Assim como toda ciência, ou método investigativo científico, as Relações Internacionais precisam eleger uma série de ferramentas e pressupostas para realizar sua análise.

Um conceito central é a existência e determinação dos agentes, ou atores (na linguagem das RIs), sendo eles o Estado-nação e as Organizações Internacionais (OI). Todos os demais agentes sociais devem ser representados por intermédio de um desses atores, por um lado por não possuírem legitimidade de pleito em foros internacionais, por outro por serem considerados peças constitutivas desses atores. Isso não quer dizer que só Estados e OIs provoquem oscilações no cenário internacional. As análises majoritárias se focam nos atores clássicos.

Relações entre Estados explicam de maneira conceitualmente lógica os conflitos de interesse entre esses agentes, ainda que tais interesses emanem de um fractal dentro do próprio Estado. No entanto, pouco explicam as consequências e ressonâncias no cenário “interno”. Existem outras ciências que tratam de questões domésticas, mas o que ocorre quando questões internacionais forçam fatos sociais nacionais a entrar em choque com outro fato social nacional, de Estados diferentes. Exemplo: movimentos migratórios de refugiados.

Uma série de outros tais eventos, como calamidades naturais ou migrações de força de trabalho, provocam as políticas internas dos atores estatais, atingindo, ao mesmo tempo, políticas internacionais. Têm-se um campo de análise no meio dessas políticas (internas e externas), algo não muito bem compreendido entre os atores clássicos e os agentes sociais.

Esse espaço de interação marginal é definido como tal por um conceito quase nietzschiano de pares de oposição: Estado versus comunidade autóctone; dentro da lei versus fora da lei. É nesse par que o Estado encontra a ferramenta para se legitimar, afinal, para impor a lei é preciso que aja o fora da lei; para tratar do internacional é preciso haver o nacional e; para haver foros de discussão de assuntos internacionais é preciso haver “classes” diferentes de Estados em conflito.

Essa diferenciação causa uma série de estranhamentos e principalmente, dita regras de cima para baixo – o que, além de provocar preconceitos e reafirmá-los constantemente, cria monstruosidades sociais de difícil compreensão: pessoas que não se sentem pertencentes à um determinado meio social migram para formar uma milícia organizada, defendendo uma ideologia por vezes diametralmente oposta ao Estado(s). Refiro-me a Canudos, mas pode muito bem se referir aos movimentos que vemos hoje em dia no Oriente Médio, África, Europa…

A ideia de uma perspectiva orientalizante (como mostrada por Edward Said), que forçosamente enquadra sociedades e pensamentos sob a ótica eurocêntrica, provoca disparidades que, até o presente momento, não conseguiram ser resolvidas ou sequer compreendidas pelas abordagens dos Estados e OIs – salvo, claro, quando no uso da força, mas aí podemos resolver qualquer fato que não compreendemos pela extinção sumária do mesmo.

Será que inventamos um remédio ou inventamos um “problema” para justificar o remédio?

O Estado existe de forma marginal entre as políticas públicas nacionais e as intervenções internacionais, seja por meio da imposição da lei vigente, da lei de exceção ou da omissão programada. Apesar de parecer, não há um espaço vazio entre o Nacional e o Internacional, mas uma zona de atrito extremo, que se manifesta nas duas esferas, com extreme prejudice.

Talvez uma ótica multidisciplinar possa propor ao menos uma discussão sobre o espaço entre as interações desses atores sociais.

Das, Veena – Anthropology in the margins of the State

Said, Eward – O Orientalismo

Cox, Robert – Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory

Publicado por:Pedro Coutinho

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