Embora os termos “mundo islâmico” ou “mundo árabe” são usados com frequência na área das relações internacionais e outras ciências sociais, ambos foram marcados com os acontecimentos do pós-Guerra Fria e pelas tensões decorrentes do atrito entre as civilizações principalmente após a intensificação do processo da globalização. Existe uma visão global compartida dos países árabes. Observância essa similar ao que acontece com os países da América Latina, que permeia todos os atores do cenário internacional e acaba padronizado uma visão homogênea equivoca e distante da realidade dos países árabes.

O mais interessante é que o mundo ocidental parece julgar o mundo árabe assumindo uma posição de superioridade – de evolução versus atraso, de desenvolvimento versus subdesenvolvimento -, fazendo com que tudo aquilo aquém da nossa visão clássica do mundo árabe entra na categoria de exótico ou de trunfo – da sobreposição do nosso mundo ao deles, como por exemplo, Dubai.

Nessa divisão do mundo em civilizações, é curioso o fato de que as duas maiores, tanto a civilização judaico-cristã como a civilização islâmica, surgiram em regiões geográficas muito próximas, são monoteístas, foram influenciadas por culturas históricas do oriente médio e da Europa, foram herdeiras de grande parte do Império Romano, uma de Roma e outra o Império Bizantino (Roma oriental) e mesmo assim não são capazes de ver as semelhanças existentes, mas ressaltam suas divergências continuamente.

No apogeu do mundo árabe, que vigorou do Século VIII ao XIII, a Europa cristã estava em plena idade das trevas, discutindo se o mundo era plano ou redondo, podendo dessa forma ser considerada a sociedade menos evoluída. Já os árabes tinham universidades em todas as grandes cidades, população majoritariamente urbana, possuíam sistema monetário, técnicas de produção agrícola avançada e a consciência do humanismo e da ilustração. O lema do mundo árabe era “A tinta dos sábios vale tanto quanto o sangue dos mártires” e essa época ficou conhecida como a Era de Ouro Árabe.

Mas com o declínio do império no século XIII, após sucessivos ataques do mundo cristão durante as cruzadas, a expansão dos estados nações da Europa e a dominação dos mongóis ao leste; as ideias humanistas parecem ter desaparecido e foram semeadas as raízes do mundo árabe atual. O imperialismo Europeu e o avanço da visão ocidental alimentaram nossa visão de mundo, e todo o legado árabe praticamente se dissipou com o passar do tempo.

Quando o general Egípcio Nasser, tentou recuperar o mundo árabe do passado através do pan-arabismo ou do movimento que ficou conhecido como Nassarismo, em 1954, o mundo árabe já estava dividido como um grande mosaico formado por pequenos pedaços de vidro que, embora visto de longe, forme uma imagem. Seus pequenos fragmentos emitem reflexos próprios.

Cada país do mundo árabe reflete a complexidade do mundo islâmico, as influências econômicas e culturais que exerceram e exercem pressão em sua formação. Podemos até ter uma imagem generalizada do mundo árabe, como quando vemos o desenho de um grande mosaico, mas cada uma das peças sempre terá características próprias. Somente analisando o Auge da civilização islâmica podemos entender os diferentes meandros que seguiram cada uma das nações que hoje integram o que denominamos mundo árabe. Ao entendermos essa evolução e o papel que o atrito entre as civilizações teve no decorrer da história, seremos capazes de construir uma visão global das coisas, e dessa forma veremos que por cada mosaico islâmico existe um vitral.

Publicado por:Wesley S.T Guerra

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comercio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura, MBA em Marketing Internacional pelo Massachusetts Business Institute e Mestrado em Políticas Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Membro do Smartcities Council, IAPSS International Association for Political Sciences Students, Aliança Europa-Latina para Cidades e ECPR European Consortium for Political Research. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça. Atualmente cursando doutorado na Espanha na área de Relações Internacionais. Atual colaborador do IGADI, CEIRI e REDEss.