paulo II, onde o diálogo inter-religioso ganhou mais representação, e por outros líderes religiosos, tais como o Dalai Lama.

Atualmente, o Papa Francisco é um grande exemplo disso. O reconhecimento da Palestina não teria nenhum peso se o Vaticano fosse somente um pequeno território dentro da cidade de Roma. Nesse caso, a religião volta ao cenário político mundial. Não da forma dogmática, como antigamente, mas mediante à defesa de uma visão de mundo, que pode nos ajudar a entender sistemas políticos onde as crenças religiosas estão presentes na formulação do poder e do Estado – como no caso dos países árabes, sendo visível na figura do Aiatolá, ou nas monarquias islâmicas de bases teocráticas.

Também no mundo ocidental, a religião ainda possui um peso importante na formulação política e, consequentemente, no comportamento dos países dentro do panorama mundial. Basta analisar alguns casos (casamento entre homossexuais, aborto, células-tronco, divórcio, etc) para se ter uma percepção da influência religiosa no cenário político de cada nação, sendo impossível ignorar seu papel nas relações diplomáticas e no equilíbrio de sistema internacional.

A globalização promove o constante atrito entre culturas, visões de mundo e religiões, de modo que parece ser compreensível a necessidade de criar canais nas diferentes esferas e entender a dinâmica inerente de cada uma delas. De essa forma contemplar a religião não como algo dogmático, espiritual ou místico, mas como um fator importante capaz de permear todo o processo decisório e consequentemente as ações no cenário mundial, sendo um fato de peso dependendo da esfera analisada e do país ou cenário analisado. Somente considerando esse fator poder realmente tecer analises eficientes sobre o crescente fundamentalismo, sobre o impacto das viagens do Papa entre outros acontecimentos.

Parece que os líderes religiosos entenderam a relação entre a Religião e Política. A Encíclica do Papa, com alto teor ambientalista, suas viagens a América Latina e ao seio da igreja Ortodoxa são exemplos de como a religião impacta na realidade do mundo. Se desejamos realmente compreender a realidade de todos os países e atores do cenário internacional, não podemos deixar este de lado.

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.